Mulheres na História – a figura de Boudica

“Mulheres bem comportadas raramente fazem história”

Laurel Thatcher Ulrich (1976)

Vitral do prédio da prefeitura de Cardiff

Vitral do prédio da prefeitura de Cardiff

Ao estudar história sempre nos deparamos com grandes figuras que, com seus atos, mudaram ou contribuíram para modificar eventos importantes.  O curioso é que as principais figuras que conhecemos são homens, isso pode nos dar a errônea impressão de que as mulheres estiveram alheias aos grandes eventos, mas é importante salientar que as mulheres sempre participaram dos principais processos históricos. O ponto é que, se observarmos historicamente, a produção acadêmica sempre preteriu as mulheres aos homens e esta questão ainda não passou por uma mudança contundente.

São muitas as figuras femininas que modificaram o curso da história através da luta por seus direitos. Ao longo dos anos as mulheres sempre tiveram que lutar por liberdade e por igualdade civil e as consequentes reivindicações e conquistas sempre tiveram mulheres como líderes. Algumas figuras históricas foram utilizadas para simbolizar essas lutas empreendidas pelas mulheres, uma dessas figuras é a de Boudica, uma guerreira celta que enfrentou o exército romano no século I d.C.. Sua figura foi amplamente utilizada pelas sufragistas britânicas no início do século XX e a estátua de Boudica, localizada no coração de Londres, foi utilizada como espaço de concentração das sufragistas e até hoje configura-se como local de reunião usado por vários grupos feministas.

Estátua em homenagem à Boudica, feita por Thomas Thornycroft (1902), está localizada próxima à ponte de Westminster nas margens do rio Tâmisa, em frente ao Parlamento Britânico.

Estátua em homenagem à Boudica, feita por Thomas Thornycroft (1902), está localizada próxima à ponte de Westminster nas margens do rio Tâmisa, em frente ao Parlamento Britânico.

O Império Romano foi um dos principais da Antiguidade e seus domínios territoriais foram bastante abrangentes. Este império dominou o que hoje conhecemos como Grã- Bretanha e desta região que surgiu a figura que vamos conhecer. Boudica era a rainha dos Icenis, uma tribo bretã. Quando os romanos invadiram e dominaram a região de Nortfolk, Prasutagus – esposo de Boudica – era o rei daquela tribo e com certa habilidade política conseguiu que os romanos o mantivessem como rei. Porém, quando Prasutagus morreu, os romanos decidiram que eles próprios passariam a dominar os Icenis. Para alcançarem esse objetivo confiscaram as terras dos Icenis, queimaram suas casas, açoitaram a rainha Boudica e violentaram suas filhas. Estas ações geraram revolta e insatisfação da tribo Iceni e de outras tribos e, sob a liderança de Boudica, revoltaram-se – dezessete anos depois – contra o domínio do Império Romano.

A Revolta de Boudica (60-62 d.C.), como ficou conhecida, tornou-se uma ameaça perigosa à Roma. O exército liderado pela rainha celta incendiou e destruiu as principais cidades da região que estavam sob domínio romano como, por exemplo, a atual cidade de Londres e de St. Albans, além de destruir Colchester, que era uma das cidades mais importantes para os romanos, pois abrigava o templo de Cláudio – que era uma construção emblemática do poder e sucesso do império na região. Estas vitórias de Boudica fizeram com que o imperador do Império Romano, Nero, encarregasse a um dos seus principais comandantes, Caio, a missão de sufocar a rebelião.

Depois de várias batalhas sangrentas, o exército romano saiu vitorioso e estas lutas transformaram-se em um dos maiores massacres da história britânica. Na batalha final em Watling Street deixou mais de 80 mil bretões mortos, praticamente um décimo de todos os habitantes que povoavam a região da atual Grã-Bretanha. Segundo o historiador romano Tácito, aproximadamente 70 mil soldados romanos perderam suas vidas nestas batalhas, evidenciando a brutalidade do combate. Pouco se sabe sobre o final de Boudica, mas os principais indícios apontam para o suicídio por envenenamento.

            A figura de Boudica ficou conhecida através dos relatos de dois importantes historiadores romanos, Tácito e Dião Cassio e ambos a caracterizam como uma guerreira excepcional. Dião Cassio a descreveu como sendo de estatura muito alta, de aparência brutal, extremamente feroz em seu olhar, com voz áspera e com um longo cabelo ruivo que chegava até a altura dos quadris. Séculos depois sua figura passou a ser constantemente recuperada para ser associada a importantes figuras políticas, como a Rainha Elizabeth I, a rainha Vitória e até à Margareth Thatcher.

Este pequeno texto tem como objetivo, divulgar essa figura feminina que foi bastante importante para a história, principalmente na região da Grã-Bretanha, mas também visa ampliar uma discussão importante na nossa sociedade: o porquê de figuras femininas ainda encontrarem-se em local secundário na construção da história e o porquê de várias instituições políticas, sociais e culturais ainda possuírem poucas lideranças femininas. São algumas questões que devem ser discutidas e salientar figuras femininas que foram importantes na história pode ser um bom começo para elevarmos essa tão urgente questão.

Bruna Borges

BIBLIOGRAFIA

BELO, Thais. Boudica e as facetas femininas ao longo do tempo: Nacionalismos, feminismos, memória e poder. Campinas – Unicamp. 2014.

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