A Revolução Cubana

A segunda metade do século XX foi um período de grande mobilização política e social em toda América Latina, muitos movimentos sociais surgiram como resposta à conjuntura internacional da Guerra da Fria, que dividia o mundo em dois grandes blocos político-ideológicos: o capitalismo, chefiado pelos Estados Unidos; e o comunismo, liderado pela então União Soviética. Esta bipolaridade mundial foi decisiva para a Revolução Cubana, que destituiu do poder o ditador Fulgêncio Batista que, apoiado pelos Estados Unidos, foi uma espécie de representante dos interesses estadunidenses em Cuba.

Assim que Cuba tornou-se independente em 1898, os Estados Unidos buscaram diversas maneiras de manter sua influência sobre a ilha e a Emenda Platt, foi um mecanismo que perpetuou a interferência deste país sobre Cuba. Esta emenda era um anexo incluído, em 1901, na nova constituição cubana que garantia aos Estados Unidos o direito de intervir política e militarmente em Cuba sempre que os interesses do primeiro estivessem ameaçados. A Emenda Platt submeteu Cuba ao domínio dos Estados Unidos até 1933, ano em que Fulgêncio Batista assumiu pela primeira vez o governo cubano.

Fulgêncio Batista ocupou o cargo político máximo em Cuba por três vezes; a primeira foi entre 1933 e 1940 em que foi nomeado pelo governo dos Estados Unidos; segunda entre 1940 e 1944 como presidente oficial do país; e a terceira e última, como ditador, de 1952 e 1959. Entre 1933 e 1944, exerceu um governo forte no qual centralizou em sua figura as nomeações políticas, submeteu Cuba aos desejos e vontades dos Estados Unidos. Já em 1952, através de um golpe militar financiado pelos EUA, Fulgêncio voltou ao poder e instaurou um governo autoritário que restringiu liberdades, censurou a imprensa, perseguiu opositores e abriu ainda mais a economia cubana aos Estados Unidos.

Fulgêncio Batista

Cuba vivia então, sob forte influência econômica e política dos EUA, as indústrias de açúcar eram em sua maioria de empresários estadunidenses; e o açúcar era o principal produto de exportação da ilha. Cuba era então considerado o “quintal” das indústrias estadunidenses que encontravam nesse país a possibilidade de instalar suas empresas pagando baixíssimos impostos e remunerando com quantias irrisórias os trabalhadores cubanos.

Estavam instaladas em Cuba além de indústrias de açúcar, fábricas de automóveis, inúmeros hotéis e cassinos de grandes redes estadunidenses que foram usados para a lavagem de dinheiro. Esses cassinos e hotéis tornaram-se símbolos da desigualdade social e corrupção cubana, pois somente uma pequena parcela da população tinha acesso a estes lugares; parcela esta que detinha a maior parte das riquezas de Cuba.

Com o crescimento das desigualdades sociais e o cerceamento das liberdades, violência e corrupção, os setores opositores do regime político passaram a mobilizar-se para que a situação político-social cubana fosse modificada. Fidel e Raul Castro organizaram um levante  junto com um pequeno grupo de aliados e tentaram invadir o Quartel de Moncada, com a intenção de roubar as armas para então iniciar uma luta armada contra a ditadura. O plano fracassou, muitos rebeldes foram mortos e outros presos. Fidel e seu irmão Raul Castro foram presos, julgados e condenados a alguns anos de prisão. Porém, não cumpriram, pois foram beneficiados por uma anistia, então retiram-se de Cuba e seguem para o exílio no México.

Foi durante o exílio no México que passaram a organizar novamente a luta armada para retornar à Cuba e derrubar o ditador Fulgêncio; é nesse período de exílio que Fidel conhece uma das figuras mais emblemáticas da historia revolucionária mundial, o médico argentino Ernesto Che Guevara. Che solidariza-se com a luta cubana e se integra ao grupo de aproximadamente oitenta pessoas que treinaram e se prepararam para retornar a Cuba. Em 1956 regressam a Cuba para iniciar o treinamento guerrilheiro, mas logo na chegada o grupo foi surpreendido por uma patrulha militar e metade dos rebeldes foram mortos. Os sobreviventes fugiram para uma região conhecida como Sierra Maestra, região de floresta densa.

Fidel Castro e Che Guevara

Foi neste momento que a guerrilha ganhou subsídios para organizar-se de fato, essa região era bastante desconhecida para os militares de Fulgncio o que deu certa segurança para a organização do grupo. O movimento liderado por Fidel passou a ganhar muito apoio popular, inclusive de uma sólida rede urbana, que conta com a importante ajuda de Frank Pais Garcia, que foi um revolucionário que articulou uma infra-estrutura de abastecimento da guerrilha. A guerrilha cresce e ganha força, na noite de réveillon de 1958 para 1959, os guerrilheiros chegam à capital Havana e Fulgêncio fica encurralado, sendo obrigado a deixar o poder e a fugir do país.

Fidel chegou em Havana em 6 de janeiro de 1956 e organizou um governo provisório que reunia representantes de todas as tendências de oposição à Fulgêncio Batista, Fidel tornou-se o Comandante das Forças Armadas; o governo provisório era bastante eclético, mas quem mandava de fato em Cuba era o Comandante das Forças Armadas. Fidel passa a tomar decisões que feriram aos interesses econômicos dos Estados Unidos, como por exemplo, o plano de nacionalizar as terras, que lesaria aos empresários estadunidenses que perderiam suas posses. Os Estados Unidos ameaçam Cuba e Fidel decide nacionalizar todas as empresas estadunidenses do país; foi nesse momento que os Estados Unidos iniciam o embargo comercial, que rompeu as relações econômicas com Cuba.

Foi neste exato momento que a União Soviética entra neste cenário político declarando apoio ao novo governo cubano e passa a enviar a Cuba todo o tipo de ajuda como dinheiro, armas, petróleo. Fidel passa a tomar decisões que aproximam Cuba à União Soviética. Com uma tentativa de tirar Fidel do poder, o governo dos Estados Unidos organiza, em 1961, realiza uma ação militar conhecida como Invasão da Baía dos Porcos, que foi um episódio catastrófico que matou centenas de homens. Fidel, usando deste acontecimento anuncia que a partir daquele momento Cuba integrava-se ao bloco soviético, se transformando no primeiro país americano declaradamente socialista.

Este acontecimento foi um choque para a hegemonia estadunidense na América Latina, pois a partir daquele momento, a União Soviética tinha um aliado a mais ou menos 150 quilômetros da costa de Miami, e num contexto de Guerra Fria isso era praticamente uma derrota dos Estados Unidos para os soviéticos. A situação agravou-se ainda mais no ano seguinte com o episódio da Crise dos Mísseis quando os soviéticos instalaram uma base de mísseis em Cuba; este é considerado por alguns historiadores o momento mais tenso, o auge da Guerra Fria, em que o mundo temeu pela concretização da guerra nuclear.

A União Soviética passa a investir pesadamente em Cuba, para que este país figurasse como uma vitrine do socialismo para a América Latina, a ilha viveu seu momento auge com os índices de analfabetismo zerados, ampliação da expectativa de vida através da construção de uma ampla rede hospitalar e criação de universidades de ponta. Porém, esse nível de desenvolvimento entra em crise por causa do fim da União Soviética, mas a ilha apesar das dificuldades não deixa de ser socialista e assim mantêm-se até os dias de hoje.

A Revolução Cubana foi um processo de guerrilha que durou vários anos, foi uma revolução democrática que visava a liberdade e autonomia da nação, que foi em seus instantes iniciais antiimperialista e somente depois tornou-se socialista. Foi, como já mencionado um dos acontecimentos políticos mais marcantes e importantes da América Latina durante os anos de Guerra Fria.

Bruna Borges

Dicas

Fernando Morais, A ilha. Companhia das Letras, 2001.

AYERBE, Luis Fernando. Revolução Cubana.Ed Unesp, 2004

Filme que narra a trajetória de Che Guevara com um relato interessante sobre a Revolução Cubana e sua amizade com os irmãos Raul e Fidel Castro.

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7 respostas para A Revolução Cubana

  1. Igor disse:

    Muito legal!!!!

  2. Anna Laura disse:

    Nossa,muito bom mesmo este texto.

  3. Rômulo Viel disse:

    Mentirada danada. De “democrática” não teve nada essa tal revolução cubana.

  4. ricardoluizpernão disse:

    Interessante este texto e como sempre podemos ver a mão do capitalismo junto com os EUA se intrometendo né.

  5. nagila disse:

    muito bom!!!

  6. evelli disse:

    muitoo bom o texto!!! uma ajuda e tanto…obrigado!!!

  7. Pingback: Black Power nos Estados Unidos: o movimento por direitos civis. | Historiando

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