A ditadura civil-militar na Argentina (1976-1983)

A ditadura civil-militar que a Argentina vivenciou durante os anos de 1976 e 1983 gerou traumas na sociedade que ainda são visíveis e seus desdobramentos são constantemente revisitados. As mortes, os desaparecimentos, sequestros, as adoções ilegais são algumas das mais perversas heranças deixadas por aquele período. Desde os anos de 1960 os países do Cone Sul enfrentavam um avanço da militarização em seus governos, países vizinhos à Argentina, como o Brasil, já viviam em ditaduras civil-militares que tinham como principal objetivo “defender” a soberania do Estado frente à ameaça comunista que, segundo os golpistas, rondava estes países. Esta lógica foi usada como justificativa para a maioria dos golpes que os países da América do Sul enfrentaram a partir da década de 1960. Inseridos na lógica da então Guerra Fria, as Forças Armadas desses países colocavam-se como a salvação frente à ameaça comunista. Além dessa justificativa, muitas vezes infundada, da ameaça de um golpe de esquerda, esses países enfrentavam alguns distúrbios políticos, sociais e econômicos. Sendo assim, a crise enfrentada juntamente com o discurso do “perigo vermelho” abriram caminhos para que as Forças Armadas tomassem, arbitrariamente, o poder.

Na madrugada de 24 de março de 1976, a Junta Militar tomou o poder na Argentina, formada por comandantes das três armadas – Jorge Rafael Videla (1925-2013), general do Exército; Orlando Agosti (1924-1997), almirante da Força Aérea e Eduardo Massera (1925-2010), brigadeiro da Marinha. Logo nas primeiras horas após o golpe, a Junta Militar tomou os prédios do governo e o Congresso Nacional. Pouco tempo depois os militares se apropriaram das estações de rádio e televisão de Buenos Aires e das principais cidades do interior. Em seguida, através dos principais meios de comunicação de massa, o país foi informado que uma Junta de Comandantes das três armadas havia decidido pôr fim ao agonizante exercício das atividades civis e assumia o poder político em nome do autodenominado Processo de Reorganização Nacional.

Massera, Videla e Agosti foram a Junta Militar que liderou o golpe de 1976

Massera, Videla e Agosti formaram a Junta Militar que liderou o golpe de 1976

As ações arbitrárias dos militares foram sentidas logo nas primeiras horas que sucederam ao golpe. Maria Estela Martinez de Perón, então presidente da República Argentina, foi presa junto com seus ministros e outras figuras importantes do peronismo. Centenas de líderes sindicais, militantes peronistas e de esquerda, jornalistas e intelectuais, considerados suspeitos, também foram detidos ilegalmente e muitos deles passaram a fazer parte das listas de desaparecidos políticos. Apesar dessas ações e detenções arbitrárias, o golpe foi interpretado, por grande parte da sociedade, como a melhor alternativa para solucionar a crescente violência, a hiperinflação, a ameaça comunista e outros problemas que a Argentina enfrentava naquele momento, ou seja, a conjuntura que gerou o golpe – crise política, social e econômica – mostrou-se extremamente favorável aos setores militares e civis que acreditavam que a situação que o país enfrentava só poderia ser solucionada com respostas e ações drásticas.

O regime instaurando logo após o golpe instituiu uma forma inédita de crime político, o desaparecimento forçado e clandestino. A prática de desaparecimento consistia no sequestro das vítimas e seu encaminhamento para cativeiros ilegais, os centros clandestinos de detenção (CCD) que, na maioria das vezes, estavam localizados nas dependências militares ou policiais. Nestes centros clandestinos as vítimas eram torturadas e, em sua maioria, assassinadas. A maioria das vítimas que passaram por esses campos foram torturadas e assassinadas e seus corpos foram enterrados em valas comuns, incinerados ou arremessados ao mar, nos chamados voos da morte. As torturas físicas e psicológicas, os fuzilamentos, os partos de presas políticas e os subsequentes sequestros de crianças, foram práticas comuns nestes e em vários outros CCD, estima-se que existiram mais de 300 em toda Argentina.

A ditadura civil-militar argentina, assim como as outras ditaduras do Cone-Sul, foi muito violenta, estima-se que a repressão durante os anos do regime deixou mais de 30 mil desaparecidos. As práticas repressivas usadas foram enquadradas em crimes de lesa-humanidade pelo grau de crueldade, e os chamados “voos da morte” foram uma das várias maneiras que a ditadura encontrou para eliminar seus opositores. Nessa prática, as vítimas muitas vezes eram mantidas nos CCD e após sofrerem inúmeras torturas eram encaminhadas aos aviões da Força Aérea Argentina e arremessadas, ainda com vida, no Mar del Plata. Essa foi uma prática sistêmica do regime que buscava não somente matar a vítima como também desaparecer com seu corpo, podendo ser chamada de “morte argentina”.

Os sequestros de militantes oposicionistas do regime civil-militar argentino foi uma prática comum da estratégia de terrorismo de Estado implantada pela ditadura, assim como a apropriação ilegal de bebês – filhos de pais considerados “subversivos” – sequestrados com seus pais ou nascidos em hospitais militares ou nos CCD. A estimativa é de que, aproximadamente, 500 crianças foram sequestradas e adotadas ilegalmente por outras famílias, que muitas vezes, possuíam ligações com o regime; essa foi uma das práticas terroristas mais cruéis desempenhadas pela ditadura, gerando um trauma que ultrapassa gerações. Atualmente, com a ajuda da organização de direitos humanos Avós da Praça de Maio, 116 jovens já tiveram suas identidades recuperadas.

Avós da Praça de Maio

Avós da Praça de Maio

Os dois primeiros anos da ditadura foram os mais violentos, até meados de 1978, as organizações guerrilheiras, os partidos e agrupações de esquerda, as comissões sindicais e grupos estudantis tinham sido dizimados. Foram durante esses dois anos que a Argentina perdia uma geração praticamente inteira, pois aqueles que não concordavam com o regime já estavam desaparecidos ou mortos e os sobreviventes deixaram o país por medo ou forçadamente.

A implantação do regime ditatorial ampliou os problemas militares e econômicos do país. Logo nos primeiros anos colocou quase a totalidade das Forças Armadas nas ruas para perseguir e dizimar a guerrilha; no ano de 1978 quase iniciou uma guerra com o Chile – conflito esse que foi impedido graças à intervenção do Papa João Paulo II; e em abril de 1982, sob as ordens do então ditador Leopoldo Galtieri (1926-2003), o Exército argentino invadiu as Ilhas Malvinas, esta foi uma tentativa frustrada de buscar recuperar o prestígio do governo frente à população argentina. Tal investida militar foi um fracasso sem precedentes e o Exército argentino rendeu-se às tropas britânicas em junho do mesmo ano. A Guerra das Malvinas converteu-se em um dos maiores fracassos militares do Exercito argentino, em apenas 74 dias de conflito bélico o saldo foi de mais de 700 mortos ou desaparecidos e quase 1300 feridos. Este último conflito derrocou-se com o final da ditadura na Argentina.

Soldados argentinos chegando às Ilhas Malvinas. Foto de Daniel Garcia

Soldados argentinos chegando às Ilhas Malvinas. Foto de Daniel Garcia

A derrota militar na Guerra das Malvinas, os desaparecimentos, as violações dos direitos humanos, a intensificação dos problemas políticos e militares, o caos financeiro de 1981 agravaram a crise e as intenções dos militares em manterem-se no poder político da Argentina foi diminuindo. Aos poucos a população passou a desaprovar as condutas militares e a popularidade dos mesmos caiu drasticamente. Organizações de direitos humanos como Mãe e Avós da Praça de Maio já ganhavam visibilidade e apoio tanto nacional quanto internacional, a então anestesia das consciências da população parecia chegar ao fim, o esforço da desinformação, da censura, da incorporação forçada ou voluntária da imprensa aos objetivos da ditadura já não exercia a mesma força de outrora.

Em 1983 a Argentina elegia democraticamente seu primeiro presidente após o final da ditadura civil-militar, a chegada de Raúl Alfonsín à presidência da República Argentina foi apenas o primeiro passo rumo ao reestabelecimento da democracia e do Estado de Direito. O país enfrentara uma das mais sangrentas ditaduras da história da América Latina e enfrentaria uma série de lutas dolorosas para reconstruir-se e acertar suas contas com seu passado recente.

A ditadura civil-militar argentina, assim como as outras que assolaram os países do Cone-Sul foram momentos traumáticos na história destes países e as sequelas desses anos são vividas até os dias de hoje. É necessário compreendermos que regimes militares nunca serão saídas eficazes para crises ou descontentamentos políticos; os Estados têm o dever de dar subsídios aos seus cidadãos para que possam viver de maneira digna e não militarizar-se e utilizar esse poderio para perseguir opositores e manter um setor no poder político de um país.

Bibliografia

ROMERO, Luis Alberto. História Contemporânea da Argentina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

NOVARRO, Marcos; PALERMO, Vicente. A Ditadura Militar Argentina 1976-1983: Do Golpe de Estado à Restauração Democrática. Tradução Alexandra de Mello e Silva – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2007.

Bruna Borges

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4 respostas para A ditadura civil-militar na Argentina (1976-1983)

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  2. Amanda Lima disse:

    Muito bom!! Me ajudou muito no meu trabalho😉

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