Revoluções Inglesas

O Antigo Regime, alicerçado nos Estados Absolutistas e no mercantilismo começou a demonstrar sinais da existência de contestações já no século XVII e o primeiro lugar em que tal modelo se mostrou questionável e passível de ser derrubado foi na Inglaterra, com o longo processo entre as chamadas Revolução Puritana (1640) e a Revolução Gloriosa (1688).

Nesse período, a sociedade inglesa passava por mudanças estruturais e acentuavam-se as diferenças entre os grupos sociais, tendo, inclusive, uma nova classe social a aparecer demonstrando que traria novos problemas e questões para organização política do Estado, os trabalhadores assalariados.

A Inglaterra teve um enorme aumento de recursos quando o governo se apropriou das propriedades da Igreja Católica, ao romper com a instituição e criar uma nova, a Igreja Anglicana.  Tais recursos acabaram sendo usados para a montagem de uma Marinha de Guerra, além de financiar piratas responsáveis por trazer riquezas de outros continentes.

Nesse período, houve também uma desestruturação dos domínios feudais e a consequente transformação de suas terras em mercadorias. Isso foi possível em razão dos chamados cercamentos (enclousures), nome dado às demarcações de terras que antes serviam como campos de cultivos que favoreciam o trabalho coletivo e que passaram a ser usadas como propriedades. Esse foi um dos aspectos mais importantes na transição entre feudalismo e capitalismo, pois permitiu o surgimento de um novo grupo social, constituído por comerciantes ricos que compravam terras, especialmente para criação de carneiros para produção de lã. Essa nova classe ficou conhecida como gentry.

Os cercamentos acabaram dando origem também a uma classe de pessoas que, destituídas de suas terras e da possibilidade de tê-la para seu sustento, não tinha mais nada como propriedade a não ser sua força de trabalho, que era vendida em troca de salários.

Por conta dessas mudanças, o preço dos alimentos subiu muito. A maior parte das terras estava sendo usada para a criação de carneiro e, portanto, a produção agrícola perdeu espaço e tornou-se cada vez mais cara. Nesse contexto, formou-se também uma camada de pequenos e médios proprietários de terras, que através do dinheiro do comércio, investia seus recursos nas plantações. Esses eram os chamados yeomanry, uma espécie de burguesia rural que direcionava sua produção para o mercado.

A religião tornava-se, nesse contexto, outra questão de disputa, mas não menos importante. Desde a criação da Igreja Anglicana, os adeptos dessa nova instituição estavam ligados diretamente ao rei e à nobreza, mas uma parcela da população, principalmente a burguesia, dedicava-se ao calvinismo, sendo chamados, na Inglaterra, de puritanos, pois defendiam uma purificação da Igreja Anglicana e criticavam o poder absolutista do rei.

Os puritanos, por sua vez, estavam divididos entre os presbiterianos, que tinham como líderes os presbíteros e os puritanos independentes, que propunham organizações religiosas mais abertas, tendo seus fiéis como pastores e pregadores da palavra divina. Foi no seio deste grupo que surgiram reivindicações mais contundentes, pois não diziam respeito apenas a questões religiosas e sim a críticas à concentração de riqueza e à propriedade privada.

Ao mesmo tempo, crescia na Europa um movimento intelectual, o Iluminismo, que tinha como principal característica a pretensão de libertar os homens das superstições, para que eles se amparassem no conhecimento racional, defendendo a liberdade e a ideia de progresso. Os iluministas traziam a tona novos problemas e criticavam os princípios do mercantilismo.

Foi então nesse contexto que se desenvolveram as disputas que levaram a Inglaterra a uma guerra civil, que dividiu a população tanto política como religiosamente. Nesse momento, os interesses de burguesia e Coroa já não estavam mais alinhados, o que abriu caminho para revoltas que tiveram como consequência a instauração de uma nova ordem política.

A Inglaterra do século XVII tinha seu Estado composto por duas instituições concorrentes e complementares, a Coroa, que tinha o exercício do poder, e o Parlamento, que era o responsável pelas decisões referentes à tributação e pela aprovação de leis. Essa última instituição contava duas câmaras, a dos Lordes e a dos Comuns, que eram os pequenos e médios proprietários rurais e comerciantes, ou seja, a baixa burguesia inglesa. Os reis Henrique VII (1485-1509) e Henrique VIII (1509-1547), além da rainha Elizabeth I (1558-1603), representantes da dinastia Tudor, apesar de terem sido reis absolutistas, governaram oferecendo espaço para os comuns e adotando medidas de interesse dos setores burgueses.

Rainha Elizabeth I, última representante da dinastia Tudor.

Rainha Elizabeth I, última representante da dinastia Tudor.

Quando Elizabeth I morreu, foi sucedida por Jaime I (1603-1625), da dinastia Stuart, que defendia o direito divino dos reis. Ele tomou medidas que desagradaram a burguesia, gerando uma série de disputas no Parlamento, que, descontente com suas medidas tributárias, o levou a abdicar do trono em favor de seu filho, Carlos I (1625-1649).

Carlos I continuou com as medidas de seu pai para buscar recursos que financiassem seu governo, incluindo a imposição de empréstimos forçados dos súditos, sob pena de prisão a quem se recusasse. Tais medidas causaram novamente conflitos no Parlamento que, em 1628, exigiu que o rei concordasse com a Petição de Direitos, que determinava que o rei não poderia recolher impostos sem a aprovação da Câmara dos Lordes e dos Comuns.  Inicialmente Carlos I aceitou a exigência, mas depois ele dissolveu o Parlamento reinando por 11 anos de forma absoluta.

Em 1640, o rei convocou o Parlamento para discutir a arrecadação de impostos para juntar fundos que seriam usados no combate à Escócia, pois Carlos I tentava impor, à força, o anglicanismo nesse país que era predominantemente presbiteriano. Nesse momento, os membros do Parlamento se uniram para enfraquecer o poder do rei, assumindo para si a função de decidir sobre assuntos tributários e declarando-se apto a revogar decisões reais.

Juntaram-se a essas disputas políticas as divergências religiosas da população e o resultado foi uma guerra civil que durou de 1640 a 1649. De um lado lutavam os cavaleiros, que eram os defensores do rei, e de outro os cabeças-redondas, defensores do Parlamento. Eles eram assim chamados por usarem o cabelo curto, deixando à mostra o formato de suas cabeças.

O líder desses defensores do Parlamento e que eram, em sua maioria, puritanos, foram liderados por Oliver Cromwell (1599-1658), que criou um novo tipo de exército, chamado de “Novo Exército Modelo”, no qual seus integrantes eram movidos por convicções políticas e religiosas. Nele, as promoções ocorriam por mérito e não pelo sangue, permitindo que pessoas comuns participassem da guerra.

Os representantes do rei acabaram derrotados e, em 1649, Carlos I foi decapitado. Instaurou-se então a República na Inglaterra, que ficou conhecida como Commonwealth e teve como líder Cromwell. O principal desafio desse período consistia em apaziguar os ânimos da população, que ainda estava abalada pela guerra civil. Além disso, o líder da nova República teve como missão restaurar a ordem, contendo os mais radicais.

Execução de Carlos I, em 1649

Execução de Carlos I, em 1649

As principais agitações vinham do próprio exército, que havia sido formado por diferentes grupos sociais que tinham como objetivo comum acabar com o absolutismo de Carlos I. Mas passado o momento de união entre esses grupos, as divergências começaram a aparecer. Entre os mais exaltados estavam os chamados niveladores (levellers) e os cavadores (diggers) que reivindicavam a redistribuição da propriedade, o direito de voto e a proteção dos pequenos proprietários. Enquanto os cavadores eram os mais radicais, querendo levar as transformações a fundo, os niveladores tinham um discurso mais contido. No entanto, os líderes dos grupos não tiveram sorte e foram perseguidos e executados por Cromwell.

Quando, em 1658, Cromwell morreu, a nobreza e o Parlamento ainda estavam assombrados com as movimentações populares e com a radicalidade mostrada por parte dos puritanos. Ricardo, filho do líder da República, assumiu o papel de seu pai, mas teve habilidade para lidar com tais preocupações e acabou sendo deposto de seu papel. O Parlamento então preferiu a volta da monarquia e chamou o filho exilado de Carlos I (o rei decapitado antes da República) para ocupar o trono. Carlos II (1660-1685), que até então vivia na França, governou com o apoio da burguesia e aceitou a influência do Parlamento. Com sua morte, no entanto, assume seu irmão, Jaime II, que também vivia na França e lá havia se convertido ao catolicismo.

Oliver Cromwell

Oliver Cromwell

Jaime II (1685-1688), simpatizante do absolutismo francês, não aceitou, como seu irmão, o papel ativo do Parlamento e procurou se cercar de católicos e partidários do modelo político vivido na França. Tal atitude não foi bem vista pela Igreja Anglicana e pelo Parlamento, que o destronou.

Mas, temerosos com os rumos que a república havia tomado, os membros do Parlamento optaram pela continuidade da monarquia na Inglaterra e convidaram Guilherme de Orange, genro de Carlos II, a invadir o país e destrona-lo. Esse movimento ficou conhecido como Revolução Gloriosa e representou uma nova realidade política para a Europa. Enquanto no período da República houve uma consolidação das conquistas da burguesia na medida em que pôs um fim definitivo aos resquícios feudais e abriu caminho para o crescimento do comércio e da produção artesanal, através da circulação de riquezas, a segunda revolução inglesa determinou uma nova mentalidade política: a existência de uma monarquia constitucional e parlamentarista.

Guilherme de Orange que, coroado após a Revolução Gloriosa, se tornou Guilherme III

Guilherme de Orange que, coroado após a Revolução Gloriosa, se tornou Guilherme III

Guilherme I (1688-1702), governou como Rei da Inglaterra, Irlanda e Escócia, mas deveria respeitar a chamada Carta de Direitos (Bill of Rights), que obrigava o rei a respeitar as decisões do Parlamento e com o estabelecimento de princípios que assegurassem as condições de produção, em aspectos relativos aos impostos e à comercialização de produtos. Criavam-se, assim, as bases para as transformações econômicas que seriam vividas mais tarde.

A Inglaterra passava então a ser governada por reis e pelo Parlamento, representantes dos interesses de uma elite vinculada às atividades comerciais e que passava a gozar de relativa liberdade de ação. Esse sistema britânico se tornou o modelo de governo representativo burguês que repercutiu em outras partes do mundo.

Ligia Lopes Fornazieri

NO VESTIBULAR…

(Vestibular Unicamp 2011)  Na Inglaterra, por volta de 1640, a monarquia dos Stuart era incapaz de continuar governando de maneira tradicional. Entre as forças sociais que não podiam mais ser contidas no velho quadro político, estavam aqueles que queriam obter dinheiro, como também aqueles que queriam adorar a Deus seguindo apenas suas próprias consciências, o que os levou a desafiar as instituições de uma sociedade hierarquicamente estratificada.

(Adaptado de Christopher Hill, “Uma revolução burguesa?”. Revista Brasileira de História, São Paulo, vol. 4, nº 7, 1984, p. 10.)

a) Conforme o texto, que valores se contrapunham à forma de governo tradicional na Inglaterra do século XVII?

b) Quais foram as consequências da Revolução Inglesa para o quadro político do país?

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3 respostas para Revoluções Inglesas

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