Revolução Russa

Ana Carolina Machado de Souza
A Revolução Russa de 1917 foi um evento político realizado em função da crise da autocracia czarista, levando à eliminação desta culminando na tomada do poder pelo governo bolchevique. A Revolução deu origem à primeira nação socialista do mundo com a formação da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).
Diversas conjunturas levaram ao colapso da monarquia do Czar Nicolau II. O país ainda vivia em regimes considerados feudais, com a situação econômica basicamente agrária, ou seja, não se industrializaram assim como outros países da Europa. Contudo, é errôneo pensar que a Rússia era um país somente agrário. No governo do Czar Alexandre III, entre 1881-1894, houve um estímulo industrial, porém de pouca proporção já que o país era muito populoso. Desse modo a industrialização limitou-se às grandes cidades, criando um grande número de operários e uma classe média ascendente. Um aspecto comum entre os dois era pobreza, pois, assim como os camponeses viviam nessas condições extremas, os operários eram explorados pelos industriais. Contudo, as mudanças em relação ao campo tornaram-se visíveis, já que, a escolarização era necessária para a indústria; e o contato com culturas de outros países tornou-se mais constante. Mudou, assim, as manifestações e costumes nacionais, que sofriam, naquele momento, outras  influências.
Nicolau II em 1894
Outra conjuntura era a diversidade étnica existente na Rússia. O governo russo implementou, durante o reinado de Nicolau I (1825-1855), uma política chamada nacionalidade oficial, que possuía três pontos base fundamentais: a Igreja Ortodoxa Russa; autocracia dos Czares; e o predomínio do povo eslavo. O país era composto por diversos grupos diferentes, entre eles, poloneses, bálticos, asiáticos, finlandeses, e as minorias não eram protegidas pelos governos czaristas. Eram vitimas de violências proporcionadas pelas maiorias étnicas que lá viviam, e o descaso na segurança, entre outros problemas, fazia com que surgissem movimentos separatistas.
Outra grande crise foi a militar. Apesar de possuírem um dos maiores exércitos do mundo, haviam sofrido baixas significativas com as diversas guerras ocorridas durante o século XIX, como a Guerra da Criméia (1853-1856) e a guerra contra o Japão no século XX (1904-1905). Ao entrar na Primeira Guerra, eles estavam com pouca credibilidade com a própria população.
Além dessas conjunturas, uma efervescência cultural que ocorreu no país nesse período incomodou ao governo czarista, já que a liberdade de manifestação de grupos contrários era censurada. Todas essas crises e problemas encontrados foram estopins para o surgimento de movimentos políticos bem organizados que procuravam transformações na Rússia.
Os partidos políticos mais conhecidos foram o POSDR (Partido Operário Social-Revolucionário Russo), de 1898 e o Partido Social-Democrata Russo, de 1902. Porém, houve divisões dentro desse entre duas facções:
  • Bolcheviques, mais radicais, liderados por Lênin, buscavam uma luta revolucionária para a transformação efetiva da política na Rússia
  • Mencheviques, mais moderados, liderados por Martov, acreditavam num desenvolvimento pleno do capitalismo antes de iniciarem uma luta revolucionária.
Nicolau II, então, criou a Duma, uma espécie de parlamento, algo inexistente até então em seu governo, numa tentativa de ganhar tempo e contornar o problema. Ele prometeu, no Manifesto de Outubro, entre outros, realizar reformas na Rússia, e criar uma Constituição, portanto, daria início a um governo constitucional. Alguns partidos com tendência mais burguesa aceitaram a oferta, os que visavam uma transformação total não. Em 1905, a situação tornava-se cada vez mais tensa para o governo, pois os movimentos políticos que buscavam uma reforma estrutural no país cresciam. As promessas realizadas pelo czar não se cumpriram e a Duma tinha uma ação limitada e não resolveu a crise econômica e social.
Em janeiro 1905 ocorreu um episódio denominado Domingo Sangrento, no qual uma manifestação com cerca de 200 mil pessoas foi duramente repreendida pela guarda de Nicolau II, resultando na morte de diversas pessoas. Foi um momento chave para a explosão de greves e motins no país, como a queima de fazendas pelos camponeses, ou até a conhecida revolta no encouraçado Potemkin. Nesse mesmo ano surgiam os primeiros sovietes,  que eram conselhos formados por trabalhadores que organizavam os movimentos contra o regime autocrata.
massacre do “Domingo Sangrento”, Ivan Vladimirov, c. década 1910
Com diversos problemas graves no país, além da perda significativa de soldados na Primeira Guerra, a situação do governo absolutista de Nicolau II tornou-se insustentável. Em fevereiro de 1917, um grande número de trabalhadores e manifestantes invadiram uma reunião da Duma e os soldados russos se recusaram a reprimir o movimento, temendo um massacre como ocorreu em 1905. Portanto, sem força política e militar, o czar abdicou e instaurou-se um governo provisório. Essa foi a chamada Revolução de fevereiro de 1917, considerada de teor mais burguês.
Começou aí outra disputa: quem ficaria no poder. De um lado os sovietes de Petrogrado (até então a capital da Rússia), trabalhadores e militantes socialistas; de outro os deputados da Duma, basicamente liberais. Estes, ao fim, lideraram o governo provisório, com o comando do príncipe Georgy Lvov, e como ministro da Guerra um indivíduo que passaria a ser conhecido na História, Alexander Kerensky.  Um dado importante é que a Rússia manteve-se na guerra, e o ministro organizou uma ofensiva contra a Áustria-Hungria, mas, novamente, obteve baixas. O grupo de Petrogrado queria outra maneira de governar, lutavapela distribuição de terras para os camponeses, a criação de um exército voluntário, fim da participação na guerra e a mudança definitiva na política russa.
Lênin (Vladimir Ilitch Ulianov) estava no exílio, devido ao seu posicionamento contrário aos czares, porém regressou quando Nicolau II abdicou. Uma das suas primeiras ações foi dirigir-se à população incitando uma revolução socialista, já que o governo provisório não era a melhor solução aos problemas russos. Buscava a nacionalização das propriedades privadas e bancos, era contra o modelo liberal e publicou as Teses de Abril, da qual surgiu  o lema “Todo poder aos sovietes”, com a premissa de um governo dirigido ao povo russo pelos trabalhadores.
Lênin discursando, 1920
Toda uma articulação do movimento de esquerda simbolizado pelos sovietes passou a vigorar com mais força, principalmente com a decisão do governo de permanecer na Primeira Guerra. Leon Trostky já organizava um exército bolchevique, a Guarda Vermelha, e os trabalhadores, percebendo sua força política, a fraqueza do governo de Kerensky (que se tornou chefe de estado em julho de 1917), e incitados pelos discursos calorosos de Lênin, iniciaram a revolução soviete.
Em outubro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder em diversos locais da capital, bloqueando vias de acesso, como estradas e ferrovias. A partir daí, invadiram o Palácio de Inverno, a sede do governo, cercaram os membros do governo provisório, e fixaram-se no local. A Revolução de Outubro estava feita, só faltavam as diretrizes do novo governo de influência socialista.  O poder agora estava com o Conselho de Comissários do Povo, no qual a maioria era bolchevique, contudo, existiam partidários que ainda não estavam plenamente satisfeitos ou que possuíam certa resistência à revolução. Um consenso entre todos era a necessidade de uma assembléia constituinte. Com a votação, os bolcheviques perderam a maioria por poucos votos e Lênin, sendo o dirigente do partido, publicou Teses sobre a assembléia constituinte, pela qual argumentava ser uma “democracia soviete mais importante do que a própria constituinte. Apesar de votos contrários, a cúpula do partido decidiu fechar a assembléia, e um governo somente soviete passou a vigorar.
Lênin publicou diversos decretos embasados nas Teses de Abril, e um dos primeiros atos do governo foi o tratado de Brest-Litovsk, em 1918, pelo qual a Rússia reconhecia sua derrota na guerra. Além disso, outras ações foram o confisco de propriedades privadas e a distribuição aos camponeses, assim como a nacionalização de algumas empresas.
Os problemas sociais e econômicos da Rússia não estavam ainda sendo resolvidos e partidários contra o regime bolchevique passaram a se mobilizar. Uma Guerra Civil estava para explodir, mas isso já é história para outro post….
Obs: as datas Fevereiro e Outubro são provenientes do calendário russo, que é 13 dias atrasado em relação ao nosso.
Dicas:
Filmes:
O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein (1925)- sobre a rebelião de 1905, uma das grandes obras de Eisenstein e considerado um marco na cinematografia mundial.

Doutor Jivago, de David Lean (1965) – a Revolução Russa de 1917 é o plano de fundo para a história de amor dos protagonistas. Uma obra premiada entre as maiores academias do mundo, ganhadora de 5 Oscars, 5 Globos de Ouro, 1 Grammy, além de indicações aos Prêmios de Cannes, o Bafta e David di Donatello.
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4 respostas para Revolução Russa

  1. Thayná disse:

    Ótimo texto! Obrigada, me ajudou bastante. *-*

  2. Talitta disse:

    adorei o conteúdo.

  3. Jessy disse:

    Muito claro e tem bastante conteúdo sobre a revolução. muito obrigada aos que o elaboraram….

  4. Ana Carolina: parabenizo pelo brilhante trabalho apresentado sobre a Revolução Russa. objetivo. cristalino e robusto
    Parabens mais uma vez
    João Lourenço da Silva Netto
    Advogado- Historiador e Escritor
    e-mail: jlourenco@terra.com.br
    site http://www.jlourenco.com

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