História e Restauração: o caso da Igreja de Nossa Senhora da Escada – Guararema

 

A temática de preservação patrimonial adquiriu força na Europa a partir do século XIX, e passou a ser discutida sistematicamente por intelectuais como John Ruskin, Viollet le Duc e Alois Riegl. Com a promulgação da Carta de Atenas, em 1931, houve a regulamentação de uma concepção moderna em matéria de restauração e conservação patrimonial. Esses conceitos internacionais tiveram grande influência no caso brasileiro.

Foi com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 1937, que o país começou a se inserir no debate e promulgar a ação de preservação do patrimônio. Tinha como função primordial preservar o que os seus mentores pensavam ser a cultura brasileira. Por ser um projeto pioneiro, ele foi creditado aos maiores nomes da intelectualidade brasileira, oriundos, sobretudo, da arquitetura e arte moderna. O SPHAN foi primeiramente um projeto idealizado por Mario de Andrade, e se chamava Serviço do Patrimônio Artístico Nacional. Porém, o projeto efetivado após o decreto-lei nº25 de 1937 foi elaborado por Rodrigo de Melo Franco de Andrade e adquiriu o conceito de Histórico.

No cenário da arquitetura houve a preferência pelo estilo moderno para o futuro, em detrimento do estilo neocolonial, claramente europeu. O modernismo brasileiro era nacionalista por excelência. Valorizava a arquitetura colonial, não somente como inspiração, mas também como um período no qual o Brasil não teria procurado influências diretas das amostragens estrangeiras. Momento em que houve mescla de técnicas construtivas indígenas, portuguesas, com a escolha das que melhor se adaptassem ao solo, à topografia e aos interesses do construtor. A arquitetura neocolonial não tinha nada de característico brasileiro, segundo os modernistas, pois seria a cópia do exemplo europeu em terras tupiniquins, sem qualquer problematização.

A arquitetura colonial era considerada uma representação genuína do caráter e espírito brasileiro. Nas primeiras décadas do SPHAN, grande parte do trabalho esteve em se realizar inventários, tombamentos e restauros dos bens selecionados de acordo com os preceitos regidos na época. A orientação em relação ao restauro e preservação era seguir os princípios gerais estabelecidos na Carta de Atenas.  No entanto, ao constatarem que diversos monumentos sofreram intervenções no século XIX, que acarretaram em alterações profundas, os técnicos do SPHAN aprovaram restauros que não obedeciam aos preceitos internacionais da Carta.  O intuito do SPHAN era o de reconstituir a feição original do edifício, que foi transfigurada pelas intervenções clandestinas. Eles acreditavam que trariam uma certa integridade ao edifício que foi perdida em intervenções que não buscavam o que era propriamente nacional. A ideia era que somente a arquitetura de estilo colonial era a fiel representante das origens da arquitetura brasileira.

O nascimento de Guararema

O surgimento do município de Guararema, situado na Grande São Paulo a uma distância de 75 km da capital do estado se confunde com a aldeia de Nossa Senhora da Escada. O capitão-mor Gaspar Cardoso, de Mogi das Cruzes, cidade vizinha ao atual município, trouxe do sertão um grande número de índios, tanto capturados como aliciados, e construiu um aldeamento recebido pelos jesuítas às margens do rio Paraíba, em 1625. A primeira capela foi construída em 1652 e a partir daí se tornou um ponto de referência para viajantes do trajeto Rio de Janeiro/São Paulo.

Em 1732, devido às insistências e apelos do administrador da aldeia, Sebastião de Siqueira Caldeira, e a obtenção de recursos marginais ao governo, houve a construção de uma nova capela e um convento. A anterior tinha sido feita de taipa de mão, e por falta de manutenção devido aos parcos recursos, boa parte estava deteriorada. Em 1739 houve a entrega definitiva da aldeia da Escada para os franciscanos, que já possuíam assentamentos na região e que assistiram a capela religiosamente até 1804.  Contudo, a administração da aldeia ocorreu até 1758, devido ao ato segregar poder eclesiástico e civil, realizado pelo Marquês de Pombal. O arraial da Escada recebeu esse nome devido ao crescimento populacional registrado após a independência. Foi elevado à categoria de Distrito de Paz em 1872, devido à lei número um, de 28 de fevereiro.

A igreja e o restauro

A Igreja de Nossa Senhora da Escada foi tombada pelo SPHAN em 25 de janeiro de 1941. A igreja tem uma concepção jesuítica em sua forma arquitetônica, estruturada em taipa de pilão e pau-a-pique em estilo barroco, com revestimento em barro e reboco. Possui uma planta retangular com telhado dividido em duas águas, o corpo de residência se localiza na parte da lateral direita e ambas são abertas para o largo, onde tem um cruzeiro. Na parte interna possui uma ampla nave, coro em mezanino sobre a entrada principal e um altar-mor simples, caracterizado por tábuas rasas e lisas e pequenos adornos decorativos nas cercaduras dos nichos. Apesar de ser um bem, teoricamente, resguardado pelas leis preservacionistas, a igreja sofreu diversos reparos ao longo de sua história, e aqui enfatizaremos os produzidos em 1945 e em 1947.

Em 1945 a parede posterior sofria várias infiltrações pluviais entre a taipa e os anexos produzidos após sua construção, como a torre e paredes divisórias. Os “encamisamentos”, que tinham o objetivo de reforçar a estrutura já abalada pela má conservação, cederam. Da mesma maneira, o telhado posterior à capela ruiu, devido à falta de amarrações entre os frechais. Reformas de caráter emergencial foram disponibilizadas.

Em 1947, novas infiltrações ocorreram, além do agravamento das já existentes, ocasionando desabamentos na área da base da torre. Neste momento houve a aprovação de novas reformas emergenciais, que se constituíram no preenchimento das porções ruídas e degradadas das paredes e muros de taipa e na recomposição da área desabada da cobertura. Após essa reforma o telhado e parte do muro ainda reclamavam intervenções periódicas devido ao mau estado de conservação e preservação. (Figuras 1, 2)

A Igreja encontrava-se em péssimo estado de conservação, sendo assim impossível de promover os eventos culturais característicos da região, assim como sacramentos e missas. Em 1952 técnicos do SPHAN estiveram em Guararema para catalogar os problemas. Porém, foi apenas em 1954 que a restauração oficial da Igreja de Nossa Senhora da Escada foi promulgada, e obteve duração até 1957. (Figura 3)

Figura 1 Infiltrações e problemas na estrutura

Figura 1 Infiltrações e problemas na estrutura

Figura 2

Figura 2

Figura 3 Fachada má conservada – Antes da Restauração de 1954-1957

Figura 3 Fachada má conservada – Antes da Restauração de 1954-1957

A restauração se constituiu, basicamente, na demolição da torre e as divisórias consideradas mais recentes, dos “encamisamentos” e das colunas da parede, construídos em tijolo de alvenaria. Este não era o material original da igreja, e, de acordo com os preceitos que regiam os técnicos do SPHAN daquela época, as reparações produzidas ao longo da história da igreja qualquer intervenção regulamentada “descaracterizaram” a sua arquitetura genuína.  Segundo o SPHAN, a igreja era considerada exemplo da arquitetura tradicional (colonial) jesuítica, paulista, portanto a transfiguração da edificação foi legitimada com base nessa argumentação. Mesmo o monumento tendo sido tombado também pelo seu cunho histórico, a restauração efetivada em 1957 retirou a historicidade do edifício e acabou criando outro que nunca existiu. O grau de intervenção entre a igreja catalogada e tombada na década de 1940, para a restaurada em 1957 é enorme. Essas próximas imagens ilustram claramente a transfiguração de características.

Figura 4 Demolição da torre e reforço da estrutura

Figura 4 Demolição da torre e reforço da estrutura

Figura 5 Restauração da fachada

Figura 5 Restauração da fachada

Figura 6 Finalização da nova fachada - cal branca e retirada dos adorno

Figura 6 Finalização da nova fachada – cal branca e retirada dos adorno

A Igreja de Nossa Senhora da Escada, de Guararema foi um dos edifícios que demonstra a política de restauração adotada pelo SPHAN nas suas primeiras décadas de funcionamento. O monumento reflete a recuperação do estilo colonial paulista, em detrimentos dos adornos neocoloniais que sofreu no século XIX. O grande ponto a ser debatido é que houve a reconstrução de uma nova igreja, pois aquela tombada foi privada totalmente de sua historicidade. Essa nova igreja, que podemos visualizar a partir de 1957, pode ter sido o projeto original, uma hipótese, mas não foi a igreja tombada pelo SPHAN na década de 1940. Foi criado pelo Serviço um novo edifício, com novos materiais e novo estilo, que não condizia com o apresentado naquela época.

Podem-se considerar as aprovações dos restauros como idealizações de uma época em que havia muita preocupação com a preservação do patrimônio cultural brasileiro, no sentido de elaborar uma memória própria, sem influências estrangeiras. Porém, no que dizia respeito aos patrimônios materiais, pouco se argumentava sobre as restaurações, e o que ocorreu nos primeiros anos do SPHAN foram intervenções e alterações profundas nas obras consideradas representantes da arquitetura colonial. A política de restauro adotada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN), e suas consequências para o ambiente patrimonial brasileiro produz ecos e discussões até os dias de hoje, apesar de parecerem tão distantes no tempo.

Ana Carolina Machado

Dicas Bibliográficas

GONÇALVES, Cristiane Souza. Restauração arquitetônica. A experiência do SPHAN em São Paulo, 1937-1975. São Paulo: Annablume, 2007.

RODRIGUES, Marly. “De quem é o patrimônio: um olhar sobre a prática preservacionista de São Paulo”. In: Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 24, p. 195-203, 1996.

RUBINO, Silvana. As fachadas da história: os antecedentes, a criação e os trabalhos do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1937-1968). Dissertação (Mestrado em Sociologia) – IFCH/UNICAMP, 1991.

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