A Guerrilha do Araguaia

 

Ligia Lopes Fornazieri
 
Entre os anos de 1964 a 1985, o Brasil viveu um período conturbado. Leis de exceção, censura à imprensa e às liberdades civis, cassações de direitos políticos, fechamento de partidos políticos e repressão eram as principais características do regime instaurado pelos militares no país.
A situação de repressão aos movimentos sociais e à esquerda piorou entre os anos de 1968 (após o AI-5) e 1975. Nesses anos, um desafio foi colocado para aqueles que lutavam pela volta das liberdades no país: como e com que meios lutar contra uma ditadura que tinha consigo as Forças Armadas e um Tribunal de Segurança Nacional que agia com rapidez e violência diante de qualquer movimento de resistência no país?
Milhares de pessoas que não aceitavam a ditadura no país e que não tinham direito de se rebelarem contra o governo instaurado pelos militares, reagiram de formas variadas e as idéias revolucionárias disseminaram-se entre as esquerdas. Os grupos de esquerda e de resistência não tinham direito de se organizar politicamente em partidos e nem de se reunirem sem estar expostos à repressão da polícia política. O radicalismo na defesa dos ideais democráticos e contrários ao regime ditatorial colocou como única opção prática a luta armada.
Mas essa opção não era unânime entre os grupos de esquerda e em meio a toda repressão e perseguição, esses grupos ainda encontraram tempo para divergir quanto aos rumos que a luta deveria seguir. Assim, cada grupo seguiu rumo próprio.
Muitos grupos se voltaram para a luta armada tanto nos centros urbanos (guerrilhas urbanas) quanto no campo (guerrilhas rurais). O mais conhecido e controverso desses conflitos foi a chamada “Guerrilha do Araguaia”.
A guerrilha (tipo de guerra não convencional, que tem como principal estratégia a ocultação e a extrema mobilidade dos combatentes) teve esse nome por ter sido travada nas localidades próximas ao rio Araguaia na divisa entre os atuais estados do Pará, Maranhão e Tocantins. Foi organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) desde meados dos anos 1960, quando alguns militantes foram mandados para essa região a fim de estabelecer contatos com a população local. Até 1972, quando o Exército e a guerrilha travaram seus primeiros conflitos, os militantes comunistas faziam treinamentos militares, conheciam a região e trabalhavam com os camponeses, dando aulas e trocando conhecimentos.
As principais ações armadas de resistência (como por exemplo, atentados, seqüestros e expropriações visando abalar o poder do regime), até então, tinham sido realizadas na cidade. Mas uma parte da esquerda revolucionária acreditava que a guerrilha rural poderia ser mais efetiva. Inspirados pelas ações de Mao-Tsé-Tung na China, em 1949, e pela Revolução Cubana, em 1959, militantes do PC do B se organizaram na região do rio Araguaia a fim de empreender uma luta que fosse capaz de derrubar a ditadura.
Os militantes comunistas então se organizaram em grupos e subgrupos cada um com seu respectivo chefe e subchefe. Era uma estrutura rígida, mas que garantia a segurança dos militantes, pois, muitas vezes, os guerrilheiros não conheciam os elementos dos outros grupos. Além disso, os guerrilheiros usavam nomes falsos. Essas eram estratégias para que não houvesse delação.
Enquanto se organizavam para a luta, cerca de 70 militantes moravam na região trabalhando como agricultores, farmacêuticos, professores e comerciantes. Travaram boas relações com os camponeses e não se envolviam em assuntos políticos com eles. Assim, esses militantes conseguiram se integrar à vida na região e grande foi a surpresa dos moradores locais ao presenciarem o primeiro ataque do Exército.
A preparação para a luta era feita com total desconhecimento da população, já que não pretendiam chamar a atenção nem tampouco iniciar a luta naquele momento. Mas, os planos foram mudados em 12 de abril de 1972, quando tropas militares invadiram a região. Não se tem precisão sobre o porquê de o conflito ter começado naquele momento, mas o fato é que os guerrilheiros não estavam preparados para a investida militar naquele momento, pois contavam com poucas munições e a preparação para a luta estava incompleta.
Quinze dias após as tropas do Exército terem chegado à região do Araguaia, o conflito começou. Os militares se valeram de guias locais, que eram arregimentados de duas formas: através de torturas e através de pagamento de dinheiro.
Na primeira investida do Exército na região, o conflito foi marcado pelo despreparo dos militares, que eram, em sua maioria, recrutas sem um mínimo de experiência em combate em guerrilhas. Além disso, o Exército subestimou a força dos guerrilheiros, que foram surpreendidos com a descoberta de seus planos.
As cidades da região tiveram suas rotinas mudadas com a presença de tropas do Exército, que invadiam as casas, ameaçavam e prendiam os camponeses em busca de novas pistas sobre os guerrilheiros. Mas os moradores locais não tinham conhecimento da real intenção daqueles forasteiros que, até então, os ajudavam.
Nessa primeira campanha, entre abril e junho de 1972, os militares saíram da região derrotados, mas mantiveram um forte policiamento à procura de novas informações.
Em setembro de 1972, foi realizada uma nova ofensiva na região, dessa vez com um número maior de soldados e uma tática diferente para conquistar a população, além de um serviço de inteligência mais preparado para agir na região da selva. Mas, apenas dois meses depois, as Forças Armadas se retiraram da região, com mais uma derrota, pois 69 militantes haviam resistido a um ataque de mais de dez mil homens. Assim, as tropas federais recuaram para preparar uma contra-ofensiva que visava ao aniquilamento total da guerrilha.
Foi um ano de trégua (entre outubro de 1972 a outubro de 1973). Nesse período, as Forças Armadas se organizaram para uma campanha que não poderia ser derrotada.
Teve início uma caçada aos comunistas em todo o país a fim de coletar mais informações sobre a guerrilha. Com isso, houve um distanciamento dos elementos guerrilheiros da região com a direção do PC do B.
Entre os guerrilheiros, houve um esforço de propaganda política junto da população, que surtiu algum efeito, já que alguns camponeses aderiram à guerrilha.
A Guerrilha do Araguaia entrava na sua fase mais brutal. As Forças Armadas, a partir de outubro de 1973, colocaram em prática uma estratégia de cerco e de aniquilamento, violando todos os tratados e convenções internacionais relativos aos direitos de guerra, especialmente no que diz respeito ao trato com a população civil.
O número de militares envolvidos nessa terceira campanha é impreciso. Eles entraram na região disfarçados de civis e tinham a ordem de prender todos aqueles que estivessem de qualquer forma envolvidos com os guerrilheiros.
Até janeiro de 1974, quase todos os guerrilheiros haviam sido capturados ou mortos, mas a luta prosseguiu durante todo o ano a fim de prender os poucos guerrilheiros que ainda tinham vida.
A perseguição continuou ao único sobrevivente do último conflito que havia fugido. No final do ano de 1976, no Rio de Janeiro, foi morto Ângelo Arroyo, no chamado “Massacre da Lapa”.
Acredita-se que cerca de 76 pessoas morreram, sendo 59 militantes do PC do B e camponeses. Por conta da violência dos combates e pelo número de mortes, pode-se dizer que esse foi o principal confronto direto entre a ditadura militar e a luta armada.
Como havia censura aos meios de comunicação da época, o resto do Brasil não sabia o que acontecia na região do rio Araguaia. Foi somente alguns anos depois de encerrado o conflito que o governo confirmou a existência da Guerrilha do Araguaia.
Muitos dos guerrilheiros foram decapitados ou fuzilados e outros ainda foram presos com vida, mas nunca mais apareceram. O Exército brasileiro nega, até hoje, a existência de documentos que comprovem as mortes ou que dêem detalhes dos conflitos. Assim, apenas depoimentos de ex-guerrilheiros, de moradores locais e de alguns militares constituem as principais fontes para o conhecimento desse episódio da história nacional.
Apesar de ser um assunto controverso, gerador de muitas polêmicas, na maioria das vezes ideológicas, é inegável a importância que esse episódio tem para a história do Brasil. No século XX, com exceção do envolvimento do país na Segunda Guerra Mundial, não houve um movimento armado que exigisse das Forças Armadas a utilização de tantas tropas. Além disso, esse foi o movimento de enfrentamento à ditadura militar de maior relevância, tanto pelo número de militantes envolvidos na luta quanto pela dificuldade encontrada pelo governo militar de reprimir as forças rebeldes.
Muitas dúvidas continuarão existindo e muitas famílias continuarão sem saber onde e como seus familiares guerrilheiros foram mortos, enquanto não forem liberados os documentos oficiais do Exército que dêem conta das informações sobre a Guerrilha.
Dica:

https://www.youtube.com/watch?v=tjTViqIq6SQ

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3 respostas para A Guerrilha do Araguaia

  1. Pedro Demo disse:

    Parabéns por enfrentar uma questão ainda muito controversa, embora, do ponto de vista analítico, devesse ser acessível como qualquer outra. Importante abrir tais horizontes, também para incentivar a pesquisa e a autoria em educação.
    Valeu. Abraço.
    Pedro Demo

    • Muito Obrigada pelos elogios e pelo comentário Pedro. A Guerrilha do Araguaia, assim como outros assuntos polêmicos da nossa História, devem ser acessíveis, nossa intenção é reavivar a memória histórica brasileira. Mais posts como esse virão.
      Abraços! =)

  2. ADOREI
    isso é muito importante e muito mais interesante, estava pesquisado o meu trablho pensando que seria mas um assunto chato as não adorei mesmo e agora vou procura me informa mais sobre a Guerrilha do Araguaia…
    quem vos escreve e a Adriele tatiane de Belém do Pará

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