A Grande Depressão de 1929

            “O mundo da segunda metade do século XIX é incompreensível se não entendermos o impacto do colapso econômico.”

(HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 91.)

A crise que assolou não só os Estados Unidos, como o mundo todo no final do ano de 1929, não pode ser entendida sem que se destaque o papel desse país na Primeira Guerra Mundial e suas consequências.

Durante quase todo o conflito, os EUA, que já eram um país de grande industrialização, não entraram na guerra, mas mantiveram-se como grande exportador agrícola e industrial, comerciando com os dois lados beligerantes. Além disso, os norte-americanos também passaram a se dedicar a uma nova frente de negócios: a abertura de créditos aos aliados, seguida da concessão de empréstimos à Inglaterra e à França.

Na América Latina, os EUA também mantinham uma posição privilegiada, dominado os mercados dos países que ainda eram basicamente agrícolas e exportadores de matérias-primas. Dessa forma, os EUA se tornavam a grande potência mundial e, internamente, sua situação também era favorável: nos anos em que a Europa era assolada pela guerra e no período que se seguiu a esse conflito, houve um aumento expressivo do mercado, com a elevação do nível de emprego e do consequente aumento do poder de compra da população.

Já com o fim da Primeira Guerra Mundial, os EUA, que haviam entrado no conflito tardiamente ao lado de Inglaterra e França, não mudou muito sua posição como potência. Diferentemente dos países vencedores que tiveram que lidar com os horrores da guerra e com a perda de milhares de vidas, os norte-americanos encontravam-se numa situação privilegiada, pois tinham seu país intacto, estavam do lado dos vencedores e encontraram uma nova maneira de aumentar ainda mais sua influência e seu poder econômico ao investir no país derrotado, a Alemanha.

Ao centro, o prédio da Chrysler, companhia de automóveis, grande símbolo da prosperidade norte-americana da década de 1920

Ao centro, o prédio da Chrysler, companhia de automóveis, grande símbolo da prosperidade norte-americana da década de 1920

Mas, logo após o fim do conflito mundial, os EUA sofreram algumas perdas econômicas. Entre 1919 e 1921, o país passou por uma Pequena Crise, por conta da desaceleração da produção industrial no pós-guerra. Foi nesse período, que os republicanos assumiram a presidência e lá permaneceram durante três mandatos seguidos, com Warren Harding (1921-1923), Calvin Coolidge (1923-1929) e Herbert Hoover (1929-1933).

Com o pagamento das dívidas e empréstimos europeus, especialmente franceses e ingleses, a produção industrial norte-americana voltou a crescer vertiginosamente, especialmente no setor automobilístico. Com o aumento da geração de empregos e consequente aumento no poder de consumo, houve uma popularização de bens de consumo, como eletrodomésticos e automóveis. Viveu-se, nesse período, aquilo que ficou conhecido como o American way of life (Estilo de vida americano). Assim, na Europa e na América Latina, o que se via dos EUA era uma população com acesso às mais recentes tecnologias e luxos e um país em grande crescimento.

Mas desde a segunda metade da década de 1920, a economia norte-americana começava a apresentar sinais de superprodução. Aos olhos dos políticos republicanos, liberais por princípio, tal situação seria controlada pelo mercado, sem necessidade de intervenção do governo.

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Mesmo com os sinais de superprodução, as indústrias não diminuíram o ritmo e o poder de compra da população mais pobre foi diminuindo. O que aconteceu na década de 1920 foi a que a renda se concentrou nas mãos de uma pequena parcela da população. Cerca de 5% das pessoas detinha um terço da renda gerada no país. Ainda assim, o crédito era facilitado para toda a população, o que fazia com que as pessoas gastassem um dinheiro que, efetivamente, elas não tinham.  Quando elas perceberam que estavam endividadas e não tinham como pagar, houve uma retração no consumo, que não se seguiu a uma redução da produção industrial nem agrícola.

O primeiro setor a dar sinais de preocupação foi a agricultura, onde a automação industrial causava desemprego e os créditos concedidos pelos bancos deixaram os produtores cada vez mais envidados. Logo as pessoas que trabalhavam nas zonas rurais ficaram desempregadas e migraram para as cidades. Nesse cenário, a superprodução agrícola aliada à queda no consumo passou a afetar a economia norte-americana que já demonstrava sinais preocupantes.

Isso porque, a especulação financeira da década de 1920 começou a trazer inúmeros problemas nos anos finais. Desde 1925, as ações das empresas norte-americanas vinham se valorizando de forma superficial e, em 1929, seus preços aumentaram enormemente, o que fez com que os empresários e corretores da Bolsa de Valores de Nova York se apressassem a vender ainda mais ações, para levantar recursos para manter a produção de suas empresas. Tal situação atingiu seu ápice em 24 de outubro de 1929, quando milhões de dólares em títulos de empresas foram postos à venda. No entanto, essa atitude foi desastrosa.

Quando os investidores não conseguiram vender suas ações, o pânico passou a tomar conta do principal centro financeiro da país, a Wall Street e no dia 24 de outubro de 1929, a Bolsa de Valores de Nova York quebrou. Foi o início da crise que se instalou não só nos Estados Unidos, como no mundo todo. O número de desempregados cresceu em praticamente todos os países de economia globalizada. Em 1932, havia mais de 32 milhões de desempregados no mundo. Nos Estados Unidos, 1 milhão de pessoas perdeu seu emprego entre abril de 1930 e outubro do mesmo ano. Em 1933, já eram 7 milhões.

O desemprego afetou fortemente a população norte-americana, que se viu, do dia para a noite, sem emprego e sem dinheiro para comprar produtos de subsistência básicos, como comida. Assim, grande parte dos norte-americanos passou a depender da ajuda assistencialista do governo e de órgãos de caridade. Cenas de filas nas ruas por um pedaço de pão não eram incomuns nesse período.

Por conta do papel estratégico dos Estados Unidos, a crise se espalhou rapidamente no mundo. Com a queda na produção industrial, as exportações norte-americanas diminuíram ao mesmo tempo em que as importações quase cessaram, o que causou enormes efeitos em mercados exportadores de matérias-primas como os países sul-americanos, inclusive o Brasil.

Fila para receber comida. Ao fundo, propaganda do governo exaltando o estilo de vida americano

Fila para receber comida. Ao fundo, propaganda do governo exaltando o estilo de vida americano

Em novembro de 1932, nas eleições presidenciais, o democrata Franklin Delano Roosevelt foi eleito com o objetivo de contornar a crise em que o país estava mergulhado. Para tentar salvar a população da fome e a produção industrial para fazer o país crescer novamente, o presidente eleito adotou o New Deal, um plano econômico que baseava-se em reformas sociais e na intervenção do Estado na economia. Tal política ia contra os princípios mais caros aos economistas e políticos norte-americanos que acreditavam na livre-concorrência e no liberalismo como forma de crescer.

32º presidente dos Estados Unidos, o democrata Franklin Roosevelt

32º presidente dos Estados Unidos, o democrata Franklin Roosevelt

Os principais efeitos da Grande Depressão podem ser vistos especialmente na Europa. Lá, os países em crise deixaram os princípios do liberalismo de lado e passaram a defender e a apostar em Estados fortes, com concentração de poderes e até mesmo autoritários. Assim, é nesse contexto de crise que é possível entender a ascensão de figuras como Hitler na Alemanha (um dos países mais afetados pela Grande Depressão) e Mussolini na Itália.

Os europeus passaram a desconfiar das duas soluções que estavam postas em sua realidade: a do Estado democrático liberal, que não era capaz de lidar com a situação e  do Estado comunista tal como implementado na União Soviética, que propunha uma nova forma de organização econômica, mas trazia medo às mentes europeias por conta da mobilização operária trazida pelos comunistas e socialistas.

Outra consequência da crise que assolou o mundo em 1929 e perdurou por alguns anos, foi a necessidade de se dar uma resposta aos problemas sociais em lugar da constante preocupação com economia nas políticas de Estado. Em um mundo em que se acreditava que não cabia ao Estado cuidar da situação social de suas populações, ficou patente a necessidade e a obrigação dos governos de não deixar as pessoas morrerem de fome. Como escreveu o historiador Eric Hobsbawm, “a Grande Depressão obrigou os governos ocidentais a dar às considerações sociais prioridade sobre as econômicas em suas políticas de Estado. Os perigos implícitos em não fazer isso – radicalização da esquerda e, como a Alemanha e outros países agora o provavam, da direita – eram demasiado ameaçadores.” (HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve século XX (1914-1991), p 99.)

Assim, enquanto que nos Estados Unidos, o New Deal tratou de dar uma resposta às necessidades sociais, procurando aumentar a oferta de empregos e procurando proteger os trabalhadores da indústria, na Europa, cresceu o número de países que aderiam ao “Estado de bem-estar social” (welfare state), que trazia para sua população as condições para a sobrevivência e manutenção da segurança, como um sistema previdenciário e uma oferta de serviços públicos.

A crise de 1929 atingiu em cheio tanto os Estados Unidos quanto outras partes do mundo, deixando uma cicatriz na memória das populações e dos governos. Foi um fato marcante na história mundial e teve grandes consequências para os acontecimentos futuros, como a Segunda Guerra Mundial e todos os horrores que ela trouxe.

                A crise de 1929 e seus reflexos no Brasil

Com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, o principal produto de exportação brasileiro, o café, foi duramente afetado, o que, consequentemente teve fortes impactos na economia, que era inteiramente baseada na produção e venda desse grão. Por conta dos fatores externos, o preço de venda despencou: a saca que valia 200 mil réis em agosto de 1929, passou a 21 mil em janeiro de 1930.

Como o principal meio de riqueza, no Brasil, provinha do café, aproximadamente 500 fábricas foram fechadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, e milhares de brasileiros ficaram desempregados. Tal situação gerou um clima de insatisfação e a elite política do país conseguiu articular um golpe que depôs o presidente Washington Luís, na chamada Revolução de 1930.

Getúlio Vargas, presidente que assumiu após a Revolução, foi o encarregado de lidar com o contexto mundial de crise. Para sanar o problema da superprodução do café, ele tomou uma medida bastante inusitada: comprou as sacas estocadas e sem mercado e as queimou como forma de proteger os produtores, deixando claro o poder a influência dos cafeicultores no governo federal.

Ligia Lopes Fornazieri

Para saber mais: HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: O breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

NO VESTIBULAR…

(Vestibular Unicamp 2015) Observe o gráfico e responda às questões.

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  1. a) Qual a relação existente entre as duas linhas apresentadas no gráfico?
  2. b) Apresente dois motivos para a crise financeira de 1929.
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