Reforma Protestante


Ana Carolina Machado de Souza
Ao longo dos tempos sempre ocorreram várias divisões entre religiões, e com o cristianismo não foi diferente. No século XI houve a ruptura da Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, por exemplo. Mas foi no século XVI que aconteceu um dos maiores processos da História, a Reforma Protestante.
Diversos são os fatores que culminaram numa separação de doutrinas religiosas. A Igreja Católica ficou ainda mais poderosa durante a Idade Média, podendo interferir nas decisões políticas e econômicas dos feudos, além de adquirir enormes somas de dinheiro e terras.
Contudo, a partir do século XVI começou a afirmação do nacionalismo, a construção dos Estados Nacionais. Nestes, o poder soberano local poderia ser desvinculado da submissão para com a Igreja, ou seja, o Papa não seria mais a autoridade dominante. Alguns séculos anteriores houve episódios que abalaram o prestigio da cúpula Católica, como o cisma do Oriente, entre 1378 e 1417, quando 3 papas coexistiram.  A tendência, com a formação dos Estados Nacionais, foi o fortalecimento das Igrejas nacionais, destituindo de Roma um poder quase que absoluto, e esse fortalecimento foi uma das principais causas da Reforma.
Um dos aspectos mais importantes foi a mudança de direção da própria teologia. Surgiram, nessa mesma época, correntes que evidenciavam mais a dimensão subjetiva, íntima, de cada indivíduo com Deus do que a onipotência pregada pela Igreja Católica. Alguns colaboradores para os movimentos reformadores dos séculos XIV e XV, como John Wycleff, Wessel Gansfort e Jan Hus, faziam a contraposição de uma Igreja monumental, grandiosa, que pela opulência inquiria os fiéis, e uma Igreja puramente espiritual e pobre, sem grandes poderes e estruturas, que se fixava mais na experiência de cada um. Essas idéias foram fundamentais para a construção da Reforma Protestante, principalmente a Luterana.
Outro ponto foi o Renascimento cultural que alcançou o seu auge no século XV. A ideologia da época era buscar alternativas à subordinação direta em relação à Igreja, os filósofos, intelectuais, buscavam explicações mais racionais, em vez de religiosas. Foi a era do antropocentrismo em detrimento do teocentrismo. E essas idéias auxiliaram na construção de outras maneiras de se pensar a religião.
No campo econômico, houve a expansão das trocas comerciais, e um dos aspectos mais condenados pela Igreja era a usura*. A busca pelo lucro, o prenúncio do espírito capitalista que hoje domina o mercado, era o caminho buscado pela burguesia, portanto, havia a necessidade de “se encontrar” uma alternativa para a condenação da Igreja Católica a esse pensamento.
Outro aspecto que culminou na ruptura foi o próprio comportamento do alto clero. A corrupção para angariar ainda mais fundos e para que houvesse a permanência do poder passou a incomodar aqueles que não corroboravam com tal atitude. Os bispos e membros da alta cúpula acumulavam cada vez mais riquezas, enquanto os sacerdotes de baixo escalão, principalmente os que viviam no campo, eram pobres, muitas vezes miseráveis, e sem qualquer preparo para estar no cargo. Algumas reformas tentaram ser feitas dentro da própria Igreja para mudar a situação, mas muitas falharam.
Temos que lembrar que foi uma época marcada por grandes crises econômicas, com longos períodos de fome e pestes, por exemplo, durante o século XIV. Um novo modelo governamental estava crescendo, e a desigualdade entre as classes aumentava cada vez mais. Os contrastes socioeconômicos eram enormes. Esses são pontos fundamentais para pensar que a fé, e a área espiritual, estavam abaladas, com sentimentos de insegurança e incertezas dominando os pensamentos. Todos esses fatores juntos eram como uma bomba que logo explodiria com uma fagulha. Lutero foi o precursor na Alemanha, e realizou a conhecida Reforma Luterana. Contudo não foi um caso isolado, outros dois tão famosos quanto ocorreram na Suíça, com João Calvino (Reforma Calvinista) e na Inglaterra, com o Rei Henrique VIII (Reforma Anglicana).
Reforma Luterana
Lutero (1483-1546), em 1505, após uma experiência de quase morte ingressou na Ordem Agostiniana, que seguia os preceitos de Santo Agostinho. Após sua viagem a Roma, em 1510, passou a questionar fortemente os dogmas da Igreja Católica. Entre 1511 e 1513 ficou imerso nos estudos bíblicos e construiu, com diversas influências, uma nova doutrina. Durante a leitura das cartas de São Paulo, ele encontrou uma passagem que foi a base da sua teoria O justo se salvará pela fé. Seria a partir da fé em Deus, e não de todos os trabalhos que a Igreja propunha, que o indivíduo se redimiria do pecado original. A salvação estava agora nas mãos dos fiéis, eles mesmos que procurariam seu caminho, e não nas mãos do clero em absolvê-lo dos seus pecados.
Lucas Cranach, Martinho Lutero, sem data.
O Papa Leão X aprovou uma nova medida para a arrecadação de dinheiro: a venda de indulgências, ou seja, os fiéis compravam a sua salvação, arrecadando pedaços da cruz de Cristo ou do seu manto, qualquer relíquia religiosa poderia ser vendida. O estopim para a separação total com a Igreja Católica ocorreu em 1517, com a promulgação das famosas 95 teses. Lutero ficou indignado e expôs publicamente as suas teses, nas quais protestava contra a doutrina que a Igreja estava seguindo. Seu confronto com as autoridades católicas foi inevitável e em 1520 ele foi excomungado.
A sua doutrina foi divulgada em toda a Europa com a ajuda de nobres, como o príncipe da Saxônia, e da alta burguesia, e os principais pontos, fixados na Confissão de Augsburgo, de 1530, são:
  • Fé cristã era a única maneira de salvação;
  • A Bíblia era a única fonte da fé;
  • Os fiéis tinham a liberdade de interpretação da Bíblia (por isso a tradução do latim para línguas vernaculares);
  • Pregação em língua vernacular;
  • Existência de somente dois sacramentos – batismo e eucaristia;
  • Era proibido o culto a santos, adoração de imagens;
  • Revogação do celibato;
  • O Papa perdia sua autoridade.
Reforma Calvinista
João Calvino (1509-1564) aderiu às idéias reformistas de Lutero e de Zwingli na Suíça, e foi perseguido pelas autoridades religiosas francesas. Exilou-se na Suíça, onde essas idéias já estavam sendo disseminadas e passou a escrever mais sobre isso.
João Calvino (imagem ilustrativa, sem referências)
Publicou em 1536 sua obra Instituição da religião cristã, na qual expõe pela primeira vez sua teoria da predestinação. Esta se constituía na máxima de que o homem estava predestinado tanto para merecer o céu quanto o inferno, ou seja, algumas pessoas seriam salvas pelo simples motivo de que nasceram assim, foram eleitas por Deus, e outras amargariam a maldição. Um dos sinais da salvação predestinada era o homem trabalhador, ou seja, o trabalho intenso e rotineiro, recompensado financeiramente por seu esforço.
A doutrina calvinista prega que o indivíduo tem que ser predestinado, a vontade divina o salva, isso não ocorre por esforço próprio, porém, se a pessoa enriqueceu pelo seu trabalho, esse era um sinal de que seria salvo, pois possuía esta atitude. Esse ideal foi amplamente aderido pela burguesia em ascensão, pois ia ao encontro de seus interesses. A acumulação de riquezas e o lucro não eram tidos como práticas imorais. Os principais pontos são:
  • Predestinação;
  • Os escolhidos prosperarão;
  • Contra a idolatria;
  • Contra qualquer abuso, como festas, danças, etc.
Suas idéias disseminaram pela França, Inglaterra, Holanda e Escócia, tendo reverberações na América, principalmente nas colônias do Norte.
Reforma Anglicana
Henrique VII, rei inglês, sempre foi fiel ao Papa e à Roma, contudo essa fidelidade mudou a partir do momento em que os interesses da Igreja foram de encontro aos da monarquia. Houve vários motivos para a ruptura, e o maior deles foi o político. Para que houvesse o fortalecimento do estado nacional e adjacentes, era necessário diminuir consideravelmente o poder da Igreja na Inglaterra. A instituição possuía muitas terras e obtinha todos os direitos do comércio de relíquias, que rendia lucros. A nobreza e o próprio rei queriam essas posses, e, para isso, precisavam conter o poder religioso.
Hans Holbein the Younger, Retrato de Henrique VII, rei da Inglaterra, c.1596.
Todavia, o episódio estopim, e muito famoso, para a ruptura foi a negação do Papa em anular o casamento do rei com Catarina de Aragão. Henrique VII queria romper devido a sua esposa ser de Aragão, um dos reinos de Espanha, de quem a Inglaterra era inimiga, e não ter gerado um filho homem para a sucessão dinástica. Depois da negação do Papa, o rei, aliado ao alto clero inglês e ao Parlamento, conseguiu o seu divórcio na Corte inglesa e separou-se definitivamente da Igreja em 1534, quando o Parlamento inglês votou o Ato de Supremacia. Este dizia que Henrique VIII era o novo chefe supremo da Igreja da Inglaterra, sem dever qualquer subordinação ao Papa e à Roma. Fundou-se, portanto, a Igreja Anglicana. Os preceitos são similares aos católicos, com todos os sacramentos, santos, missas, só não são subordinados à Igreja.
Os sucessores de Henrique tentaram adotar outras doutrinas, e foi só com Elizabeth I, que houve a consolidação do anglicanismo, religiao oficial até hoje.

Dica:

*usura: lucro obtido a partir da cobrança de juros sobre dinheiro emprestado.

Keith Randell. Lutero e a Reforma alemã. São Paulo, Ática, 1995.

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3 respostas para Reforma Protestante

  1. Flp Dias disse:

    “porém, se a pessoa enriqueceu pelo seu trabalho, esse era um sinal de que seria salvo, pois possuía esta atitude.”

    fontes ? =)

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