A Igreja Católica e a Ditadura Militar

Ana Carolina Machado de Souza
O apoio despendido pela Igreja Católica no início do governo militar foi providencial para a concretização do golpe. Essa mobilização por parte da Igreja ocorreu, principalmente, como combate à ameaça do Comunismo, com sua crença ateísta, e ao crescimento inerente dos movimentos de esquerda durante a década de 1960. A ação da Igreja não foi muito diferente de diversos setores da sociedade que, temendo a desintegração e a desordem social, se aliaram ao regime. Porém essa aliança não se manteve constante durante os 21 anos de ditadura militar. As mudanças políticas do pós-64, com as violações aos direitos humanos, repressões contra diversas instituições e a censura midiática, levaram aos bispos e clérigos a adotarem medidas mais progressistas.
Em 31 de março de 1964, o golpe militar finalizou a curta experiência democrática vivida pela sociedade brasileira. Uma das principais metas dos primeiros anos do regime foi construir uma legitimidade para a adoção de tal golpe antidemocrático. Por sua vez em 1968 o governo definitivamente mostrou a que veio e em dezembro daquele ano institucionalizou o AI-5.
Os conflitos internos na própria Igreja Católica causavam um ambiente ambíguo, pois de um lado estava a esquerda católica, que defendia uma mudança radical, e de outro os mais tradicionais, fiéis à antiga concepção de fé, de onde surgiu a direita católica. Este setor ajudou a provocar uma crise política na época do presidente João Goulart, auxiliando a queda do mesmo, e a instauração do golpe militar em 1964. A polarização dos eclesiásticos estava, em sua maioria, entre reformistas e modernizadores conservadores, sendo que estes não favoreciam, de forma mais aberta, nem os tradicionalistas nem a esquerda.
Apesar de estar dividida, entre 1963 e 1964, atendendo aos temores da sociedade civil, os modernizadores conservadores ganharam as eleições da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), ao derrotarem os progressistas.
A partir da segunda metade do século XX algumas mudanças começaram a ser operadas no interior da igreja brasileira. As transformações políticas e sociais presenciadas pelo povo brasileiro, tanto no contexto interno quanto internacional, foram de extrema importância para o novo caminho escolhido pela instituição. A sociedade brasileira estava em franco processo de modernização, e se desenvolvia providencialmente, tornando-se um país mais industrializado. Apesar dos diversos aspectos que podem ser enumerados, dois obtém maior destaque: a profunda reformulação que o Catolicismo estava sofrendo com o Concílio Vaticano II (realizado entre 1962-1965), sob a tutela do Papa João XXIII; e a necessidade de adotar uma nova visão, devido à desmoralização da Igreja. Tal Concílio instigou um novo olhar sobre o mundo moderno, numa tentativa de amenizar o extremismo da visão católica na sua relação com o homem, uma nova relação de alteridade também com outros credos.
Outro episódio de extrema necessidade para entender a igreja no contexto latino-americano foi a II Assembléia Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano, realizada em Medellín, em 1968. A Conferência na Colômbia surgiu devido a uma ação do Papa Paulo VI, no intuito de aplicar as mudanças indicadas pelo Concílio Vaticano II às necessidades da Igreja Católica da América Latina. Dentre todas as propostas, três foram as principais: a opção pelos pobres, no sentido de a igreja defender os direitos e denunciar as injustiças; a libertação integral, o que implicava em críticas ao capitalismo; e, por fim,  a escolha das comunidades eclesiais de base (conhecidas como CEBs), como o lugar chave para o encontro das classes que mais necessitavam de ajuda.
Essas CEBs não estavam ligadas apenas à caridade propriamente dita, pois também eram lugares de reflexão, ou seja, a população deveria realizar a sua mudança também internamente. Aqui se observa  a grande transformação proposta pela igreja, já que nunca antes houve uma aproximação tão intensa entre o povo e os eclesiásticos. Medellín obteve um sucesso relativamente grande para o crescimento de uma igreja popular. Antes de mais nada, o homem seria o centro das atenções do continente.
As novas práticas de evangelização fizeram com que a Igreja criasse uma serie de organizações para estabelecer um contato mais estreito com seus fiéis. Além das comunidades eclesiais, surgiram, também, a JOC (Juventude Operária Católica), para se aproximar dos operários, a JUC (Juventude Universitária Católica), dos estudantes. Nos anos posteriores apareceram o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), a CJP (Comissão de Justiça e Paz) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra).
  Na década de 1970 o Brasil entrou numa nova fase da ditadura, com maior rigidez e desenvolvimento, que foi denominada pelos militares como milagre econômico. Variados projetos de forte impacto econômico e social foram introduzidos no país, com obras de infra-estrutura, principalmente com financiamento internacional. Contudo, a repressão e opressão, no intuito de neutralizar os grupos opositores, religiosos e civis, foram acirradas. Nessa época houve o deslocamento de alguns setores da Igreja, muitas vezes ligados ao Estado e aos grupos dominantes, a uma posição de maior proximidade das classes mais baixas, com essa nova necessidade de se pensar o papel social da Igreja.
Uma grande força foi a Teologia da Libertação, criada desde 1952, mas que tomou vôos maiores a partir do final da década de 1960, com o recrudescimento do regime militar. Esta igreja libertadora pensava na defesa dos oprimidos e no levante contra a fome, além disso, lutavam pelo direito à propriedade privada, pelo desenvolvimento social, pelos direitos humanos. A Teologia da Libertação entende que a igreja deve caminhar ao lado dos oprimidos, deve ver a realidade a partir da ótica dos pobres, portanto a e a prática pastoral tem que seguir essa ideologia.
O apoio da igreja católica aos golpistas militares começou a cessar a partir do momento que a rigidez opressora aumentou consideravelmente. Entre 1964 e 1968, a CNBB pouco se manifestou sobre a repressão do  governo militar. Contudo no final da década de 60, em uma Assembléia Geral, próximo à CELAM em Medellín, os bispos passaram a abordar esses assuntos polêmicos, mesmo que ainda com certos graus de moderação.
A adoção de posições mais críticas pela igreja e pela CNBB também está relacionada ao dinamismo que a Conferência adquiriu durante esses anos e em função do recrudescimento da repressão. As torturas praticadas em São Paulo, as perseguições contra os camponeses na Amazônia e contra os eclesiásticos nordestinos afetaram diretamente a Igreja no Brasil. No ano de 1970, um documento muito mais enfático foi divulgado pela CNBB, que dizia:
Não podemos admitir as lamentáveis manifestações da violência, traduzida nas formas de assaltos, seqüestros, mortes ou quaisquer outras modalidades de terror. Pensamos primeiramente no exercício da JUSTIÇA, que, sinceramente, cremos estar sendo violentado, com freqüência, por processos levados morosa e precariamente, por detenções efetuadas em base a suspeitas ou acusações precipitadas, por inquéritos instaurados e levados adiante por vários meses, em regime de incomunicabilidade das pessoas e em carência, não raro, do fundamental direito de defesa. Seríamos omissos se não frisássemos, neste momento, nossa posição firme contra toda e qualquer espécie de tortura. (Documento da Décima Primeira Assembléia Geral da CNBB, SEDOC, 3 (1970-1971): 85-86 APUD MAINWARING Igreja Católica e Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.p.130.)
A partir do momento em que a Igreja estreitou seus laços com os outros segmentos sociais, principalmente as classes populares, e passou a se levantar contra o regime, diversos membros passaram a ser perseguidos e serem alvos da repressão policial.
Apesar de todas as mudanças que a Igreja sofreu durante os anos 1960 e 1970, deve-se ter um mente que as instituições religiosas não se modificam, ou tornam-se progressistas a partir do momento em que é instaurado um governo repressor no seu país. É inquestionável que, durante a História, a Igreja ocupou um lugar próximo ao poder econômico, político e cultural dominante. Isso é visível na estruturação da hierarquia eclesiástica, sempre ordenada de cima para baixo, rigidamente pensada em não deixar brechas para a participação popular nas ordenações. A união entre o Estado e a Igreja tinha por interesse a maior concentração de poder, além disso, exercer maior controle sobre a população.
Aspectos econômicos não mudam por completo a percepção política eclesiástica. Algumas partes da igreja em território brasileiro pouco se alteraram, pois imperava um regionalismo que se sobrepunha ao poder nacional. E é sempre necessário lembrar que essa mesma Igreja que contestou o regime, o apoiou no seu início. O que ocorreu no Brasil foi o profundo abalo na sociedade civil, principalmente no que se refere ao cancelamento dos direitos políticos e a pouca importância dada aos direitos humanos. Todavia, esses não foram os únicos causadores da transformação do catolicismo brasileiro. A renovação eclesiástica era encorajada internacionalmente, e o Concílio e a CELAM são provas dessas manifestações. Os conflitos surgiram diante da discrepância entre o projeto eclesiástico, pautado na justiça social, e os interesses dos militares.
Mais do que os ataques prestados contra a Igreja pelo regime militar, também um dos motivos da ruptura dessa com o Estado, o que estava em jogo era o conflito de interesses entre as duas instituições. A Igreja por si só já estava se modernizando e rompendo barreiras existentes dentro dela mesma, portanto era criada uma nova identidade acerca da doutrinação mundial católica. Esta atingiu patamares elevados na América Latina, principalmente no Brasil, devido ao contexto político e social vivido aqui. Não se pode isolar nem as condições políticas e nem a doutrina institucional e promover processos estanques e lineares para explicar as diferentes posições tomadas pela igreja no Brasil. A História não é uma linha constante e infindável em que se pode explicar apenas por processos de causas e conseqüências. As relações humanas são muito mais complexas.

 

Dicas:
SERBIN, Kenneth P. Diálogos na Sombra. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2001.
MAINWARING, Scott. Igreja Católica e Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.
Filme:
Batismo de Sangue (2006). Direção: Helvécio Ratton
Baseado no livro homônimo escrito por Frei Betto, lançado em 1983. Basicamente, narra a história de religiosos que resolveram se aliar à ALN (Aliança Libertadora Nacional) contra o regime militar.

 

 

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7 respostas para A Igreja Católica e a Ditadura Militar

  1. José Roig disse:

    Caras Ana, Lígia e Paula,
    faz tempo que estou para divulgar o blog Historiando no Educa Tube. Enfim, o post saiu, no link abaixo. Parabéns pelo trabalho. Adorei. Sucesso. Abrs, Zé Roig.
    http://educa-tube.blogspot.com/2011/08/historiando-blog-educacional.html

  2. É com louvor que recebo essa informação. Participei, jovem ainda, da Teologia da Libertação e devo muito de minha formação de cidadão, a ela. Creio que há muitos aspectos ainda a serem pesquisados por historiadores e cientistas políticos e sociais em documentos tanto escondidos pelos órgãos de segurança quanto pela ala conservadora da Igreja Católica.

  3. Mateus disse:

    Agradeço de coração a quem se dedicou a escrever esse artigo!

  4. Joseph disse:

    Eles apoiaram a ditadura no começo, depois deixaram de apoiar porque perderam a mamata e perderam o resto de poder que tinham. Acharam que se beneficiariam apoiando a ditadura, mas depois viram que com os militares não tinha dessas e que eles não era melhores que ninguém e teriam que entrar na linha também.

    • Elza Batista Fonseca da Silva disse:

      Joseph, vc sabe o nome do primeiro papa a apoiar a ditadura?
      Não era Voitylla ou Voitilla?

    • Yan disse:

      kkkk… amigo, você não sabe o que está falando.. você não sabe o poder que uma religião tem sobre a sociedade, principalmente nessa época em que o catolicismo tinha mais de 80% dos brasileiros como adeptos… e acredito que a Igreja só não derrubou o regime militar porque estava dividida entre apoiar e protestar

      E não pense que a Igreja não fez nada porque não tinha forças não… Lembre-se que até os soldados tem religião e se for um caso de extrema urgência e perseguição eles conseguiriam facilmente subverter eles contra seus comandantes

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