Evita

Bruna Borges (colaboradora)

Um dos acontecimentos políticos mais marcantes da Argentina, na segunda metade do século XX, foi o surgimento do peronismo. Considerado por muitos historiadores um exemplo do fenômeno político chamado populismo foi um regime que mesclou o carisma de um líder e seu autoritarismo. Neste contexto, emergiu duas grandes figuras políticas: o coronel Juan Domingo Perón e sua esposa Maria Eva Duarte de Perón.

Para compreender a singularidade destas duas figuras não se pode pensá-las separadamente. O coronel Perón fazia parte do GOU (Grupo de Oficiais Unidos), um grupo dentro das Forças Armadas que lutava contra a chamada “década infame”, período da história argentina fortemente marcado pela corrupção eleitoral, fraudes e violência que busca privilegiar a oligarquia. Em 1943, o então presidente Ramón Castillo foi deposto pelo GOU e assim instalou-se na Argentina um governo militar em que Perón atuou ativamente em diversos cargos importantes como: Secretário do Trabalho e da Previsão; vice – presidente e Ministro da Guerra.

Porém, foi como Secretário de Trabalho que ganhou notoriedade; voltou-se ao operariado urbano e criou a CGT (Central Geral dos Trabalhadores) fortemente controlada por sua secretaria. Inicia-se então a intensa relação de Perón como as classes trabalhadoras, relação que o levaria à presidência da república. Esta estreita relação colocava Perón numa situação de protagonismo que não agradou alguns setores mais conservadores das Forças Armadas e das elites tradicionais; então, em outubro de 1945, Perón foi afastado do governo e levado ao presídio militar. Cinco dias depois, em 17 de outubro, centenas de milhares de trabalhadores, juntamente com Eva – ainda não casada com o coronel – se reúnem na Plaza de Mayo, em Buenos Aires, para exigir sua libertação e os pedidos da multidão foram assim atendidos. Em 22 de outubro deste ano oficializa sua união com Maria Eva Duarte.

Evita, como ficou eternamente conhecida, nasceu em Los Toldos no dia 07 de maio de 1919, sofreu preconceito desde a infância, por ser filha ilegítima. Aos 15 anos muda-se para Buenos Aires atrás de sonho de ser atriz. De acordo com algumas biografias, Eva foi uma mulher de muitos amantes, estes que foram desde artistas até oficiais do Exército; estes casos amorosos de Eva, de acordo com alguns estudos, ajudaram-na a conquistar seu sonho de atriz. Eva conheceu Perón em 22 de janeiro de 1944 durante um show beneficente promovido para ajudar as vítimas de um terremoto ocorrido na cidade de Cuyo e ela então já era uma atriz famosa.

Em fevereiro de 1946, o coronel Juan Domingo Perón ganhou as eleições presidenciais, em 04 de julho, assumiu assume a presidência constitucional da Argentina. E foi neste momento que Eva abandona sua carreira de atriz, mas ficaria muito longe de assumir o papel tradicional de primeira-dama, começou-se então uma intensa atividade política e de ação social que deu um tom singular ao peronismo. Eva tornar-se-ia um dos mecanismos mais importantes na construção e concretização da liderança política de Perón.

Para muitos historiadores Evita foi a alma do peronismo, convertendo-se na ponte direta entre os descamisados – como eram chamados os mais necessitados – e Perón. Para estes estudiosos, ela foi a parte humana e caridosa do sistema político; Perón cuidava das questões mais burocráticas do governo enquanto sua esposa o representava e zelava pela assistência social do país.

O que não se pode deixar de mencionar é que o peronismo tinha uma máquina publicitária muito forte e que o uso das propagandas foi importantíssimo para a manutenção e perpetuação do regime político. A imagem de Evita foi a mais divulgada e foi, por muitas vezes, a própria representação do peronismo. O governo tratou com bastante zelo a imagem da primeira-dama; era constantemente fotografada em seus atos assistencialistas, seus discursos e nas comemorações peronistas. Para intensificar o uso de sua imagem – após voltar de uma viagem à Europa em que representou a Argentina – Eva passou a vestir-se mais elegantemente e com as marcas mais caras e famosas do mundo, apresentando-se de forma impecável desde seu coque até seus sapatos.

Em 1946 a imagem de Eva foi amplamente usada na campanha pelo sufrágio feminino, converteu-se em mensageira, líder das mulheres na luta pelos direitos civis; iniciou-se neste momento um forte elo de ligação entre Evita e as mulheres. Em setembro de 1947, foi sancionada a lei 13010 que concedia o direito de voto às mulheres argentinas, que estavam até aquele momento impedidas de participarem das decisões políticas de seu país. Ainda articulando com os jogos da imprensa peronista, o primeiro título eleitoral feminino emitido na Argentina foi em nome de Maria Eva Duarte de Perón, a mãe dos descamisados e das mulheres.

Evita demonstrou uma habilidade política ímpar e sua imagem foi largamente usada, mas sua liderança e força foram alcançadas graças ao seu carisma e perspicácia política; foi a figura mais importante do peronismo, depois de Perón. Sua vida política foi marcada pela questão assistencialista, em 1948 cria a Fundación Eva Perón, que era uma instituição patrocinada pela CGT e promovia assistência aos mais necessitados. Após a criação desta organização, passou a controlar a questão assistencialista do país, fazendo a ajuda peronista chegar aos lugares mais distantes do país.

Em 1949 deu seu principal passo rumo a integração das mulheres na cena política argentina, com a criação do Partido Peronista Feminino. Após a conquista do voto faltava às mulheres uma organização política; o partido não tinha como principal objetivo fazer política, segundo Eva, a função dele era proporcionar assistência às famílias e conseguir reeleger Perón. E assim aconteceu, mas também, vale lembrar que algumas mulheres peronistas foram eleitas para diversos cargos políticos. A ação política de Eva foi tão intensa e tão bem vista que ela foi apontada como principal nome ao cargo de vice- presidente; mas Perón não concordou com sua indicação impedindo-a de concorrer a qualquer cargo político.

Em 1951 Eva fica muito doente e morre, em 1952, vítima de um câncer no útero. Fraca e quase sem forças ainda é fotografada, no hospital, votando na reeleição de Perón. O ultimo pedido de Eva a Perón foi o de que ele publicasse sua auto-biografia intitulada La razón de mi vida. Esta obra foi intensamente lida por todas as mulheres peronistas e pregava um amor incondicional à Perón e ao peronismo. Durante 15 dias o corpo de Eva, mumificado, ficou exposto e uma comoção sem precedentes foi vista na Argentina. Evita desperta paixões até os dias de hoje, para alguns fora uma santa, para outros uma demagoga; extremos a parte ela desempenhou um papel singular na política, atingiu um poder, naquele período, nunca antes imaginado a uma mulher.

Dicas:

PERÓN, María Eva Duarte. La Razón de mi vida. Buenos Aires; Ediciones Peuser, 1951.

SANCHEZ, Matilde. Evita: imagens de uma paixão. São Paulo: Melhoramentos, 1997

CAPELATO, Maria Helena Rolim. Multidões em cena: propaganda política no Varguismo e no Peronismo. Campinas (SP): Papirus, 1998

Museu Eva Perón http://www.evitaperon.org/index.htm

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6 respostas para Evita

  1. manicpimp disse:

    Realmente o conteúdo do blog é bem interessante! Vou estudar história um dia tb, continuem postando =D

  2. Renato disse:

    NOooooooooooooooooooossaaaaaa, nunca imaginei que um periodo da historia argentina pudesse ser tao bem contado… Parabens a voces do Blog e parabens a BrunaBorges pelo seu post.

  3. Isabel Fornazieri disse:

    Parabéns, está muito bem escrito, continuem sempre.
    Bjs

    Bel

  4. Ana Júlia disse:

    Evita, imortalizada na história, como a mulher mais amada e mais odiada de sua época… Para alguns foi uma atriz barata, para outros uma santa; Evita, sempre está envolvida em diferentes pólos, mas em todos eles ela sempre consegue despertar algo em nossos corações… Parabéns ao blog que retratou com muito carinho uma história muito querida dos hermanos, continuem sempre assim, com certeza vou voltar… Abraços….

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