Revolução de 1930

Ligia Lopes Fornazieri

Poucos episódios da história brasileira são tão controversos quanto a chamada “Revolução de 30”. Getulio Vargas e os revolucionários criaram um discurso sobre esse acontecimento e até hoje poucos foram os que se propuseram a contradizer essa versão oficial.

De acordo com os revolucionários, 1930 foi um marco na história brasileira, um divisor de águas na forma de fazer política no país. Eles se voltaram contra a oligarquia cafeeira que dominava a política e afirmavam que instituiriam o voto secreto e seguro e que deixariam de tratar a questão social como um caso de polícia.

Antecedentes da Revolução

A presidência de Washington Luís (1926-1930) havia sido tranqüila, mas ao final de seu governo, surgiu uma cisão entre as elites dos grandes estados. Os desentendimentos começaram quando o presidente decidiu apoiar a candidatura de um paulista, Julio Prestes. Mineiros e gaúchos não aceitaram esse candidato e resolveram se unir, formando uma candidatura de oposição e escolheram Getulio Vargas para a presidência e João Pessoa para a vice-presidência, formando assim a Aliança Liberal.

O programa da Aliança refletia as aspirações das classes dominantes que não eram ligadas ao setor cafeeiro e tinha como objetivo sensibilizar a classe média, defendendo a produção nacional geral e não apenas o café. Propunham também algumas medidas de proteção à classe trabalhadora, como a extensão do direito à aposentadoria (até aquele momento apenas algumas categorias tinham esse direito) a regulamentação do trabalhado do menor e da mulher e a aplicação da lei de férias.

Durante a campanha eleitoral, estourou, em outubro de 1929, a crise econômica mundial. Com isso, a situação da cafeicultura se complicou, pois muitos fazendeiros haviam feito empréstimos do governo para plantar café, contando com o lucro que teriam. Como esse lucro não veio, os fazendeiros ficaram endividados e sem o que fazer com o café que não era vendido.

O setor cafeeiro então se desentendeu com o governo de Washington Luís, pois os cafeicultores solicitaram ao presidente medidas para o enfrentamento da crise, por meio de concessão de novos financiamentos e de moratória de suas dívidas. Mas essas propostas foram recusadas pelo governo.

Ainda assim não houve uma ruptura formal entre esse setor e o governo, e Júlio Prestes venceu as eleições de 1º de março de 1930. Tudo caminhava para o fim da cisão regional, mas alguns setores da oposição não aceitaram a derrota de seu candidato e começou a aparecer o grupo dos chamados “tenentes civis” que queriam uma reposta pelas armas.

Desde o início dos anos 1920, os tenentes estavam descontentes com o governo federal e com os problemas enfrentados pelo Exército brasileiro. Não havia um movimento formal nem uma proposta política clara, mas os tenentes descontentes se organizavam em grupos a fim de discutir formas de implementar no Brasil um poder político centralizado e defendiam uma educação de melhor qualidade e um maior nacionalismo.

Esses “tenentes” foram considerados como representantes da classe média urbana, pois tinham um inegável prestígio entre a população urbana e defendiam uma maior atenção por parte do governo a essa camada da população. Assim, em 1930, eles também tiveram um papel importante na tomada de poder por parte de Getulio Vargas e dos “revolucionários”.

O estopim da revolução

A conspiração revolucionária havia perdido forças com a derrota de seu candidato, mas em 26 de julho de 1930, João Pessoa foi assassinado em Recife por João Dantas, um de seus adversários políticos. O crime fora motivado por razões pessoais e políticas, mas somente as últimas foram destacadas e foi grande a sua repercussão.

João Pessoa

Os oposicionistas ganharam assim uma grande arma para continuar com sua luta. Outro acontecimento importante para eles foi a nomeação de Góis Monteiro como novo comandante das forças armadas. Este tenente-coronel tinha ligações com alguns dos articuladores da oposição como João Neves, Paim Filho e o próprio Getulio Vargas, sendo favorável aos revolucionários.

A revolução estourou em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, em 3 de outubro de 1930 e no dia seguinte, o movimento iniciou-se no Nordeste, tendo a Paraíba como centro das operações.

Foi planejado um ataque geral às forças militares que apoiavam Washington Luís, a partir de Itararé, São Paulo. Mas a “batalha de Itararé” acabou nunca acontecendo, pois antes do confronto, em 24 de outubro, alguns generais constituíram, no Rio de Janeiro, uma junta provisória de governo.

A junta tentou permanecer no poder, mas as pressões foram grandes para que entregassem o poder a Getulio Vargas. Assim, a posse de Vargas aconteceu em 3 de novembro de 1930, marcando o fim da Primeira República e o início de novos tempos.

Interpretações do episódio

Muitos autores afirmam que a Revolução fora obra da classe média ou da burguesia industrial. Outros afirmam que essa classe média apoiou a Aliança Liberal, mas ela era muito heterogênea e dependente das forças agrárias para formular um programa em seu nome. Assim, enquanto há quem afirme ter sido uma revolução burguesa, outros descartam essa classificação.

Ainda assim, é certo entre os estudiosos que alguns aspectos da política brasileira realmente mudaram com a revolução. O poder oligárquico, baseado na força dos estados, deixou de existir e Vargas comandou uma centralização política como nunca se havia visto no Brasil. Isso não significa que as oligarquias deixaram de existir, mas apenas que as decisões partiam, a partir de 30, do centro e não mais da periferia.

Dessa forma, um novo tipo de Estado nasceu com a revolução, pois abriu-se caminho para o desenvolvimento do capitalismo nacional, com o surgimento de uma nova aliança entre a classe industrial e a classe trabalhadora.

Essas novidades implantadas pelo governo varguista permitiram que se criasse sobre a Revolução de 30 uma imagem de ruptura, criando ainda uma visão que perpetua até hoje com relação à Primeira República, como sendo um período em que reinava o poder dos cafeicultores e em que a questão social era tratada exclusivamente como “caso de polícia”, pois os conflitos de trabalhadores eram tratados com repressão e não havia leis trabalhistas.

Mas essa imagem vem sendo contestada por alguns historiadores que, sem negar as mudanças implementadas pela Revolução de 30, atenuam o caráter de novidade que os articuladores do governo Vargas imprimiam em todas as iniciativas governamentais.

Um caráter pouco explorado da Revolução foi a participação popular. Alguns anos depois de 1930, um membro do Partido Democrático, Paulo Nogueira Filho, afirmou que os comícios de Vargas, durante sua campanha eleitoral, estavam sempre lotados, com uma grande presença de pobres e trabalhadores. Sobre isso, é significativa a existência de uma moda de viola composta por Zico Dias e Ferrinho logo após os episódios de 1930:

“Todo o povo do Brasil deve agora estar contente
O doutor Getulio Vargas é o nosso presidente
Tudo isso foi muito triste, deu vontade de chorar
Mas logo eu vi anunciado nas coluna do jorná
Que o senhor vinha no Rio, ai, pro Brasil embelezar
Aiê, ele cumpriu seu destino e(……) pro hospitá

O Brasil tava na reme e a boiada (?) embelezar
Depois que o Getulio veio no Rio para governar
Teve baile, teve missa para o mundo se alegrar
Aiê, ele deu sua palavra, nomeou o nosso generá.

O doutor Getulio Vargas é um homem de perfeição
Pois ele ganhou no voto, mas ficou na escuridão
Para ter o prometido, foi preciso a Revolução
Aiê, ele cumpriu o seu dever, ai com armas lá na mão

Quem fez essa modinha recorda a Revolução
Pra contar pros brasileiro que sofreram judiação
A noticia que corria, eu ouvi o povo falar,
Miguel Costa na Argentina não podia mais voltar
Agora tá em São Paulo, no Brasil, vem adorar
Aiê, ele cumpriu seu dever, aiá, soa bem naturá”

Para ouvir a música acesse: http://www.franklinmartins.com.br/som_na_caixa_gravacao.php?titulo=revolucao-de-getulio-vargas

Dicas:

FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: Historiografia e História. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1989.

TRONCA. Ítalo. Revolução de 30: a dominação oculta. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1986.

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3 respostas para Revolução de 1930

  1. manicpimp disse:

    Adicionei o blog de vcs, bastante interessante

  2. Pingback: A Grande Depressão de 1929 | Historiando

  3. Pingback: O fim da Era Vargas | Historiando

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