Parade’s End (2012) – A literatura, a tv e a História

Começamos agora mais uma sessão no nosso blog. Vamos analisar filmes, séries e programas de tv e literatura como documentos históricos. É tradição na historiografia se utilizar desse corpus documental para a construção historiográfica, pois são obras que abrangem não só a produção cultural de um período como também política, religiosa e social. Já fizemos alguns posts parecidos, como Uma análise de literatura: Os sofrimentos do jovem Werther, mas agora esse tipo matéria será recorrente. E hoje trazemos uma série de tv britânica adaptada de uma tetralogia homônima de 1924: Parade’s End.

PARADES

Na década de 1920, Ford Madox Ford publicou a tetralogia Parade’s End, composta pelos livros: Some Do Not (1924), No More Parades (1925), A Man Could Stand Up (1926), e The Last Post (1928). Ford, ex-oficial que lutou na Primeira Guerra Mundial, escreveu o qual seria classificado como um dos maiores expoentes da literatura modernista do Reino Unido e que trouxe os traumas da primeira grande guerra ao campo ficcional. Uma pequena parte de um diálogo entre o protagonista, sua sogra e sua esposa ilustram o espírito da narrativa:

“Mrs Satterthwaite discorre sobre o fim do mundo, a partir de uma notícia lida no jornal, sobre os desenvolvimentos das condições de trabalho e saúde das empregadas, governantas e trabalhadores domésticos. Sua filha comenta em tom irônico:

Sylvia Tietjens: Será esse o fim do mundo?

Christopher Tietjens: Não . O mundo acabou há muito tempo com o fim do século XVIII.” (Episódio 1. Parade’s End. Londres, BBC Two, 24 de agosto de 2012. Minissérie de Tv.)

A fala de Christopher Tietjens engloba diversos fatores políticos e sociais trazidos pelo autor em sua reflexão sobre a sociedade britânica do fim do século XIX e início do XX. A trama se desenvolve a partir da queda daquela Inglaterra eduardiana diante dos horrores iniciados em 1914, e se conduz a partir da esperança por um futuro melhor, tendo como triangulo amoroso o personagem já citado, nascido em Yorkshire, sua esposa Sylvia Tietjens e uma jovem sufragista, Valentine Wannop.

Ford discorre sobre a sociedade inglesa pré Primeira Guerra Mundial, as mudanças irrevogáveis ocorridas no começo do século XX e como se reconstruíram depois do evento traumático. Todavia, não é um livro e uma série apenas sobre a guerra. Parade’s end é uma novela que nos mostra uma surpreendente visão de um paraíso perdido, da desordem dos valores morais e da ordem social. A guerra foi apenas um acontecimento dentre um turbilhão de mudanças irreversíveis, e é tratada como o sintoma de uma epidemia que se tornou endêmica. O autor trata da transição de um período e o comportamento das classes sociais, com suas alianças e traições, prestadas para a sobrevivência e ascensão na sociedade.

É um romance sobre personagens, no qual o plano de fundo tem caráter fundamental, mas a história é guiada a partir dos relacionamentos, com toques do característico humor inglês e uma relevante quantidade de exames de consciência, sobretudo nas descrições dos pensamentos. Contudo, a maior complexidade reside no trio principal. Não há muita apresentação dos personagens, a história se desenvolve direto e cabe ao leitor a familiaridade com a época e a situação.

Tietjens é um herói clássico, considerado o último gentlemen numa Inglaterra de disputas políticas, internas e externas, no âmago do desenvolvimento industrial em escala mundial. O protagonista é conhecido como o “último Tory*”, devido sua devoção às tradições mais conservadoras, vividas na era eduardiana, sobretudo a honra e o senso de propriedade e a manutenção do status perante a sociedade. Aqui não seria a ostentação, mas a continuidade daquilo que o próprio chama de parade, o desfile de ilusões. Tietjens sempre faz o certo, não importa que isso custe sua segurança e bem estar. Sylvia Tietjens é o seu oposto. Entediada, expõe o marido perante a sociedade, numa tentativa de causar a ele qualquer reação sentimental, nem que seja (ou, sobretudo) de ódio. Suas extravagâncias e casos extraconjugais aborrecem, mas não fazem com que o protagonista abandone seu compromisso com a moral e os valores matrimoniais. Mesmo apaixonado por Valentine, o respeito pela esposa é mantido. A ferocidade com que os rumores e fofocas atingiram Tietjens e Wannop seriam resultados da decadência cultural, explorada por Ford, que existia naquele contexto. A guerra trouxe à tona esse mundo em colapso, uma sociedade corrompida, disfarçada com suas máscaras.

Porém, a interpretação vai além. O ressentimento de Tietjens é relacionado à sua própria vida, a impossibilidade de tomar as próprias decisões sem escandalizar a sociedade, tendo que manter a parade, o desfile de ilusões, a farsa na qual viviam. E, num rompante sincero, ele recorreu ao escapismo temporal e espacial: seria um homem do XVIII, um homem do campo, um homem do passado.

É a partir do segundo e terceiro livros que Ford narra, com descrições intensas, a devastação provocada pela guerra não só na Inglaterra, mas, principalmente, na vida de Tietjens. Os horrores da guerra terminaram com um ideal romântico na sociedade, e Ford traz o pior e o melhor em cada personagem, na intenção de exemplificar as contradições em que viviam e o que deveria ser velado e o mostrado.

Nas trincheiras, diante da corrupção e da burocracia que afetavam diretamente os soldados (e auxiliavam a mordomia do alto escalão), as condições insalubres dos campos de batalha, fizeram com que Tietjens fosse solapado pela necessidade de rever seus valores conservadores. A morte e a dor tão próximas lhe trouxeram novas perspectivas, e a preocupação com a aparência social não tinha mais espaço na sua realidade.

A descrição do arco do personagem é a metáfora crítica desenvolvida por Ford. Tietjens é o representante da moral e da ordem, um entusiasta da parade, aquele que se vê confrontado por uma sociedade caótica. O homem do campo, com valores ligados a terra, era o deslocado num mundo imerso na superficialidade do materialismo, no qual a honra e a lealdade não eram os guias principais. Ford traz o declínio da sociedade inglesa, que se perdia desde o início do século XVIII, com o desenvolvimento da indústria, a saída das produções artesanais, a entrada, sem volta, do motor.

O autor discorre sobre as consequências de se manter as aparências, a impossibilidade da parade no mundo moderno, a queda dos heróis românticos. Foram aspectos da sociedade inglesa que se maximizaram com a guerra. A desilusão de um presente degenerado e arrasado por uma guerra de proporções mundiais. O símbolo desse conflito entre tradição e progresso, era uma imensa árvore centenária que estava na propriedade da família Tietjens, em Yorkshire. Num ato de rebeldia, Sylvia manda cortá-la e conta ao marido. A superação de Christopher perante tal episódio constata a mudança de caráter e prioridades em sua vida. Apesar de ter prosperado e conseguido adaptar-se, o período de ruptura e queda da sociedade foi altamente abordada por Ford ao longo da narrativa.

Portanto, a tetralogia nos abre um leque de possibilidades para compreender a sociedade inglesa pré e pós Primeira Guerra Mundial. Da mesma maneira, a adaptação feita pela emissora de tv britânica BBC em 2012 pode ser inserida em um contexto no qual várias obras sobre esse período foram produzidas, tanto na tv, como Downton Abbey, ou no cinema, como War Horse. Em 2014, a Primeira Grande Guerra tornou-se centenária, e a memória desse período que transformou a Europa, revivida e analisada no nosso presente.

*Tory: Em linhas gerais, é o nome dado a uma filosofia política britânica, o Toryism, que é conservadora e tradicionalista.

Ana Carolina Machado

Trailer:

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