O Decadentismo nas artes – Gustave Moreau

Ana Carolina Machado de Souza
O século XIX trouxe um novo espírito, uma nova maneira de se enxergar e escrever sobre a vida, não só para as artes, mas também para a literatura, a música, o teatro, entre outros. Muito se diz sobre o romantismo, talvez a principal referência que fazemos ao pensar naquele século, todavia, trazemos aqui uma proposta diferente, e trabalharemos o Decadentismo.
O decadentismo, mais do que um estilo artístico e literário, foi um estado de espírito, uma filosofia de vida. Os jovens do século XIX estavam enfadados com a profusão das teorias cientificistas, que deixavam pouco espaço para as explicações metafísicas e subjetivas do mundo e deles próprios. Neste momento,  surgiram novas maneiras de se pensar este período, marcado por evoluções tecnológicas, e alguns, atormentados pela inquietude e o ceticismo, “criaram” o pensamento simbolista e, por conseqüência, decadente. O simbolismo foi uma escola literária muito difundida na época, contudo, não é o tema principal desse post. A diferença primordial entre os dois é que o Decadentismo foi a expressão de um estado de espírito que marcava a concepção pessimista da vida.
 Gustave Moreau foi o pintor aqui escolhido para exemplificar o espírito decadente nas artes. Ele é de nacionalidade francesa e começou a pintar dentro de uma estética mais realista, completamente diferente da estética da qual será um dos maiores expoentes. Com influências de outros pintores, como os pré-rafaelitas (Jan Toorop, Félicien Rops, entre outros), e de outras correntes filosóficas, passou a conceber trabalhos que posteriormente foram classificados como simbolistas/ decadentistas. Ele pregava que a inspiração nunca seria encontrada no objeto a ser pintado, pois ela seria única e exclusiva do pintor, ou seja, a obra seria executada a partir do que foi sentido por ele.
Contudo, definir qual escola e estilo que cada pessoa fez parte é rotular, um trabalho majoritariamente injusto. Estas obras que analisarei pertencem ao espírito decadentista que o francês tanto retratou com genialidade. Muitas vezes nomeado de pintor das letras, Moreau conseguiu traduzir em imagens o que os simbolistas e decadentistas (como Paul Verlaine, Maurice Maeterlinck, entre outros) escreviam com tanto ardor, um mundo cético, triste e pesaroso. Com pinceladas firmes, uma paleta arrebatadora em certos pontos, uma ornamentação rica, digna de uma influência orientalista que chegou aos franceses, Moreau é considerado um dos grandes expoentes do decadentismo e simbolismo nas artes, assim como Odilon Redon, Paul Gaguin, Edvard Munch, entre outros.
Um exemplo é a célebre obra A aparição (1876):

A aparição (1876)

Ele apresentou essa obra num Salão de artes em 1876, e surpreendeu a todos por certas inovações na composição, como a cabeça de João Batista levitando, a  áurea dourada ao seu redor e o sangue pingando mostram o espírito. Contudo, o que mais impressiona é Salomé, toda adornada com jóias e poucas vestes, apontando para aquele a quem ela provocou a morte.  A imagem da mulher é quase uma obsessão nas obras de Moreau. Nós encontramos a heroína mitológica, ou bíblica (como Salomé), e na maioria dos casos há uma maldição, um distúrbio ao seu redor. Neste caso, como dito, a personagem encomenda a morte de São João Batista.
Duas outras obras que trazemos é de uma poetisa grega antiga, chamada Sapho, e o nome dos quadros são Sapho no Leucade (1871-72) e Sapho sobre a falésia (1872). O mito retratado nas artes é o de sua morte, quando se suicidou se atirando do rochedo de Leucade ao mar, por causa do amor não correspondido de Faonte.

Sapho no Leucade (1871-72)

Sapho sobre a falésia (1872)

Observa-se a perícia do pintor em capturar um momento de intenso sofrimento e dor. Sua posição na rocha mostra um pesar, as maneiras como seus braços e pernas estão dispostos parece querer nos passar a impressão de que ela está completamente desolada. Sapho está entregue a essa dor do abandono, do amor não correspondido que traz o desespero. Todavia este não é incontrolável, no qual a mulher perde completamente a cabeça e a compostura, é a pura e simples dor, tão grande e insuportável que o mise en scène é descartável. Em ambas, Moreau retrata o momento anterior ao suicídio, e me parece ser o lapso de reflexão da personagem, contudo não no sentido de reaver sua decisão, pois a dor é demasiadamente forte para que ela consiga permanecer no mesmo espaço que Faonte. Ela parece refletir sobre sua própria vida e como chegou naquele derradeiro momento.
Moreau foi um mestre na cor e no caligrafismo, e a atmosfera mística, misteriosa e mágica encontrada em suas obras são puros reflexos da sua técnica apurada. Contudo, antes de mais nada, podemos perceber o quanto o artista sentiu essas obras antes de compô-las. Um outro pintor belíssimo que discorreu sobre o sentimento nas artes, foi Eugène Delacroix, o autor da imagem do nosso blog. Mas ele pertenceu a outra escola, e isso é assunto para outro post…
Dica:
Oscar Wilde – Salomé (1893)
Web Gallery of Art – várias reproduções em ótimas qualidades – www.wga.hu

 

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4 respostas para O Decadentismo nas artes – Gustave Moreau

  1. Jorge Dantas disse:

    Parabéns pelo Blog.
    Fico honrado pelos comentários postados no blog que criei (http://cliojorge.blogspot.com/) e feliz pela quantidade de blogs sobre história criados e pela qualidades de blogs como este.

    Logo, logo estarei com atualizções no blog e espero contar com seus cometários e sugestões.

    Jorge Dantas

  2. Vinicius disse:

    Excelente post, conteúdo bem interessante

    É impressionante quando falamos de alguém com grande técnica já podemos links outra grande referencia (como Eugène Delacroix que vocês mencionaram).

    Vocês teriam alguma email pra contato?

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