Neocolonialismo

Ana Carolina Machado de Souza
O Imperialismo Europeu, ou Neocolonialismo, foi um complexo processo de dominação de áreas do globo, como África e Ásia, realizado pelas potências industriais da Europa que surgiam na época. No século XIX as nações européias disputavam acirradamente o domínio do continente africano e suas riquezas. A partir da chamada Segunda Revolução Industrial, em 1860, houve uma grande mudança na utilização de novas matérias primas e fontes de energia, portanto, um período de grande expansão econômica para essas potências européias. Houve o domínio de empresas monopolistas, com uma grande concentração de capital, sem possuir a estimulação da livre concorrência, assim como a ascensão do mercado consumidor, que cresceu exponencialmente durante o século XIX.
Para essa nova ordem econômica ocidental que crescia, o capitalismo, o êxodo de mão-de-obra não era o mais interessante, já que as necessidades imperialistas poderiam ser abarcadas no próprio território. No cenário político, uma questão de extrema importância foi o Congresso de Viena, em 1815, que foi remodelado anos depois com a entrada da Itália e da Alemanha, que tiveram uma unificação tardia. Esse Congresso foi, em suma, uma reunião dos países europeus com a intenção de reorganizar o mapa político do continente com o fim das guerras napoleônicas. Portanto, a partir desse momento, as monarquias foram restauradas e novas alianças foram promovidas. As disputas pelos territórios tornaram-se mais acirradas a partir da década de 1870, com a unificação da Itália e da Alemanha. A reivindicação por espaço na briga colonial já ocorreu logo após os processos de união e, devido a esse ambiente de competição desenfreada, alianças entre os países foram feitas para alcançarem os objetivos desejados. Um desses elos obteve o nome de Tríplice Aliança, em 1822, uma união militar entre Alemanha, Itália e o Império Austro-Húngaro (parte da Áustria, Croácia, Hungria, Itália, Montenegro, Polônia, Romênia, Sérvia, Eslováquia, Eslovênia, Ucrânia, Bósnia, República Tcheca). A hostilidade presente nessa corrida imperialista marcou um momento histórico, o final do século XIX, e a conquista da África foi um embate que ecoou até a Primeira Guerra Mundial.
A Revolução Industrial desenvolvia-se na Europa, a busca por matérias primas e mercado consumidor cresceu exponencialmente no período. Os produtos minerais, encontrados principalmente na parte sul da África, foram fontes de conflitos entre as diversas nações colonialistas, e um exemplo disso foi a guerra entre ingleses e bôeres, que ocupavam a região sul-africana desde o século XVII.

Cabe aqui uma pequena contextualização dessa batalha. Desde o Congresso de Viena aquela região foi posta em domínio britânico, portanto os bôeres foram obrigados a partir para o norte, onde fundaram uma república, e este novo solo estava repleto de minerais preciosos. Essa região também era de interesse inglês, não só pelo conteúdo lucrativo, mas também por ser passagem entre as Índias, já que um antigo sonho era unir desde o sul africano até o Cairo, uma posição estratégica no continente. Portanto, com esse conflito de interesses ocorreu uma disputa entre esses povos, a chamada Guerra dos Bôeres, entre 1899 e 1902, definida e dimensionada por Wesseling:
A guerra Bôer foi a maior de todas as guerras coloniais travadas na era imperialista moderna. Durou mais de dois anos e meio (11 de outubro de 1899 a 31 de maio de 1902). A Grã-Bretanha forneceu aproximadamente meio milhão de soldados, dos quais 22 mil foram enterrados na África do Sul. O número total de perdas britânicas – mortos, feridos e desaparecidos – foi de mais de 100 mil. Os próprios bôeres mobilizaram quase 100 mil homens. Perderam mais de sete mil combatentes e quase 30 mil pessoas nos campos de concentração. Um número não especificados de africanos lutou dos dois lados. Não se registram suas perdas, mas provavelmente atingiram dezenas de milhares. (WESSELING, H. L. Dividir para dominar: a partilha da África, 1880-1914. São Paulo; Rio de Janeiro: Revan: Ed. da UFRJ, 1998, p. 359)

Soldado bôer morto durante a guerra

A exploração da África e Ásia tornou-se primordial para a manutenção dessa nova política econômica em vigência nos países europeus, e mais tardiamente nos Estados Unidos. Estes passaram a intervir politicamente, realizando alianças com essas regiões, no intuito de estreitar o relacionamento e, por ventura, passar a dominar por completo aquele outro país. Contudo, essas práticas suscitaram conflitos entre as potências envolvidas, pois cada uma reivindicava o direito por determinados territórios. Uma das soluções encontradas, em relação ao continente africano, apresentada no Congresso de Berlim, de 1885, foi a partilha da região entre os países europeus.

Partilha da África

Essa busca acirrada por novos territórios, o processo de dominação política e econômica de outro país em função do abastecimento do novo sistema econômico dominante foi denominada de Neocolonialismo. Contudo, não foram somente motivos políticos e econômicos que levaram à ação imperialista européia nos continentes africanos e asiáticos. Não podemos esquecer as sustentações ideológicas e filosóficas encontradas para o sistema, assim como o espírito que permeava a época. Teorias como o “darwinismo social”, com Herbert Spencer (filósofo, representante do positivismo e admirador da obra de Charles Darwin), tendo a Europa como o ápice do desenvolvimento em contrapartida dessas outras nações, consideradas primitivas; o início de doutrinas que pregavam a eugenia, de Francis Galton (antropólogo, estatístico e matemático inglês), assim como o controle social para o desenvolvimento de melhores raças humanas. Portanto, o processo neocolonial não possuía somente o braço econômico e político. Percebemos, ao estudarmos o período, que os traços ideológicos e filosóficos que cresceram no século XIX, embasavam e legitimavam as ações atrozes dos países europeus em territórios asiáticos e africanos. Como tentamos explanar nesse blog, os processos históricos não são estanques; acreditar que apenas uma linha de pensamento foi o guia principal para os acontecimentos é, no mínimo, ingenuidade.
Dica
CONRAD, Joseph. O Coração das Trevas
É considerada como uma das literaturas de viagens mais valiosas no que diz respeito aos escritos sobre o colonialismo e suas formas. Além de ser uma fonte literária valiosa para a realização de estudos históricos sobre colonialismo e imperialismo, pode-se utilizar a obra de Conrad para análises mais psicológicas. Um exemplo seria como a personagem Marlow, não se esquecendo que essa é, provavelmente, o alter-ego do próprio autor, se transforma com a viagem feita ao Congo. A sua reação taciturna perante os fatos, a maneira de narrar seu caminho para encontrar Kurtz e a morte deste, mostram a mudança psicológica vivida pela personagem. Marlow tenta manter uma “lucidez”, este conceito pautado na sua cultura européia, num mundo totalmente antagônico do que o seu próprio. Cada vez mais que Marlow penetra no interior da floresta congolesa, mais desiludido ele passa a ficar e por essa vertente o romance é delineado.
Filme: Apocalipse Now (Francis Ford Coppola, 1979) – teve como base a obra de Conrad e a guerra do Vietnã. Considerado um dos maiores filmes do século XX, ganhador de 2 Oscars.
SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 

About these ads
Esse post foi publicado em Idade Moderna. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Neocolonialismo

  1. lilica disse:

    oi! Foi mt bom…. Me ajudou mt ….. Obrigada

  2. Douglas Alves disse:

    muito bom site com um design limpo e bonito, super agradável, texto bem feito. muito bem feito parabéns.

  3. Vanini disse:

    Republicou isso em Aulas de História – Professora Vanini Limae comentado:
    Neocolonialismo, reblog do artigo de Ana Carolina Machado de Souza, no blog Historiando.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s