Uma análise de literatura: Os sofrimentos do jovem Werther

Ana Carolina Machado de Souza
O livro Os sofrimentos do jovem Werther, publicado em 1774, do alemão Johann Wolfgang von Goethe, é uma das grandes obras da literatura mundial. E pode ser pensado como um exemplo do uso da literatura como fonte documental para a produção historiográfica. Neste post, a ênfase será na representação do ideal feminino da época, através da personagem Charlotte, ou apenas Lotte. Para isso, será realizada uma breve contextualização do movimento e considerações sobre os problemas encontrados em se rotular o Romantismo.
A literatura alemã do final do século XVIII e início do XIX, classificada como romântica, teve influências dos acontecimentos políticos e econômicos vividos na Europa naquele período. É necessário ter em mente que as revoluções liberais surgiram no Ocidente nessa época. A Revolução Industrial, na Inglaterra, e seu alastramento pelo continente, também foi um fator preponderante para a transformação política e econômica. Um dos acontecimentos ocorridos, a Guerra Franco-Prussiana, afeta diretamente a vida de Goethe, já que seu pai, um erudito que trabalhava para o governo de Frederico II e crítico da atitude francesa, recebeu na própria casa alguns franceses oriundos dessa guerra. Apesar do desconforto em hospedá-los, Johann Goethe teve um contato mais íntimo com leituras provenientes do país vizinho.

Retrato de Johann Wolfgang v. Goethe – Georg Melchior Kraus c.1775

Sintetizar toda uma expressão cultural e política num denominador comum, o Romantismo, é dificultoso principalmente devido ao seu caráter contraditório. Elaborar um único conceito para um vasto movimento intelectual que assolou a Europa nesse período é uma tentativa corajosa e problemática, pois sempre será fadada a críticas. Essas particularidades estão presentes não somente nas obras que compõem o dado movimento, mas também nos próprios autores. Vale lembrar que a classificação como “romântico” não se traduz apenas a poetas e escritores ficcionais, ela abarca também o território dos intelectuais, políticos, filósofos, historiadores. A abordagem historiográfica, assim como a literária, também encontra problemas em se restringir exclusivamente a uma forma de pensar, em um conceito definido.
Os sofrimentos do jovem Werther possui caráter emblemático e teve repercussão na Europa letrada na época de sua publicação. Johann Wolfgang von Goethe nasceu em Frankfurt, em 1749. Originário de uma família abastada, o pai trabalhava como advogado e conselheiro da corte de Frederico II, Goethe foi educado pelo pai e por tutores até ingressar na faculdade de Direito em Leipzig, em 1765, aos 16 anos. Porém foi em 1770 que se considera sua entrada para o movimento Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto, do final do século XVIII e início do Século XIX), liderado por seu amigo Johann Gottfried Herder. Em 1774, chega à cidade de Wetzlar, após uma paixão avassaladora por Charlotte Buff, noiva de um colega, pela qual quase cometeu suicídio. Variadas biografias mostram ser esse episódio da vida de Goethe emblemático para a construção de Os sofrimentos do jovem Werther. Viveu entre a alta sociedade alemã, atuando como escritor e conselheiro de figuras como duques e príncipes. Assim como diversos intelectuais da época, produziu trabalhos científicos como a descoberta de um determinado osso no corpo humano. Faleceu em 1832, em Weimar, devido a complicações de uma gripe.

1ª edição em alemão de Os sofrimentos do jovem Werther

O livro Os sofrimentos do jovem Werther é um romance epistolar, no qual o personagem título está de viagem a negócios e encaminha suas cartas ao amigo Wilhelm. Alguns críticos dividem a obra caracterizando sua primeira parte, que vai até o meio do livro, como mais filosófica, e a parte final como mais descritiva, onde narra os acontecimentos e tormentos com Lotte. Numa das primeiras cartas apresentadas, datada de dez de maio, Werther demonstra sua alegria e felicidade em estar numa região bem quista, porém, mesmo exprimindo esses sentimentos, uma fina angústia já era apresentada.
As sensações complexas e paradoxais estão presentes desde o início da obra, porém passam a ser mais substanciais a partir do seu primeiro encontro com Lotte, quando houve um encantamento com a jovem.
“É um anjo!… Ora, já sei que todos dizem isso de sua amada, não é verdade? Todavia, é-me impossível dizer a você o quanto ela é perfeita, e também o porquê de ser tão perfeita. Só isto basta: ela tomou conta de todo meu ser. Tanta naturalidade com tão alto senso de justiça! Tanta bondade com tamanha firmeza! Uma alma tão serena e tão cheia de vida e energia!” (GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. pp. 23-24)
Lotte simboliza o ideal da mulher estudada, culta, erudita, daquela época, pronta para se casar e foi educada para a função. É possível promover uma relação com as críticas sociais ao movimento. Alguns autores caracterizaram o Romantismo como uma manifestação burguesa, própria da elite dos respectivos países alcançados. A educação ministrada a Lotte, assim como a organização de sua casa e família não eram uma constante para a maioria das famílias alemãs. Essas são análises influenciadas por estudos que entendem o movimento como reacionário e conservador, numa atitude antiburguesa.
Werther, mesmo ao saber que Lotte possuía um noivo (Albert), ainda nutria sua paixão pela jovem, porém as angústias aumentam com a chegada de Albert.
“Albert voltou, e eu quero partir. Mesmo que ele fosse o melhor, o mais nobre dos homens, e eu me reconhecesse inferior a ele de todos os pontos de vista, ainda assim não suportaria vê-lo, com meus próprios olhos, possuidor de tantas perfeições… Possuidor!… Wilhelm isto é o bastante: o noivo está aqui.” (GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. P. 44)
São notáveis as notas melancólicas nesse trabalho de Goethe. Ambas personagens (Werther e Lotte) sentem uma atração física e emocional recíproca, porém são impossibilitados de concretizar qualquer ato, e assim seus sentimentos são invadidos pela dor e depressão. O protagonista chegava a desejar, imerso na pura angústia de seu amor impossível, numa possível morte do noivo, como fim de seu sofrimento e da amada. Porém, com a mesma rapidez em que refletiu sobre essa possibilidade, ela desapareceu, e os resquícios são de mais dor e culpa por um sentimento tão rude.
“Quando mergulho assim nos meus sonhos, não consigo evitar esta idéia: ‘Que aconteceria se Albert morresse? Você seria… Sim, ela seria… ’ E então persigo essa fantasia até que ela me conduza a abismos, estremeço e recuo” (GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. P. 76).
 Ao longo do tempo, a relação sentimental de Werther e Lotte se torna ainda mais profunda e dramática. A jovem simboliza a perfeição procurada pelos homens da época, um aspecto tão frequente da literatura romântica que se tornou um dos denominadores comuns passíveis de compreensão entre as vastas obras do gênero. Assim como a Sofia de Rousseau (no romance Émile), Lotte é a personificação da mulher ideal desse período histórico.
Com o casamento de Lotte e Albert, Werther sente-se cada vez mais impossibilitado em seguir calmamente sua vida, já que não era mais viável o amor da jovem. As ideias suicidas apareceram cada vez mais fortes na sua vida, e Goethe narra de maneira dramática e compulsória todo o sofrimento experimentado pelo protagonista. Nessa última parte do livro a fala do narrador (Wilhelm) aparece intercalada às cartas de Werther.  Transcreve, então, o episódio mais marcante e preponderante para a final atitude do personagem, o beijo na amada. Na última noite em que se encontraram, emocionados com a leitura de Werther sobre  Ossin, eles se beijaram.
“Por alguns segundos, Lotte pressentiu o terrível desígnio que Werther concebera. Ficou transtornada. Apertou-lhe as mãos, e ele premiu as dela contra o peito. Em dado momento inclinou-se sobre Werther, com uma emoção dolorosa, e as faces ardentes de ambos se tocaram. O mundo inteiro deixou de existir. Werther enlaçou-a com os braços, apertou-a contra o coração e cobriu de beijos furiosos seus lábios trêmulos e balbuciantes.” (GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. P. 111)
O amor entre os dois era recíproco, mas impossível. Na mesma noite, Werther pegou uma pistola e deu um tiro em seu olho direito.
Apesar de ser uma obra ficcional, a sua análise possibilita uma melhor compreensão desse homem encontrado no início do século XIX. As diversidades de sentimentos exprimidos, paradoxais muitas vezes, dramáticos e antitéticos, mostram uma pluralidade de emoções existentes nos autores desses romances. Lotte é a personificação do ideal de mulher apresentado para a alta sociedade alemã da época. Uma jovem criada para o casamento, com erudição, destreza e delicadeza. De maneira sintética, a mulher no movimento romântico é vista cada vez mais como um ser intangível e puro, angelical. Esse romance também demonstra o sofrimento pelo amor sentido por Werther, mas impossível de ser consumido. Os sofrimentos do jovem Werther foi um marco na obra romântica alemã e européia por trazer esses elementos, e a jovem pela qual o personagem título se apaixona loucamente, é uma mostra do que era procurado numa dama do período.

Dicas:

Ópera de Jules Massenet escrita em 1887, baseada na obra de Goethe. Porém, só estreou em 1892. Este vídeo é uma encenação de 2006 e está completa.
GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009.
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11 respostas para Uma análise de literatura: Os sofrimentos do jovem Werther

  1. Guilherme disse:

    poxa os post estão escassos,achei que tinham abandonado o blog.

    • olá guilherme, desculpe-nos pela demora em atualizar o blog, mas estamos com dificuldades em conciliar os estudos, trabalho e blog. Mas sempre que possível vamos postar. Espero que continue nos acompanhando!
      Abraços,
      Paula

  2. rafaela disse:

    gostei muito fico otimo

  3. Pamela Ferreira disse:

    nossa muito bom … Assim fica muito melhor a compreenção do livro

  4. Helen Santana disse:

    Muito bom.

  5. Viviane disse:

    Adorei , estão de parabéns! Estou cursando literatura e já tinha realizado a leitura do livro, mas nesse semestre tive que analiza-lo novamente. Me ajudaram muito, certos pontos eu nao tinha entendido agora estão esclarecidos .

  6. Pingback: Parade’s End (2012) – A literatura, a tv e a História | Historiando

  7. Laryssa disse:

    Muito bom! Vai me ajudar bastante no seminário que vou apresentar na escola.

  8. wellieti00 disse:

    ótimo!

  9. Valeu pelo post!
    Muito bom, adorei, vai me auxiliar bastante.

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