Colonização da América – Pocahontas

Ana Carolina Machado de Souza
A História da América, seja essa dos países hispânicos ou dos Estados Unidos, é por diversas vezes sintetizada ao máximo nos livros didáticos, que pouca atenção disponibiliza a essa crucial passagem da história mundial. Majoritariamente, os conteúdos apresentados pelos professores aos alunos, que correspondem à proposta pedagógica da escola, focam-se na história européia e brasileira, sem qualquer aprofundamento no choque cultural e na chegada dos navegantes a este continente.
Ao estudarmos as Grandes Navegações vemos a ascensão de Portugal e Espanha na conquista das terras a leste e com o sucesso dos ibéricos, países como Inglaterra, França e Holanda vislumbraram participar de tal empreitada também. Porém não foram apenas de saques e pirataria que estes países se concentraram, pois no final do século XV, o rei inglês Henrique VII demanda a John Cabot a exploração da América do Norte.
Pensava-se que Cabot foi o primeiro a pisar em tal solo, mas hoje se sabe que explorações espanholas e francesas já haviam passado por aquelas terras. Essas aproximações européias em território americano já surtiram efeitos e modificações nos milhares de indígenas nativos, como o contágio com “novas” doenças, a chegada de cavalos, animal desconhecido por eles, que se tornaram selvagens com o posterior abandono europeu.
Com as notícias de grandes explorações de metais nas terras espanholas, a América foi cada vez mais vislumbrada como uma terra de oportunidades.  Os ingleses por diversas vezes durante o final do século XVI e século XVII tentaram estabelecer colônias na costa americana, mas que por diversos motivos fracassaram, entre eles, os ataques dos nativos e o inverno muito rigoroso.
O primeiro assentamento inglês em solo americano chamou-se Jamestown, fundado em 1607, na região que recebeu o nome de Virgínia, em homenagem à “Rainha Virgem”, Elizabeth I. Eles se estabeleceram às margens do rio James, próximo à Baía de Chesapeake. A ida e a fundação desta colônia foram patrocinadas pela Companhia de Virgínia (Virginia Company), que buscava a exploração de ouro e outros metais preciosos e uma passagem para o Oceano Pacífico.
Devido à diversidade social dos exploradores que aportaram e o tempo de seca que ali se alastrava, o esperado comércio de alimentos com os indígenas locais não ocorreu com a freqüência necessária, e muitos colonos morreram. É a partir daqui que surge a figura de John Smith e Pocahontas, os protagonistas de um filme famoso produzido em 1995, a partir do qual retomarei assuntos relativos ao período e à maneira pela qual o filme pode ser usado como uma fonte de estudos históricos.
Captain John Smith’s Map of Virginia, 1612
Com a ajuda da filha de Powhatan, Smith conseguiu mais alimentos e, a partir daí, os colonos passaram a trabalhar mais à procura de riquezas.  Mas os metais preciosos, tão abundantes em terras de domínio espanhol, não foram encontrados, portanto eles tiveram que procurar outros meios de se sustentarem economicamente. Em 1612, John Rolfe, um explorador britânico que estava na América, passou a cultivar o tabaco, pois percebeu a fertilidade do solo para esse tipo de cultivo. O tabaco passou a ser comerciado na Europa e logo se tornou o negócio mais lucrativo da colônia. O uso de mão-de-obra livre foi insuficiente, e, a partir de meados do século XVII, ao perceber o grande retorno desse comércio, os colonos passaram a utilizar escravos para o trabalho.
Pocahontas – capa do DVD (Brasil)
O cinema é uma representação viva dos fenômenos do homem, uma amostra da historicidade de cada época.  A imagem traz uma troca entre o real e o que é subjetivo. Com a utilização da imagem há uma maior percepção do mundo real, pois o espectador consegue diferenciar mais claramente o que é ficção ou não. Isto devido ao encantamento, o fascínio que o cinema traz a todos aqueles que vão assistir a uma sessão. A identificação da pessoa com aquela imagem forma uma percepção do mundo real, e, portanto, a incorporação da realidade do homem no filme, realizada por este mesmo, se concretiza.
Daí surgiu a nossa idéia de utilizar um filme que foi sucesso de bilheteria para a compreensão de assuntos históricos. A animação da Disney intitulada Pocahontas é um exemplo perfeito. Foi o primeiro filme do estúdio baseado em uma história real, contudo, não significa que corresponde totalmente à realidade. Em primeiro lugar, a ênfase está no romance, John Smith e a indígena se apaixonam em meio a um cenário deslumbrante, feito a partir de pesquisas sobre a natureza da área.
Existem dois pontos curiosos que são interessantes apresentar: foi o primeiro filme dos estúdios Disney que não terminou com o tradicional felizes para sempre, pois Smith volta à Inglaterra após ser ferido na batalha contra os nativos; e esse filme foi tido como um dos precursores para a preservação do meio ambiente, com uma canção (Colors of the Wind) regravada por grandes artistas norte-americanos.
Pocahontas -animação
Porém, o objetivo desse post é apresentar pontos interessantes desse filme para a compreensão da História dos Estados Unidos, e uma dessas idéias está relacionada a representação do indígena. Pocahontas é apresentada como uma mulher forte, e, acima de tudo, conectada com a natureza. Essa conexão, a harmonia dos indígenas com os elementos naturais é mostrada durante todo o filme, e é um dos aspectos que mais atraem Smith em relação à protagonista.
Creio que esse tipo de discussão é importante para a compreensão do indígena apresentado nas mídias norte-americanas durante o século XX, o chamado bom selvagem. De uma maneira resumida, Jean Jacques Rousseau, por exemplo, acreditava que o estado de natureza possuía característica extremamente positivas, como o ambiente acolhedor da natureza, e ele até chega a sugerir que parece que esta foi criada para atender as necessidades do homem. Neste estado, o ser humano só se preocuparia com a preservação do seu meio, ou seja, a relação homem-natureza é permeada por uma aura idílica, e o indígena é o ser que mais se aproxima dessa descrição de Rousseau.
Ao vermos o filme, Pocahontas e sua tribo estão conectados com a natureza, respeitando-a e cuidando para que os recursos não sejam escassos em períodos problemáticos. Os ingleses não possuíam essa ligação tão forte. Ao aportarem já iniciam o desmatamento, exploração.
Apresento essa discussão porque a historiografia* norte-americana foi fortemente marcada, até meados dos anos 1990, pela idéia rousseauniana do indígena bom selvagem, portanto o imaginário dos cineastas desse tempo condiz com esse pensamento. A historiografia dos países hispânicos e do Brasil já havia superado esse tipo de pensamento já na década de 1950, com diversos trabalhos e pontuações que contestavam esse indígena romântico de Rousseau. Contudo, esta idéia do nativo ligado com a natureza ainda faz parte do senso comum.
A utilização de um filme dos anos 1990 para ilustrar essa discussão reforça ainda mais o eco que o pensamento dos filósofos do XIX faz na sociedade de maneira geral. E esse tipo de discurso pode ser modificado e/ou analisado a partir de fontes imagéticas, como Pocahontas.
*historiografia: em suma, é o que se escreve sobre história.
Dicas:
Uma comparação dos livros de José de Alencar (Iracema e O Guarani) também pode ser realizada, principalmente se for baseada em perguntas como: “Por que o indígena foi tão romanceado nessa época?”; “Por que essa conexão tão forte com a natureza?”, ou mesmo “Por que a disseminação desse tipo de pensamento?”
KARNAL, Leandro (org.) História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. 2ª edição. São Paulo: Contexto, 2010.
http://www.editoracontexto.com.br/produtos.asp?cod=330
MORIN, Edgar, O cinema ou o homem imaginário. Lisboa: Relógio d‟Água, 1997.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social [1762]; Ensaio sobre a origem das línguas. 2a.
ed.. São Paulo: Abril Cultural (Col. Os Pensadores), 1978.
__________ Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens [1755];
Discurso sobre as ciências e as artes [1750]. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

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8 respostas para Colonização da América – Pocahontas

  1. Glenda disse:

    Ah..Legal..Não sabia muito bem dessa história.. Parabéns!!

  2. jennyhorta disse:

    Muito bacana o blog de vocês! Tenho um “colega ” na rede que acho que vocês vão gostar de conhecer: http://www.historiadigital.org/ O Michel é muito bacana e como adoro história, indico a vocês para trocarem figurinhas.
    Um abração

  3. vera maria disse:

    Achei o documentário histórico muito correto e que resalta os fatos históricos mais importantes na historia da humanidade.
    Hoje coloquei no meu blog um texto sobre nossas constituições visitem e façam um comentário.Convido voces a seguir meu blog,Não encontrei neste blog os seguidores.Abraços.

  4. melissa eduarda disse:

    muiiiiito legal ja assiti na escola na aula de historia pocahondas e linda

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