Guerra do Paraguai

No Brasil do Segundo Reinado, enquanto se discutia a questão da abolição da escravatura, um conflito internacional abalou as estruturas do império brasileiro e os destinos dos quatro países envolvidos num dos maiores conflitos internacionais da América do Sul, a chamada Guerra do Paraguai. Esse combate teve proporções grandiosas para os países envolvidos, tanto por sua longa duração, foram mais de cinco anos, quanto pelo número de mortes.

As interpretações em torno de tal episódio também trazem um aspecto muito interessante quanto à historiografia. Isso porque o conflito é interpretado e analisado de formas bem diferentes em determinados períodos históricos e espaços geográficos. Na teoria tradicional da historiografia brasileira, a Guerra do Paraguai foi fruto de planos expansionistas de um ditador megalomaníaco, o paraguaio Francisco Solano López. Na interpretação levada a cabo pelos militares, o conflito pode ser visto do prisma do sucesso da capacidade das Forças Armadas brasileiras, com destaque especial para os feitos heroicos de comandantes como Tamandaré, Osório e Caxias. Assim, a historiografia tradicional brasileira, exalta o papel dos militares brasileiros ao mesmo tempo em que ridiculariza e menospreza os feitos do comandante paraguaio.

Já no lado do país perdedor da guerra, o Paraguai, encontra-se a visão de que o conflito foi resultante da agressão de vizinhos poderosos a um pequeno país independente. Isso porque, era comum a visão do Paraguai como uma nação que buscava seu crescimento de forma autônoma com relação às intervenções estrangeiras, especialmente europeias.

No contexto da Guerra Fria, uma nova interpretação ganhou atenção dos historiadores de esquerda. Nessa teoria, o conflito aparecia como resultado do imperialismo inglês. Assim, o Paraguai, um país de pequenos proprietários, cujo presidente optara pelo desenvolvimento autônomo, enquanto que o Brasil e a Argentina estavam sob a dependência estrangeira. Nesse sentido, esses dois países haviam sido manipulados pela Inglaterra para pôr fim à tentativa de independência, que criaria um precedente perigoso para a América do Sul, pois diminuiria o mercado para o país britânico. Tal interpretação está ligada ao contexto na qual fora produzida, no sentido de que colocava para o período a ideia de que os problemas do continente americano resultavam da exploração imperialista.

Mais recentemente, historiadores vem procurado mostrar outros aspectos desse importante episódio da história latino-americana, baseados em novos documentos. Assim, autores como Francisco Doratioto e Ricardo Salles, mostram o processo de formação dos Estados Nacionais sul-americanos, destacando a sua luta em busca de espaço no cenário internacional e, especialmente, no seu próprio continente.

Pedro Américo. Batalha de Avaí. Museu Nacional de Belas Artes (1877)

Pedro Américo. Batalha de Avaí. Museu Nacional de Belas Artes (1877)

Antecedentes

Durante o período colonial espanhol na América, foi criado o Vice-Reinado do Rio da Prata, que compreende os territórios dos países que hoje conhecemos como Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Com o fim do colonialismo espanhol, tal unidade política deixou de existir, abrindo caminho para a criação de Estados independentes e após longos conflitos tais países se formaram.

Localização do Vice-Reinado do Rio da Prata. Wikipédia.

Localização do Vice-Reinado do Rio da Prata. Wikipédia.

A independência do Paraguai passou pela disputa de territórios com a República Argentina, que também estava marcada por disputas internas entre as diferentes regiões que formavam seu território. Sua autonomia não foi reconhecida pelo governo de Buenos Aires que, em 1813 impediu o comércio paraguaio com o exterior por meio da interdição do acesso ao Rio da Prata. Por conta disso, José Gaspar de Francia, acabou por optar pelo isolamento do país e tornou-se ditador perpétuo. Dessa forma, Francia organizou um governo que se tornou o principal agente da produção e do comércio em seu território. Após confiscar terras da Igreja, foram criadas as Estâncias da Pátria, que eram terras exploradas pelo governo ou por pequenos arrendatários. O ditador também aboliu o sistema monetário, ou seja, o uso de moedas, fazendo com que impostos fossem pagos com produtos.

Foi somente após a morte de Francia que o Paraguai teve sua independência formalmente proclamada pelo seu sucessor, o também ditador Carlos Antonio López, em 1842. O novo governante quebrou a situação de isolamento do país, construindo ferrovias, vinculando-se ao comércio estrangeiro e modernizando o país, através, principalmente de produtos vindos da Grâ-Bretanha. Seu projeto também tinha como objetivo alcançar a livre navegação no Rio da Prata e o seu controle. Foi nesse contexto que Francisco Solano López assumiu o papel de líder em 1862, após a morte de seu pai.

Francisco Solano López

Francisco Solano López

Solano López, assim como seu pai, tinha grande preocupação militar, especialmente no que dizia respeito à defesa do país. Isso era causado por disputas territoriais e de controle do Rio da Prata com Brasil e Argentina (que tinha conseguido sua independência em 1862). Mas esses dois últimos países não tinham uma relação muito próxima, pois o governo brasileiro não via com bons olhos a unificação argentina, pois tinha receio de que se esse país se tornasse uma república forte, e, assim, Brasil poderia perder sua hegemonia.

A relação do Brasil com o Paraguai acabava dependendo do estado das relações entre os governos brasileiro e argentino. Quando o imperador D. Pedro não precisava se preocupar com as aspirações argentinas, vinham à tona as diferenças entre Brasil e Paraguai, que tinham relação com o controle do Rio da Prata.

A aproximação definitiva entre Brasil e Argentina se deu em 1862, quando Bartolomé Mitre chegou ao poder na Argentina e centralizou o poder no país. Sua política era bem aceita pelos liberais brasileiros e também pelos colorados uruguaios, na defesa da livre negociação dos rios.

Ao mesmo tempo em que acontecia tal aproximação, cresciam as rivalidades entre Brasil e Paraguai. Além das disputas em torno da fronteira e do controle sobre a navegação do rio da Prata, o ditador paraguaio Solano López, ao se aproximar do partido de oposição no Uruguai, os blancos, arrumou mais adversários, entre eles, o presidente Mitre da Argentina e o governo brasileiro que viu com maus olhos tal aproximação.

Em setembro de 1864, tropas brasileiras invadiram o território uruguaio, com o objetivo de ajudar a colocar os colorados no poder, ou seja, contribuir com os adversários políticos do presidente Solano López. Tal atitude pareceu aos olhos paraguaios como um expansionismo brasileiro que deveria ser freado para não prejudicar a autonomia do Paraguai. Assim, dia 11 de novembro de 1864, uma canhoneira paraguaia aprisionou no Rio Paraguai o navio brasileiro Marquês de Olinda. Como represália, o governo brasileiro rompeu relações diplomáticas entre os dois países.

Os conflitos

As operações de guerra só iniciaram em 23 de dezembro de 1864, sob a iniciativa de Solano López, que lançou uma ofensiva contra a cidade de Dourados, no Mato Grosso.  Depois disso, foram seis anos de batalhas, com períodos longos nos quais os exércitos beligerantes ficaram imobilizados aguardando o momento do ataque.

Após a ofensiva no Mato Grosso, as tropas de Solano López tiveram seu pedido de passagem na Província de Corrientes, na Argentina, negado. Assim, em março de 1865, o Paraguai declarou guerra também contra esse país e, logo depois, em 1º de maio do mesmo ano, os governos argentino, brasileiro e uruguaio assinaram o Tratado da Tríplice Aliança e o presidente da Argentina assumiu o comando das forças aliadas.

A Tríplice Aliança representou uma grande derrota para Solano López que acreditava que, ao invadir a região do Mato Grosso, teria uma vitória fácil e forçaria o governo brasileiro a um acordo. Mas isso não aconteceu e ainda fez com que o Paraguai tivesse um adversário com um peso econômico e demográfico muito maior que o dele. Ainda assim, as tropas paraguaias estavam muito mais bem preparadas que as dos aliados. Há indícios de que os efetivos dos exércitos eram de 18 mil brasileiros, 8 mil argentinos e 1 mil uruguaios, enquanto que no lado paraguaio contavam-se 64 mil homens.

O número de brasileiros servindo nas batalhas da Guerra do Paraguai cresceu muito durante o conflito, chegando a representar pelo menos dois terços do total. Estima-se números que chegaram a quase 200 mil homens (é importante destacar que a população masculina brasileira girava em torno de 4,9 milhões em 1865).

Acampamento da Guerra do Paraguai

Acampamento da Guerra do Paraguai

O alistamento de homens para servir nos combates se dava por meio de métodos de recrutamento forçado que existiam desde a época da Colônia. Além disso, haviam aqueles que eram obrigados a se juntar ao corpo de Voluntários da Pátria, como se ali estivessem por vontade própria. Os governos das províncias passaram a fazer uma verdadeira caça aos membros da oposição, enviando-os como se fossem voluntários.  Mas, no começo do conflito, logo da invasão do Mato Grosso houve sim a inscrição de verdadeiros voluntários que se colocaram à disposição por conta de sua indignação com a atitude paraguaia.

Para o serviço militar, eram enviados indivíduos considerados socialmente indesejáveis, uma vez que o recrutamento para o Exército era dificultado por um sistema de isenções legais, que impedia o alistamento de diversos indivíduos, entre eles, membros da Guarda Nacional, empregados públicos, arrimos de família, funcionários dos telégrafos e religiosos.

Para sanar tal dificuldade, foi comum uma prática, muito bem analisada pelo historiador Ricardo Salles, da cessão de escravos para lutar como soldados. Em 1866, foi outorgada uma lei que concedia liberdade aos “escravos da Nação”, ou seja, aqueles que servissem no Exército. De acordo com essa lei, os africanos que entraram no Brasil ilegalmente (pois o tráfico de escravos estava proibido desde a lei Eusébio de Queiróz, de 1850) podiam ser apreendidos, ficando sob a guarda do governo imperial e à disposição para se juntarem às fileiras de soldados que iam aos combates na região do rio da Prata.

Ao longo da guerra, o Exército brasileiro tomou forma e se consolidando, algo inédito na história do Brasil, pois até então não havia um grande número de oficiais profissionais, não havia um serviço militar obrigatório e os componentes da Guarda Nacional estavam isentos desse serviço. Os novos soldados brasileiros, apesar de no início estarem submetidos ao argentino Bartolomé Mitre, que era o comandante-em-chefe das tropas da Tríplice Aliança, respondiam mais diretamente a três importantes personagens: o general Osório, o marquês de Porto Alegre e Tamandaré. Inicialmente, eles foram os responsáveis pelas táticas dos soldados aliados.

Retrato oficial de Bartolomé Mitre, presidente da Argentina e comandante-em-chefe das tropas da Tríplice Aliança

Retrato oficial de Bartolomé Mitre, presidente da Argentina e comandante-em-chefe das tropas da Tríplice Aliança

Em termos estratégicos, a Guerra do Paraguai foi marcada por idas e vindas de ambas as tropas. Isso acontecia por conta de impedimentos geográficos e também por conta de epidemias de doenças que atingiram os soldados, como a de cólera, que matou diversos combatentes na região do Mato Grosso.

Algumas batalhas foram de grande importância, como aquela na qual os oficiais da Marinha brasileira, liderados pelo almirante Tamandaré, em 11 de julho de 1865, derrotou as fortes tropas paraguaias, naquela que ficou conhecida como Batalha de Riachuelo. Após essa vitória, o Rio Paraná ficou bloqueado como via de acesso aos combatentes do Paraguai. Ainda assim, por conta das fortificações ao longo do Rio Paraguai, os aliados passaram vários anos imobilizados esperando uma brecha no sistema defensivo paraguaio.

A partir de novembro de 1865, a maior parte das batalhas passou a ser travada em território paraguaio. A fim de tomar a importante fortaleza de Humaitá, os brasileiros liderados pelo general Osório, travaram em Tuiuti a maior batalha campal da guerra.

Logo depois, a Tríplice Aliança sofreu um revés na batalha em Curupaiti, o que fez com que o objetivo de tomar a fortaleza de Humaitá não se concretizasse naquele momento. Com uma nova tática e um novo comandante das forças brasileiras, o duque de Caxias, nomeado em outubro de 1866, novas estratégias foram gestadas. Caxias, em 1868, assumiu também o comando geral das forças aliadas no lugar de Mitre, que havia retornado a Buenos Aires a fim de enfrentar problemas internos.

Sob a liderança de Caxias, as forças aliadas se tornaram praticamente forças brasileiras e o novo comandante trouxe uma nova estratégia: a de preparar melhor o Exército brasileiro antes de seguir nas batalhas. Somente em 1868, as tropas comandadas por Caxias seguiram na ofensiva e, em janeiro de 1869, os brasileiros entraram em Assunção, capital paraguaia.

Fotografia do Duque de Caxias, por volta de 1877.

Fotografia do Duque de Caxias, por volta de 1877.

Nesse momento, Caxias via a guerra como ganha e tinha a intenção de retirar as tropas brasileiras do conflito. No entanto, o governo imperial, já bastante abalado politicamente, também em razão da longa guerra travada na região do Prata, não aceitaria uma vitória sem que Solano López se retirasse do governo do Paraguai. Assim, ficou estabelecido, para o governo brasileiro, que a guerra somente acabaria com o fim da autoridade do ditador paraguaio. A ideia de que fazia parte da honra brasileira aniquilá-lo, acabou sendo uma fonte de mobilização social em torno do conflito. Assim, a paz com López, sem tirá-lo do poder não significaria uma verdadeira vitória para o governo imperial.

A guerra então continuou sob o comando de Conde d’Eu, marido da princesa Isabel, herdeira do trono imperial e somente em 1º de março de 1870, as tropas brasileiras derrotaram o já muito abalado Exército paraguaio, que, à esta altura, já estava desfalcado, contando apenas com pessoas enfermas, velhos e meninos. Nessa data, Solano López foi morto e, portanto, o Brasil já estava vingado.

Em sua fase final, o ditador paraguaio arrumou muitos inimigos também em seu solo nacional. Lá ele realizou uma perseguição a qualquer opositor, chegando a executar seu próprio irmão, que foi por ele acusado de traição. Assim, Solano López ficou na história como um ditador sem escrúpulos que foi responsável por jogar seu país em uma guerra que só trouxe consequências nefastas para o Paraguai. O país após a guerra estava completamente enfraquecido, tanto militar como economicamente, perdendo parte de seu território para o Brasil e também para a Argentina. Interrompeu-se, dessa forma, o processo de modernização da nação que havia sido iniciado por Carlos Antonio López. Isso sem contar as inúmeras perdas que o país sofreu. Calcula-se que a população paraguaia quase caiu pela metade entre o começo e o fim da guerra. A maioria dos sobreviventes era formada por idosos, mulheres e crianças.

Para o Brasil, ficou como consequência o endividamento do Império, especialmente com a Inglaterra, que foi a principal fornecedora de material bélico. É importante também destacar o papel do Exército após o conflito. Se antes, ele não tinha uma estrutura fixa nem um grau de profissionalismo, depois da vitória na guerra, ele se tornou uma instituição com fisionomia própria e que, aos olhos da população, parecia ter mais prestígio do que o governo imperial.

Além disso, figuras como Floriano Peixoto e Deodoro da Fonseca ganharam destaque e importância por sua participação na guerra. Tais nomes seriam, mais tarde, grandes responsáveis pela implantação e consolidação da república no Brasil.

Ligia Lopes Fornazieri

Bibliografia

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: Nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

SALLES, Ricardo. Guerra do Paraguai – Escravidão e Cidadania na Formação do Exército. São Paulo: Paz e Terra, 1990.

NO VESTIBULAR…

(Vestibular Unicamp 2012) A política do Império do Brasil em relação ao Paraguai buscou alcançar três objetivos. O primeiro deles foi o de obter a livre navegação do rio Paraguai, de modo a garantir a comunicação marítimo-fluvial da província de Mato Grosso com o restante do Brasil. O segundo objetivo foi o de buscar estabelecer um tratado delimitando as fronteiras com o país guarani. Por último, um objetivo permanente do Império, até o seu fim em 1889, foi o de procurar conter a influência argentina sobre o Paraguai, convencido de que Buenos Aires ambicionava ser o centro de um Estado que abrangesse o antigo vice-reino do Rio da Prata, incorporando o Paraguai.

(Adaptado de Francisco Doratioto, Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 471.)

Sobre o contexto histórico a que o texto se refere é correto afirmar que:

a) A Guerra do Paraguai foi um instrumento de consolidação de fronteiras e uma demonstração da política externa do Império em relação aos vizinhos, embora tenha gerado desgastes para Pedro II.

b) As motivações econômicas eram suficientes para empreender a guerra contra o Paraguai, que pretendia anexar territórios do Brasil, da Bolívia e do Chile, em busca de uma saída para o mar.

c) A Argentina pretendia anexar o Paraguai e o Uruguai, mas foi contida pela interferência do Brasil e pela pressão dos EUA, parceiros estratégicos que se opunham à recriação do vice-reino do Rio da Prata.

d) O mais longo conflito bélico da América do Sul matou milhares de paraguaios e produziu uma aliança entre indígenas e negros que atuavam contra os brancos descendentes de espanhóis e portugueses.

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