Canudos


Durante o governo de Prudente de Morais (1894-1898), houve um movimento popular no sertão baiano que abalou as estruturas da recente República. Em 1893, formou-se, às margens do rio Vaza-Barris, em uma fazenda abandonada, o arraial de Belo Monte, que tinha como líder o sertanejo Antonio Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como Antonio Conselheiro.

Filho de comerciante, Antonio Conselheiro fora educado para ser padre, mas por problemas financeiros e complicações domésticas ele acabou exercendo várias profissões, como professor e vendedor ambulante. Mas converteu-se em beato (misto de sacerdote e chefe de jagunços) e passou a levar uma vida nômade pelo sertão, congregando o povo para construir e reformar igrejas, erguer muro de cemitérios e seguir uma vida ascética.

Em sua pregação, Conselheiro exortava seus seguidores a não seguir a República. Para ele, o princípio republicano de separação entre Igreja e Estado era impensável e deveria ser recusado. Ele negava ainda o casamento civil, a liberdade de culto e outras medidas do governo que lhe pareciam sacrilégios.

Em 1893, o beato e seus seguidores rebelaram-se contra a cobrança de impostos no município de Bom Conselho, interior da Bahia: em um dia de feira, ele queimou as tábuas que fixavam as taxas que deveriam ser recolhidas para o governo federal. Com isso, o governo do estado da Bahia enviou um contingente de 30 praças para prendê-lo e dispersar seus seguidores.

No entanto, Conselheiro fugiu com seus seguidores e passou a procurar um local em que pudesse se estabelecer longe da repressão republicana. O refúgio escolhido foi a fazenda abandonada, Canudos, às margens do rio Vaza-Barris, onde o beato ergueu o arraial sagrado de Belo Monte.

Em pouco tempo, muitos sertanejos deixaram seus locais de origem para se refugiarem em torno de Conselheiro. Acredita-se que cerca de 30 mil pessoas viveram nesse arraial. A população era heterogênea e havia os que consideravam Conselheiro como líder espiritual, mas havia também pessoas que iam até o arraial na esperança de conseguir um pedaço de terra. A maioria era composta por famílias, havendo também desertores do Exército e da polícia.

Eram excluídos da povoação aqueles que demonstrassem simpatias com relação à República ou que fossem ladrões ou prostitutas. Todos tinham atitude humilde frente a Antonio Conselheiro que era considerado líder e guia espiritual. Assim, o domínio desse beato foi logo estendido às regiões próximas e alguns coronéis do sertão procuravam aliar-se ao Conselheiro a fim de obter apoio popular. Mas nada indica que o líder beato tivesse ligações com esses coronéis.

No arraial de Belo Monte, o povo dedicava-se à construção de casas, ao plantio de roças e ao artesanato. Todas as noites havia missa e casamentos e batizados eram freqüentes no arraial. Havia ainda uma certa hierarquia: abaixo do Conselheiro, havia 12 chefes que cuidavam dos vários aspectos administrativos da vida do arraial. Abaixo deles, encontrava-se a Santa Companhia, que era composta de cerca de 800 fiéis que passavam por uma iniciação, entregavam todos os seus bens e cultivavam a terra em benefício da comunidade.

Dessa forma, Canudos representava para o povo sertanejo, há muito esquecido pelo poder central e vivendo numa situação de extrema miséria, uma alternativa de vida, um modo de escapar das formas tradicionais de exploração e dominação.

Ao mesmo tempo, para os líderes locais, Canudos representava uma ameaça, já que os coronéis viam seu poder ameaçado pela influência de Antonio Conselheiro. Logo a Igreja Católica uniu-se aos chefes locais contra o arraial de Canudos.

Em 1895, o arcebispo da Bahia enviou dois capuchinhos a Canudos com a missão de dispersar o povo ali concentrado. Mas apesar de Conselheiro ter permitido a presença e a celebração de missas por esses capuchinhos, eles nada conseguiram. Ao voltar à cidade, eles escreveram um relatório no qual acusavam os seguidores do beato de serem monarquistas.

Em meio a uma disputa política no estado da Bahia, as opiniões sobre o arraial divergiam. Mas com a recusa de um juiz baiano de entregar madeira em Belo Monte, o Conselheiro ameaçou invadir a cidade. Diante dessa ameaça, os políticos locais se viram obrigados a agir contra a comunidade do beato. Mandaram então uma tropa de 100 homens para a região de Canudos.

No dia 21 de novembro de 1896, a tropa foi destroçada rapidamente por mais de mil jagunços que viviam no arraial. Com essa derrota, Canudos se tornou uma preocupação também entre políticos de Salvador e do Rio de Janeiro.

Iniciou-se, assim, uma segunda expedição contra o arraial de Antonio Conselheiro. Dessa vez com a participação do Exército e reuniu 543 praças, 14 oficiais e 3 médicos sob o comando do major Febrônio de Brito. A vitória parecia fácil, mas as tropas foram surpreendidas com a ação dos seguidores de Conselheiro.

Usando uma tática de guerrilha, os jagunços atacavam a retaguarda do inimigo a todo momento e desapareciam em seguida. Cada vez mais amedrontada, a tropa atirava a esmo, perdendo, com isso, muita munição.

Quando chegaram em Belo Monte, as tropas já estavam cansadas e nervosas, incapazes de continuar a luta. Assim, o major Febrônio de Brito ordenou a retirada e os jagunços do beato venceram novamente.

Essa segunda vitória aumentou a mística em torno de Canudos. A população sertaneja passou a ver a cidadela como uma terra protegida por Deus. Aos olhos do governo federal, no entanto, essa derrota trouxe muitas críticas da opinião pública, que afirmava que o governo não conseguia acabar com a “investida monarquista”.

Assim, em março de 1897 outra expedição chegou à região de Canudos. Dessa vez foram enviados 1.300 combatentes, com uma munição de 15 milhões de cartuchos e 60 peças de artilharia e sob o comando do coronel Antonio Moreira César.

Quando chegaram ao arraial, as tropas de Moreira César tiveram uma surpresa: Canudos era um labirinto de casas, ruas e becos onde cada sombra escondia um inimigo. Combateu-se casa por casa, rua por rua, até que Moreira César foi morto. Seguiu-se a isso uma retirada caótica das tropas governamentais.

Povo de Canudos. Foto de Flavio de Barros

A derrota abalou o país. Opositores do governo utilizavam isso para atacar a presidência de Prudente de Morais e os governistas aproveitavam para reprimir ainda mais os movimentos que eram considerados monarquistas. Em meio a esse clima caótico, foi organizada a quarta expedição, comandada pelo general Artur Oscar. Foi estabelecida uma tropa de 5 mil soldados.

O primeiro combate da derradeira expedição se deu em 25 de junho de 1897. Logo no início, 300 jagunços conseguiram deter cerca de 2.300 homens. Armadilhas e emboscadas mataram 1.200 soldados antes mesmo de eles atingirem o arraial. Mas, desta vez, houve uma reposição de soldados. Mais  4 mil homens se somaram aqueles que lutavam no arraial de Belo Monte.

As lutas se prolongaram por vários meses e, em 5 de outubro de 1897, foi travado o último conflito . De acordo com o testemunho de Euclides da Cunha, Canudos “resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo […] caiu no dia 5 ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores […]. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, à frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.

As fontes para o estudo de Canudos se resumem, quase que exclusivamente ao testemunho de Euclides da Cunha, jornalista enviado ao conflito pelo jornal O Estado de São Paulo. A partir de sua vivência do conflito, esse jornalista escreveu uma grande obra: Os sertões. Nela, o conflito aparece como decorrência de um choque entre o litoral civilizado e o sertão inculto. Em sua obra, há ainda a menção ao fato de que o conflito fora um caso de sebastianismo (crença portuguesa de que o rei D. Sebastião, morto na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1587, poderia voltar para libertar Portugal. No Brasil, esse movimento pode ser visto como uma inconformidade com a situação e a esperança de uma salvação externa).

O jornalista Euclides da Cunha

Atualmente, muitos estudiosos criticam as posições tomadas por Euclides da Cunha em sua obra clássica, pois ela teria caracterizado mal o conflito nordestino, criando uma idéia de que o sertanejo não poderia estar no mesmo nível de civilidade da população do litoral. Segundo Marco Antonio Villa, “Euclides da Cunha, maior intérprete da guerra, nunca reconheceu nos conselheiristas condições de igualdade à ‘civilização do litoral’”, desqualificando o nordestino como agente histórico.

Controvérsias à parte, o livro de Euclides da Cunha ainda é um grande marco da literatura brasileira, fornecendo também subsídios para se pensar esse momento conturbado da república brasileira.

Além disso, o conflito de Canudos revela a situação marginal a que estavam submetidos os nordestinos no final do século XIX, mostrando as dificuldades de se instalar no Brasil um poder centralizador que afastasse as ameaças fragmentárias; além de demonstrar a pouca preocupação com o povo sertanejo.

(Ligia Lopes Fornazieri)

Dica:

Euclides da Cunha. Os Sertões.

Marco Antonio Villa. Canudos: O povo da terra. São Paulo: Ática, 1995.

Walnice Galvão. O império do Belo Monte: vida e morte de Canudos. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001.

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8 respostas para Canudos

  1. cosme disse:

    eu estou lendo um livro que falar de canudo

    • Olá cosme! Espero que o post tenha contribuído com a sua leitura. Se quiser disponibilizar o nome do livro aqui nos comentários para que mais pessoas possam ler se estiverem interessadas, fique à vontade.
      Até mais,
      Paula

  2. Pedro disse:

    Estou lendo um livro sobre a Guerra de Canudos, se chama “A Guerra do Fim do Mundo” do autor Mario Vargas.. é um livro muito bom sobre o tema.

  3. Dioneti Moretti disse:

    Gostaria de saber se a foto das tropas de Antonio Conselheiro acima são de domínio público. Obrigada.

  4. CAROLINA disse:

    que legau A ISTORIA DE CANUDOS E INCRIVEL

  5. asdfgbnm disse:

    Legal ***

  6. Quais foram os motivos que uniram os povos e os lideres de canudos ?

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