Renascimento

O Renascimento inaugura aquilo que chamamos de Era Moderna ou Idade Moderna, período que compreende os séculos XV e XVIII, e que pode ser caracterizado como momento de efervescência cultural e de rupturas radicais na política, economia, ciência e nas artes. Tal período foi marcado pelas grandes navegações, pela centralização política dos monarcas europeus, pela ascensão da burguesia, por crítica à Igreja Católica e pelas novas produções de artistas e pensadores.

Mas é importante destacar que entre os períodos da Idade Média e Idade Moderna não existem apenas mudanças e rupturas. Na verdade, o período final da Baixa Idade Média já apresentava transformações que muitas vezes são subestimadas a fim de se destacar o período posterior. A ideia de o período medieval ser caracterizado como Idade das Trevas reforça uma visão de letargia e ignorância e faz com que as mudanças apresentadas no Renascimento sejam ainda mais ressaltadas.

Detalhe da Capela Sistina. Michelangelo. Vaticano. Itália

Detalhe da Capela Sistina. Michelangelo. Vaticano. Itália

Existem correntes historiográficas que procuram explicar essas mudanças e continuidades de duas formas: que as transformações renascentistas não foram acidentais e, portanto, frutos de práticas do período anterior; e outra que enalte as rupturas com relação à Idade Média.

O importante a se destacar, no entanto, é que a transição foi lenta e percebida de formas diferentes entre os diversos grupos sociais e culturais da Europa. Nesse período então, houve a formulação, por parte de alguns estudiosos e pensadores da época, de críticas e problematizações, especialmente na área da cultura, da arte e da política medievais, trazendo assim, a imagem de que se estava passando por uma revitalização dessas áreas em detrimento do que vinha se fazendo até então.

A revitalização comercial e a consequente efervescência da vida urbana, além da crescente importância dos estudos da Antiguidade Clássica nas universidades italianas, foram fatores que, tendo início na Baixa Idade Média, foram de suma importância para o despertar de um “renascimento” nas artes, política, cultura e ciências europeias.

Os Humanistas

Nas universidades medievais italianas, foi crescendo o papel de estudiosos chamados de humanistas, que se dedicavam ao estudo de textos de filósofos e pensadores clássicos. Nessa retomada da cultura romana e grega, dois aspectos foram essenciais para a formação das críticas e formulações dos humanistas: o estudo vernacular (o idioma próprio de um lugar) e a prática da retórica.

A ideia de que os textos clássicos poderiam e deveriam ser lidos no idioma local denotava a defesa de uma forma de pensar individualizada, além de colocar em destaque as expressões da particularidade de cada local, criando um estilo próprio.

Outra característica importante foi o esforço dos humanistas em analisar os textos da Antiguidade Clássica a fim de restitui-los a uma “pureza original” e destacando as traduções do período medieval como limitadas, pois subordinadas à interpretação cristã. Assim, humanistas como Petrarca e Leonardo Bruni se dedicavam ao estudo dos textos clássicos trazendo-os à realidade renascentista, ou seja, na língua vernacular e sem as limitações impostas pela Igreja Católica. Vale destacar nesse ponto, que apesar dessas críticas, o humanismo não era formado por um pensamento anticristão. O que acontecia era uma crítica às práticas limitadoras da Igreja Católica.

Os humanistas tinham uma predileção por autores romanos, como Cícero, mas foram os responsáveis por um “redescobrimento” de autores como Platão (filósofo grego). Seus objetivos, além do estudo das línguas, estavam relacionados às instituições políticas clássicas e seus saberes científicos. Assim, passaram a se interessar e a elaborar críticas à política e à falta de descobertas científicas do período medieval.

Com relação à importância da prática da retórica (que havia sido difundida pelos filósofos sofistas na Idade Antiga), ela se devia por seu caráter educativo persuasivo. Com essa ideia, os conhecimentos adquiridos passavam a ser passíveis de serem discutidos, debatidos e levados à público.

Petrarca (1304-1374), pensador florentino, é considerado um dos primeiros humanistas. Em sua obra, pode-se destacar sua defesa da educação e da transmissão dos saberes. Além disso, o pensador defendia a busca da glória como um dos elementos do ideal humanista.

Petrarca, considerado o primeiro humanista

Petrarca, considerado o primeiro humanista

O Renascimento na arte, cultura e ciência

Pode-se destacar como características principais do movimento renascentista:

O antropocentrismo, ou seja, o homem como centro, como responsável pelo seu destino e pelas suas conquistas, em oposição ao teocentrismo, a crença de que Deus estava no centro da vida (visão medieval difundida pela Igreja). Dessa forma, glorificam-se os feitos humanos, fator de grande importância quando se pensa que, nesse período, a burguesia ascendia e buscava sua emancipação política e social.

Como decorrência desse protagonismo do homem, o racionalismo e o individualismo apareciam como características essenciais para os humanistas e para os ideais renascentistas como consequência.  Assim, os pensadores desse período colocaram o uso da razão como meio de se chegar ao conhecimento como aspecto primordial. Foi então baseado numa lógica objetiva e experimental e na ideia da necessidade da lógica, que os humanistas estimularam o nascimento da ciência moderna.

No que concerne ao individualismo renascentista, tal característica tem a ver com um esforço de autoconhecimento, com a ideia de que cabe às pessoas individualmente o sucesso e não a fatores externos. Pode-se entender esse individualismo como uma forma revista da tradição clássica do “Conhece-te a ti mesmo”.

O retorno aos valores e pensamentos da Antiguidade Clássica também é uma característica essencial para se entender o Renascimento. Tal resgate, no entanto, não significava uma intenção de cópia. Mas sim, uma necessidade de embasamento e de estímulos para novas criações e para transformações em áreas tão díspares quanto ciência, arte e política.

Os estudos humanistas se espalharam pela Europa ocidental favorecidos pelo aperfeiçoamento da tipografia. Feito atribuído ao alemão Johannes Gutenberg (1398-1468), que publicou, em 1456, o primeiro livro impresso: a Bíblia. Foi a partir de suas invenções de tipos compostos para impressão que a informação e o saber passaram a circular mais rapidamente e com menores custos. Se antes o saber ficava restrito à Igreja e a alguns membros da nobreza, ele passou a ser mais facilmente difundido entre a burguesia, que crescia e se expandia.

Esquema da prensa inventada pelo alemão Gutenberg

Esquema da prensa inventada pelo alemão Gutenberg

Foi a junção dessas novas formas de pensar, aliada a um dinamismo econômico e social que levaram o homem renascentista a descobrir novos lugares do mundo, através das grandes navegações. Ele já não mais se aventura em viagens para realizar cruzadas religiosas, mas sim para explorar e colonizar. E assim o fez baseado em experimentos, em teorias e com a ajuda de instrumentos, como bússolas, livros e com conhecimentos objetivos de astronomia.

Outra consequência dessa mudança de mentalidade entre os homens renascentistas foi a profusão de novos estudos na área da ciência. Para isso, foram essenciais as redescoberta de pensadores da Antiguidade, como Platão, Pitágoras e Arquimedes e seus estudos na área da matemática.

Destacam-se, na área da Astronomia, Nicolau Copérnico (1473-1543), que afirmou que o Sol é o centro do Universo (teoria heliocêntrica) e parte do Sistema Solar, ao contrário do que se afirmava até então, que a Terra era o centro do Universo (teoria geocêntrica), como havia sido estabelecido por Ptolomeu. Copérnico sabia que seu estudo era controverso, uma vez que a Igreja difundia amplamente a conclusão de Ptolomeu, por estar de acordo com passagens bíblicas. Refutar a ideia geocêntrica seria então como refutar a Bíblia e a autoridade papal. Assim, a divulgação de sua teoria se deu apenas em 1543, pouco antes de sua morte.

Modelo de universo proposto por Copérnico no século XVI

Modelo de universo proposto por Copérnico no século XVI

Nessa mesma direção, estavam Kepler (1571-1630), matemático alemão que estabeleceu os período de rotação dos planetas, e Galileu Galilei (1564-1642), que confirmou a teoria de Copérnico. Este último ainda afirmou que a Terra faria dois movimentos, um de 24 horas em torno de si mesma, e outro de 365 dias em torno do Sol. Galileu ficou muito conhecido por seu estudo e, especialmente, por ter sido alvo da Inquisição. Tal perseguição se deu porque, além de Galileu se apoiar num autor proibido pela Igreja, Copérnico, ele teve que negar suas conclusões frente ao Tribunal do Santo Ofício e ainda assim, permaneceu em prisão domiciliar, de 1633 a 1642, quando morreu.

Os estudos de Galileu foram muito importantes na área da Astronomia e também para os novos estudos que vinham sendo realizados pelos humanistas. Isso porque o pensador italiano também destacava que a autoridade do conhecimento residia na força da pesquisa e da demonstração e não na autoridade de quem diz, demonstrando assim, os ideais mais importantes do homem renascentista.

O pensador Galileu Galilei

O pensador Galileu Galilei

Na área da Medicina também houve muitos avanços. Através da observação dos doentes e de experimentos, descobriu-se, por exemplo, como religar artérias rompidas, contendo hemorragias. O espanhol Miguel Severt foi o responsável por pesquisas sobre a circulação periférica do sangue.

Leonardo da Vinci (1452-1519), conhecido como um dos maiores artistas do período, foi responsável por estudos da anatomia humana que revolucionaram a Medicina do período e estimularam novos estudos na área.

Representação gráfica do Homem Vitruviano feita por Leonardo da Vinci, juntamente com seus estudos da anatomia humana

Representação gráfica do Homem Vitruviano feita por Leonardo da Vinci, juntamente com seus estudos da anatomia humana

O Renascimento na Itália

As cidades italianas (é importante lembrar que a Itália enquanto unidade política não existia) foram os principais palcos do Renascimento. Isso porque foi a riqueza do comércio dessa região que financiou os estudos e pesquisas de artistas, cientistas, arquitetos que passaram a ser contratados para dar forma às novas realidades sociais.

Inspirados na tradição do Império Romano, a península itálica era divida em cidades-estados republicanas, onde a concorrência e a mobilidade social de seus habitantes eram estimuladas e nas quais o monopólio do poder estava nas mãos de famílias, constituídas de comerciantes que se emanciparam economicamente e chegaram ao poder através de golpes de Estado. Para estabelecerem seu poder, tais famílias (como os Médicis em Florença e os Sforza em Milão) contavam com exércitos pagos (mercenários) e usavam parte de sua fortuna para apoiar diretamente as artes, atuando como mecenas, ou seja, como patrocinadores diretos de artistas, que passavam a atuar ou no sistema sob encomenda ou como protegidos desses comerciantes e príncipes.

Essas famílias acabaram sendo responsáveis por ampliarem os estreitos limites e as modestas funções das cidades medievais. Exemplo disso foram as realizações de Cosme de Médici em Florença. O líder da família Médicis fundou a Academia Platônica em 1429, construiu uma biblioteca em outra cidade, Veneza, e foi um grande comprador de obras de arte, tendo em seu palácio obras de pintores como Fra Angelico e Paolo Uccello. Dessa forma, vários pesquisadores acabaram tendo uma proteção para realizarem seus estudos e para divulga-los sob a tutela da família Médici.

É importante destacar que as cidades-estados da península itálica tinham como principal característica a força de seu comércio, assim, as famílias que as comandavam tinham nesse negócio sua principal fonte de riqueza e de poder, o que fazia com que a disputa pelos monopólios de determinadas mercadorias jogassem as cidades umas contra as outras, levando-as a uma grande concorrência.

Além disso, foi por conta dessa importância das trocas comerciais que muitos ensinamentos da Antiguidade Clássica foram redescobertos pelos italianos. Com a queda de Constantinopla, em 1453, e com isso, a tomada pelos turcos da capital do Império Bizantino e antiga capital do Império Romano do Oriente, fez com que o comércio de especiarias e produtos de luxo ficasse centralizado nas cidades-estado italianas. A troca de mercadorias e a mobilidade de pessoas trouxe consigo uma troca de conhecimentos, especialmente daqueles textos clássicos que estavam nas mãos dos muçulmanos da antiga capital do Império Romano do Oriente.

Mas não foram apenas as cidades italianas que abrigaram as novas ideias e pensamentos renascentistas e humanistas. A região dos Países Baixos e Flandres teve um desenvolvimento econômico semelhante àquele da região norte da península itálica. Assim, por conta do movimento comercial e da urbanização experimentados nessas cidades, houve um aumento na produção artística e intelectual da região.

Assim que ricos comerciantes patrocinaram  artistas que retratavam a pujança e, ao mesmo tempo, a pobreza de parte da população. Na arte, destacam-se nomes como Peter Bruegel (1525-1569), artista que viveu na Antuérpia, Hieronymus Bosch (1450-1516), que vivia na região dos Países Baixos e El Greco (1541-1614), pintor espanhol, cujas obras são identificadas com a Contra-Reforma Católica.

Retrato de Giorgio Giulo Clovio,El Greco. (c. 1570, Reggia di Capodimonte, Nápole). Clovio foi amigo e mecenas do artista espanhol

Retrato de Giorgio Giulo Clovio,El Greco. (c. 1570, Reggia di Capodimonte, Nápole). Clovio foi amigo e mecenas do artista espanhol

Na literatura, destacam-se escritores como Erasmo de Roterdã (1466-1536), o espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), os ingleses Thomas More (1478-1535) e William Shakespeare (1564-1616), o francês François Rabelais (1494-1553) e o português Luís de Camões (1524-1580).

Ligia Lopes Fornazieri

Indicações bibliográficas

CAVALCANTI, Berenice.  Modernas Tradições: percursos da história ocidental – séculos XV-XVII. Rio de Janeiro: Faperj/Access, 2002.

NO VESTIBULAR…

(Unicamp 2010) A partir do século IX, aumentou a circulação da ciência e da filosofia vindas de Bagdá, o centro da cultura islâmica, em direção ao reino muçulmano instalado no Sul da Espanha. No século XII, apesar das divisões políticas e das guerras entre cristãos e mouros que marcavam a península ibérica, essa corrente de conhecimento virou um rio caudaloso, criando uma base que, mais tarde, constituiria as fundações do Renascimento no mundo cristão. Foi dessa maneira que o Ocidente adquiriu o conhecimento dos antigos. No quadro pintado pelo italiano Rafael, A escola de Atenas (1509), o pintor daria a Averróis, sábio muçulmano da Andaluzia, um lugar de honra, logo atrás do grego Aristóteles, cuja obra Averróis havia comentado e divulgado.

(Adaptado de David Levering Lewis, God’s Crucible: Islam and the Making of Europe, 570-1215. New York: W. W. Norton, 2008, p. 368-69, 376-77.)

a) Identifique no texto dois aspectos da relação entre cristãos e muçulmanos na Europa medieval.

b) Relacione as características do Renascimento cultural europeu à redescoberta dos valores da Antiguidade clássica.

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3 respostas para Renascimento

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