Relações entre História e Cinema: Caso Argentino

Há tempos os temas históricos caíram nas graças da chamada sétima arte; não é tarefa difícil encontrar filmes sobre os mais variados temas. Somente no último Oscar (2015), dos oito filmes indicados à categoria de melhor filme, quatro debruçam-se sobre temas e personagens históricos são eles, Sniper Americano (sobre o atirador estadunidense de elite Chris Kyle); O Jogo da Imitação (sobre o matemático britânico Alan Turing); Selma (sobre a aprovação da Lei de voto nos EUA em 1965) e A Teoria de Tudo (sobre a vida do físico Stephen Hawking). Da mesma maneira que o cinema encontrou na História um espaço fértil para a construção de imagens sobre determinado período, a História também passou a utilizar o cinema como um documento histórico que nos concede muitas informações sobre o período e a sociedade que o produziu.

Este post é dedicado a dois filmes argentinos que têm como temática central a última ditadura civil-militar do país. Embora cada um aborde o tema de maneiras bem diferentes, ambos revelam muitos pontos interessantes sobre o momento de suas produções. A primeira obra é a vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro do ano de 1985, A História Oficial (Luis Puenzo) e a segunda é Infância Clandestina (Benjamín Ávila), indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano de 2013.

A História Oficial conta a história de Alicia – professora de classe média da Argentina – que depois da volta de sua amiga Ana do exílio começa a descobrir os horrores cometidos pelo Estado entre os anos de 1976-1983. Alicia descobre que sua filha Gaby, adotada durante os anos da ditadura, era filha de presos políticos e fora sequestrada. Alicia começa uma investigação particular para descobrir a verdade sobre a origem de sua filha, durante esse processo descobre a atuação da organização de direitos humanos Avós da Praça de Maio além das relações obscuras de seu esposo com os agentes militares e começa a descobrir a verdadeira história de sua filha e consequentemente a sua.

Alicia com sua filha Gaby A História Oficial (1985) - Direção: Luis Puenzo

Alicia com sua filha Gaby.  A História Oficial (1985) –  Luis Puenzo

A História Oficial foi um dos primeiros filmes produzidos após o fim do regime militar e é considerado o primeiro grande sucesso cinematográfico argentino sobre a temática ditatorial. No ano de sua produção – 1984 – as organizações de direitos humanos como Mães e Avós da Praça de Maio ganhavam cada vez mais espaço e protagonismo e a sociedade começava a tomar conhecimento da dimensão dos crimes cometidos pelo Estado e a criação da CONADEP (Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas) desempenhou um papel importantíssimo na coleta de informações sobre estes crimes. Os testemunhos colhidos pela comissão foram agrupados no informe Nunca Más que é considerado a primeira documentação oficial sobre os crimes de lesa humanidade cometidos.

A visão produzida por este informe é de uma sociedade que esteve a mercê das atrocidades cometidas pelos militares, assim como os militantes (mortos e desaparecidos) são caracterizados ora como heróis, ora como jovens que desconheciam as consequências de suas escolhas políticas. Sendo assim, pode-se afirmar que A História Oficial reforça o discurso que era vigente na sociedade argentina na década de 1980 e pode-se observar uma vitimização da classe média que não viu ou não quis ver o que estava acontecendo no país durante a ditadura civil-militar. A protagonista (Alicia), que foi construída com ares de ingênua e boa pessoa, funciona como uma metáfora da sociedade argentina, ou como aquela sociedade gostava de enxergar-se. Alicia afirma não saber a origem e a ilegalidade da adoção de sua filha, dos crimes de lesa-humanidade e dos desaparecidos, assim como afirma desconhecer a procedência da fortuna de seu esposo e ela só descobre as verdades que estavam escondidas após a queda da ditadura.

Infância Clandestina foi dirigido por Benjamín Ávila, filho de mãe desaparecida e irmão de uma das crianças sequestradas durante o regime civil- militar. Conta a história de Juan, um garoto de 12 anos cujos pais são militantes montoneros que regressam à Argentina em 1979 – após anos de exílio – para lutarem contra a ditadura. A família começa a viver clandestinamente e Juan passa a se chamar Ernesto. O filme narra o cotidiano desta família de militantes, transitando de maneira belíssima entre os conflitos, medos felicidades e dores. É uma obra repleta de singularidades que estão desde o olhar de quem narra a história, um garoto de apenas 12 anos, no uso de animações para representar as cenas de violência, na incorporação do cotidiano para narrar o período de cerceamento de liberdades.  Esses são alguns dos pontos que tornam Infância Clandestina um marco na produção cinematográfica argentina sobre a temática ditatorial, o filme representa de maneira inovadora a ditadura e seus horrores, é uma produção que humaniza a militância e não a romantiza como acontece em várias outras produções posteriores. O filme mostra que os militantes não eram suicidas, eles viviam para realizar um ideal e não para morrer por ele, mas que durante o caminho se perde o que se tem que perder.

Trailer de Infância Clandestina em HQ

Trailer de Infância Clandestina em HQ

Infância Clandestina faz parte de uma leva de filmes dirigidos e produzidos pela geração de filhos de desaparecidos e a produção cinematográfica dessa geração é considerada uma das mais importantes do aclamado Nuevo Cine Argentino. Muitos de seus filmes relatam experiências, dores e traumas gerados pelo regime ditatorial e apresentam uma perspectiva nova na representação do papel da sociedade argentina diante da ditadura e, principalmente, contribuíram para criar uma nova imagem sobre os militantes dos anos setenta na argentina. O desaparecido, por exemplo, ganha uma nova identidade, deixa de ser somente o militante que lutava contra o regime civil-militar e torna-se um personagem consciente de seus atos que era, antes de tudo, o pai ou a mãe de alguém, uma pessoa que não era somente uma personalidade pública, mas também uma figura familiar.

As novas perspectivas abordadas por essa geração seja no cinema, na academia ou na militância dentro de organismos de direitos humanos, são primordiais para a construção de uma memória coletiva mais complexa e completa, que pode ser observada e interpretada de diversos ângulos.   Essa produção cinematográfica realizada pelos filhos de desaparecidos políticos surge no momento de renovação da cinematografia argentina e, juntamente a essa mudança, insere-se uma nova abordagem sobre questões importantes do passado argentino. Muitos dos filmes desempenham até hoje um papel bastante singular para a construção de uma imagem sobre as marcas que o regime ditatorial deixou na sociedade desse país expondo os temas traumáticos a partir de uma perspectiva completamente nova.

Para a história o uso do cinema como fonte revela muito sobre o momento em que foi produzido e esses dois filmes expõem visões bastante particulares sobre isso. Em A História Oficial, por exemplo, há uma ressonância dos discursos produzidos logo nos primeiros anos da redemocratização da Argentina; retrata uma sociedade assustada diante do terror que acabara de conhecer e consequentemente ajuda a construir uma imagem de uma sociedade inocente diante dos crimes cometidos pelo Estado. Já em Infância Clandestina, é evidenciada a visão da geração dos filhos de desaparecidos políticos, retrata as dores geradas pelas escolhas políticas de seus pais e a representação dos militantes dos anos setenta é feita de maneira mais humana. Os relatos da geração de filhos de desaparecidos ganharam muito visibilidade na sociedade argentina desde os anos 2000 e a atuação dessa geração na cinematografia argentina é considerada primordial para a construção de novas memórias e debates sobre o passado recente argentino.

Bruna Borges

BIBLIOGRAFIA

NAPOLITANO, Marcos. Fontes Audiovisuais: A história depois do papel in: PINSKYCarla Bassanezi (org.). Fontes históricas. São Paulo: Contexto, 2005.

NÓVOA, Jorge; FRESSATO, Soleni Biscouto; FEIGELSON, Kristian (orgs.) Cinematógrafo: um olhar sobre a história. Salvador: Ed. UFBA; São Paulo: Ed.UNESP, 2009.

Confira os trailers dos filmes:

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2 respostas para Relações entre História e Cinema: Caso Argentino

  1. Olá pessoal! No começo deste ano, publicamos dois textos em nosso blog sobre a ditadura militar argentina retratada pelo cinema. Deixo-lhes os links:

    1) A ditadura militar no cinema argentino: http://cinema-argentino.blogspot.com.br/2015/01/a-ditadura-militar-no-cinema-argentino.html
    2) 10 filmes sobre a ditadura militar na Argentina: http://cinema-argentino.blogspot.com.br/2015/01/10-filmes-ditadura-militar-Argentina.html

    Saludos

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