Astecas

Huitzilopochtli

Figura 1: Huitzilopochtli

Quetzalcoatl

Figura 2: Quetzalcoatl

A alcunha de povos “pré-colombianos” foi dada aos nativos que viviam na América antes da chegada de Cristóvão Colombo. Ao aportarem em solo desconhecido, os espanhois se depararam com civilizações estruturadas política, social, econômica e religiosamente, causando-lhes tanto surpresa quanto desafio. Hernán Cortés (1485-1547)*, em suas Cartas de Relación** (Cartas de Relação – tradução livre), descreveu o paradoxo que sentiu ao ver Tenochtitlán pela primeira vez, a grande capital asteca, que abordaremos mais abaixo.

Ao falarmos desses indígenas pré-colombianos três civilizações nos veem à mente: maias, incas e astecas. Os primeiros já estavam extintos no século XVI quando os espanhois chegaram na Península de Yucatán, onde viviam; os incas foram os habitantes da América do Sul, sobretudo na região do atual Peru; e os últimos citados são o assunto deste post.

Antes de escrever qualquer coisa achamos necessário o esclarecimento: muitas das fontes utilizadas pelos historiadores sobre os astecas vem da mão de europeus. Os motivos são muitos e óbvios. A política de “destruir para construir” é constante em quase todo processo de conquista. É preciso suprimir a cultura anterior para instituir a nova, isso no Império Romano na Antiguidade, nos Estados Absolutistas modernos e até mesmo no caso asteca. Quando os espanhois tomaram o território, com seu predomínio militar e com a enorme quantidade de doenças trazidas inconscientemente aos indígenas não imunizados a elas, boa parte dos documentos escritos pelos astecas (e outras civilizações, já que não eram os únicos habitantes) foram destruídos. Os vestígios que sobraram foram, posteriormente, organizados em códices e aqui entra outro obstáculo: a dificuldade da leitura. A língua falada pelos astecas era o nahuatl, de difícil compreensão pelos espanhois. Portanto, muitas das fontes que sobreviveram e são analisadas nos trabalhos historiográficos vem das descrições de cronistas espanhois dos séculos XVI e XVII, tanto religiosos quanto civis, que vieram à América para documentar o processo de colonização.

Organização política e social

Os astecas foram um povo altamente beligerante, com sua organização política centrada nas campanhas militares de conquista de territórios e na imposição do seu modo de vida e sistema econômico e religioso aos povos invadidos. Esta é uma característica interessante, pois Cortés e sua armada receberam ajuda estratégica de outras civilizações indígenas para a invasão de Tenochtitlán devido à rivalidade que travavam contra os astecas.

O que sabemos é que o sistema político era concentrado na figura do tlatoani, o soberano que possuía o poder religioso e militar. Apesar dessa figura ter o poder absoluto, havia outras designações hierárquicas. Na pirâmide social, os tlatocayotl eram senhores que também tinham controle político e econômico. Na divisão territorial da cidade, são eles que controlam os calpulli, que seria similar aos nossos bairros, que eram hereditários. Existiam também os pipiltin (nobres), os tlatlacotin (servos) e os macehualtin, que representavam a população em geral que não possuía problemas financeiros suficientes a ponto de se tornarem servos e também não eram de família nobre.

Os astecas conquistaram boa parte do México central, dominando outros povos e impondo seu sistema de governo e religioso. Na época de Montezuma I (1440-1469) e Montezuma II (1502-1519) já possuíam um império vasto e bem estabelecido. Isso tudo em um curto espaço de tempo, já que desde o surgimento de Tenochtitlán até a invasão espanhola, foram menos de 200 anos.

astecas3

Figura 3

Cosmogonia e o surgimento de Tenochtitlán

A civilização asteca possuía vários aspectos muito interessantes e que sobreviveram, de certa forma, mesmo com a conquista europeia, sendo um dos principais a religião. O politeísmo indígena não era apenas um sistema de crença, mas um modo de vida que influenciava toda a organização social, política e econômica daquele povo. E o surgimento de Tenochtitlán está intimamente ligado à tradição mitológica que foi muito difundida e objeto de resgate da memória do México, sobretudo no período da independência, no século XIX.

Na antiga cidade mitológica de Aztlán, o deus do sol e da guerra, Huitzilopochtli, convenceu o seu povo a iniciar uma peregrinação rumo à terra prometida. Nesse momento, os astecas eram perseguidos pelos chichimecas e demais sociedades, e estavam alojados em um local inóspito, formado por uma terra de lava e coberta por serpentes. Eles as comeram, inclusive os seus venenos. Assim, um espírito audacioso os invadiu, e, juntamente com a profecia proferida por Huitzilopochtli, resolveram desafiar o poder local ao capturarem a princesa de Culhuacán, do lado chichimeca. Não apenas a mataram, mas fizeram uma bandeira com sua pele para o deus protetor. O cacique chichimeca convocou seus aliados para se vingar de tal ato. A fuga foi a única alternativa asteca, que, além disso, era justificada pela profecia que lhes guiaria para a terra prometida. Esta estaria situada em um lago de difícil acesso, mas eles saberiam o local exato por meio de um sinal: uma águia pousada em um cactáceo que nascia de uma pedra dentro de um ambiente lacustre. Chegaram à ilha de Méztli, “o umbigo da lua”, onde encontraram o símbolo do poder e do deus Quetzalcoaltl, a águia. Ali, no lago Texcoco, se estabeleceram em 1325 e, em menos de 150 anos, Tenochtilán tornou-se a maior e mais dominante cidade Mesoamericana.

Figura 1 Maquete do Templo Mayor. Museo Nacional de Antropología, Cidade do México. Foto: Ana Carolina Machado, 2014.

Figura 4 Maquete do Templo Mayor. Museo Nacional de Antropología, Cidade do México. Foto: Ana Carolina Machado, 2014.

Na construção da cidade, eles faziam um alinhamento da energia cósmica encontrado também em outras cidades e que obedecia à rotação do sol. A geografia mexicana era pensada como um grande retângulo delimitado pelo mar ao leste (Oceano Atlântico) e a oeste (Oceano Pacífico). Nas culturas indígenas essa representação corresponderia ao nascer e ao morrer do sol. Norte e sul não eram coordenadas de direção, eles eram “direita” e “esquerda” do sol e isso é bastante simbólico, pois demonstra que não se guiavam à maneira europeia com a leitura das constelações. Os nativos produziam seus próprios meios de orientação, sendo o leste e oeste presentes em toda a estrutura urbana construída por eles, pois eram consideradas direções precisas e pensadas a partir do solstício e equinócio. A “esquerda do sol” seria a terra desconhecida a ser conquistada, mas não um ponto de referência fixo. Já a sua “direita” era a terra originária daqueles povos, sobretudo os astecas, pois acredita-se que tenham migrado do norte para o centro do território mexicano.

Figura 5 Cosmogonía. Fonte: FAVIER ORENDÁIN, C. Ruínas de utopía. México:  FCE, 2004. p. 48.

Figura 5 Cosmogonía. Fonte: FAVIER ORENDÁIN, C. Ruínas de utopía. México: FCE, 2004. p. 48.

O Templo Mayor era o centro agregador onde as quatro zonas da cidade se convergiam. Como se observa na figura 4, os templos estavam direcionados leste-oeste para que o sacrifício que ocorria no topo da pirâmide fosse alimentar o Sol e, assim, ele voltasse do Inframundo. As referências a esses mitos estão presentes nas crônicas espanholas produzidas no período, principalmente naquelas que tentaram traduzir e entender os códices indígenas. Diego Durán, Bernal Díaz del Castillo, Toríbio de Motolinía são exemplos de autores que retrataram a grandeza de Tenochtitlán e a estranheza de se encontrar uma cidade limpa, funcional e monumental.

A cidade pré-hispânica foi, de início, um centro ritual onde se reuniam todos os habitantes com uma razão única. O centro era amplo e os templos grandiosos, o que destacava esse aspecto mais importante daquela cultura e nos demonstra uma característica da religiosidade da época: ritos a céu aberto. Tenochtitlán foi capaz de reunir a importância simbólica, o Templo Mayor, e o poder de ser a mais influente cidade no âmbito político, bélico e econômico. Os astecas foram uma civilização que surpreenderam os espanhois em vários âmbitos, e quem estuda a colonização mexicana percebe que essa influência indígena tão presente no momento da conquista, não foi destruída totalmente, sobretudo a religiosa.

*Hernán Cortés: Hernán Cortés de Monroy y Pizarro, foi o conquistador espanhol responsável pela investida contra os astecas no México central, causando o desmantelamento daquela civilização e o início da colonização espanhola na América.

**Cartas de Relación: um documento escrito por Hernán Cortés, composto por cinco cartas destinadas ao rei Carlos V, numa tentativa de legitimar suas ações em terras mexicanas. Atualmente, essa documentação pode ser encontrada em um códice da Biblioteca Imperial de Viena, na Áustria.

Ana Carolina Machado

Dicas Bibliográficas:

CLENDINNEN, Inga. Aztecs – an interpretation. Cambridge: Cambridge University Press, 1997

NAVARRETE LINARES, Federico. Los Orígenes de los pueblos indígenas del valle del México: los altépetl y sus histórias. México: UNAM, Instituto de Investigaciones Históricas, 2011. (Série de Cultura Náhuatl. Monografías, 33) Disponível em:

http://www.historicas.unam.mx/publicaciones/publicadigital/libros/origenes/origenespueblos.html

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América – A questão do outro. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo : Martins Fontes, 2003.

FAVIER ORENDÁIN, Claudio. Ruínas de utopía: San Juan de Tlayacàpan. Espacio y tempo en el encuentro de dos culturas. México: FCE, 2004.

AUSTIN, Alfredo López. Hombre-Dios. Religión y política en el mundo náhuatl, México, UNAM, Instituto de Investigaciones Históricas, 2014. (Série de Cultura Náhuatl. Monografías, 15). Disponível em: http://www.historicas.unam.mx/publicaciones/publicadigital/libros/hombre/dios.html

No Vestibular…

(Vestibular Fuvest 2013) Quando Bernal Díaz avistou pela primeira vez a capital asteca, ficou sem palavras. Anos mais tarde, as palavras viriam: ele escreveu um alentado relato de suas experiências como membro da expedição espanhola liderada por Hernán Cortés rumo ao Império Asteca. Naquela tarde de novembro de 1519, porém, quando Díaz e seus companheiros de conquista emergiram do desfiladeiro e depararam-se pela primeira vez com o Vale do México lá embaixo, viram um cenário que, anos depois, assim descreveram: “vislumbramos tamanhas maravilhas que não sabíamos o que dizer, nem se o que se nos apresentava diante dos olhos era real”. Matthew Restall. Sete mitos da conquista espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 15-16. Adaptado.

O texto mostra um aspecto importante da conquista da América pelos espanhóis, a saber,

a) a superioridade cultural dos nativos americanos em relação aos europeus.

b) o caráter amistoso do primeiro encontro e da posterior convivência entre conquistadores e conquistados.

c) a surpresa dos conquistadores diante de manifestações culturais dos nativos americanos

d) o reconhecimento, pelos nativos, da importância dos contatos culturais e comerciais com os europeus.

e) a rápida desaparição das culturas nativas da América Espanhola.

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