Revolução Industrial

A Revolução Industrial não foi um ato isolado ou algo cronologicamente delimitado, mas sim representou um conjunto de inovações e mudanças nas relações de produção e nas relações sociais e políticas, que ocorreram a partir da segunda metade do século XVIII na Inglaterra. Apesar de ter começado nesse país, foi um fenômeno que se alastrou, aos poucos, por várias partes do mundo e suas consequências acabaram sendo sentidas no mundo todo.

A Inglaterra foi o ponto inicial dessa revolução, que representou a passagem do sistema doméstico ao sistema fabril de produção, pois foi esse país que, durante quase duzentos, passou por uma série acontecimentos que foram determinantes para que se surgisse uma nova sociedade capitalista. Uma combinação de fatores políticos e condições históricas que tornaram possível o processo pioneiro de industrialização acelerada na Inglaterra.

Esses fatores e condições podem ser resumidos nos seguintes pontos:

  • Acumulação do capital obtido nas atividades mercantis. A supremacia naval britânica permitiu que o país se tornasse uma potência econômica. O resultado disso foi o investimento em uma nova forma de produção que derivava das antigas manufaturas e que, aos poucos, passou a se configurar como a atividade mais importante.
  • Facilidade com as fontes de matérias-primas e de energia. Ferro e carvão eram encontrados em profusão no solo inglês e o algodão, matéria-prima para as tecelagens, berço da Revolução Industrial, era proveniente das terras coloniais (EUA) e a lã era encontrada nos campos britânicos e coloniais.
  • Processo de cercamentos e o êxodo rural. Com processo de delimitação das terras e sua transformação em mercadoria, milhares de pequenos proprietários que perderam suas terras migraram para as cidades sem emprego e sem ocupação, podendo ser transformados em mão-de-obra.
  • Crescimento de mercados consumidores. Ao mesmo tempo em que os ex-camponeses se tornaram importantes para o fornecimento de mão-de-obra, eles também passaram a representar uma parte do mercado consumidor. Além disso, houve, nesse período, um crescimento demográfico, decorrente da diminuição de doenças e no aumento da oferta de produtos agrícolas.
  • Estabelecimento do princípio do liberalismo político e econômico. Desde a Revolução Gloriosa (1688), a ideia do laissez-faire prevalecia na Inglaterra. O Parlamento tomava medidas que estimulavam, cada vez mais, a abertura econômica e reforçava o papel dos burgueses como líderes dos processos econômicos.
  • Medidas de proteção para novas invenções. O Parlamento criou medidas para a invenção de incrementos para a indústria têxtil em expansão. A máquina a vapor, criada em 1769, por James Watt é um exemplo dessas invenções que difundiam-se rapidamente na indústria nascente.
    Tecelagens inglesas, onde a maioria dos trabalhadores era formada por mulheres e crianças.

    Tecelagens inglesas, onde a maioria dos trabalhadores era formada por mulheres e crianças.

    O final do século XVIII e início do XIX, presenciou inúmeras inovações tecnológicas que incrementavam as atividades fabris. Assim, em 1769, foi criada a máquina a vapor de James Watt, que transformou o mundo e foi, incialmente usada nos moinhos têxteis. Logo depois, em 1793, foi criada uma máquina que era capaz de clarear o algodão 50 vezes mais rápido do que se 50 pessoas executassem essa tarefa simultaneamente.  No século XIX, desenvolveram-se as indústrias metalúrgicas, que transformavam o ferro em lâminas e em lingotes.

    Nos transportes, as transformações também foram de grande importância. Em 1805, foram criados os navios a vapor, que permitiam que as viagens marítimas fossem impulsionadas por motores e não mais ficassem dependendo dos ventos ou de remos. Em 1830, foi inaugurada a primeira ferrovia que ligava Liverpool a Manchester. As primeiras linhas férreas foram utilizadas para levar os produtos das indústrias metalúrgicas para os portos. Somente anos mais tarde, elas foram utilizadas para o transporte de pessoas.

    A introdução das ferrovias teve um grande impacto na economia industrial, na medida em que tornou possível o transporte de mercadorias em maiores volumes e em maior escala, de forma mais rápida, o que agilizava a distribuição e comercialização dos bens produzidos na nascente indústria inglesa.

    Locomotiva a vapor

    Locomotiva a vapor

    Todas essas transformações, como as alterações na indústria têxtil, as invenções e os recursos da máquina a vapor e o uso, em larga escala, do ferro e do carvão provocaram mudanças que impactaram não só a produção industrial, como também a sociedade. Surgia a sociedade de classes, com a ascensão de duas que passaram a ter papel proeminente na política e na forma de se pensar a política: a burguesia, a detentora dos meios de produção e o proletariado, cuja única riqueza era sua própria força de trabalho.

    Como consequências da Revolução Industrial, pode-se citar o crescimento das cidades, tanto em tamanho como em importância. Em 1850, duas cidades se destacavam na Europa: Paris, com 1 milhão de habitantes e Londres, com 2,5 milhão. O aumento populacional, no entanto, não foi seguido por uma melhora nas condições de vida. Pelo contrário, a maior parte da população sobrevivia precariamente em termos de habitação, alimentação e higiene. As famílias operárias ficavam alojadas em cubículos imundos, expostos ao frio e à fuligem das fábricas. Esse conjunto de problemas causava muitas doenças  e epidemias, que, rapidamente, alastravam-se pelas cidades.

    “Todas as grandes cidades tem um ou vários ‘bairros de má fama’ onde se concentra a classe operária. É certo ser frequente a miséria abrigar-se em vielas escondidas, embora próximas aos palácios dos ricos; mas, em geral, é-lhe designada uma área à parte, na qual, longe do olhar das classes mais afortunadas, deve safar-se, bem ou mal, sozinha. Na Inglaterra, esses ‘bairros de má fama’ se estruturam mais ou menos da mesma forma que em todas as cidades: as piores casas na parte mais feia da cidade; quase sempre, uma longa fila de construções de tijolos, de um ou dois andares, eventualmente com porões habitados e em geral dispostas de maneira irregular. Essas pequenas casas de três ou quatro cômodos e cozinha chamam-se cottages e normalmente constituem em toda a Inglaterra, exceto em alguns bairros de Londres, a habitação da classe operária. Habitualmente, as ruas não são planas nem calçadas, são sujas, tomadas por detritos vegetais e animais, sem esgotos ou canais de escoamento, cheias de charcos estagnados e fétidos. A ventilação na área é precária, dada a estrutura irregular do bairro e, como nesses espaços restritos vivem muitas pessoas, é fácil imaginar a qualidade do ar que se respira nessas zonas operárias – onde, ademais, quando faz bom tempo, as ruas servem aos varais que, estendidos de uma casa a outra, são usadas para secar a roupa.”
    (ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 70)
    Uma cidade industrial com suas chaminés

    Uma cidade industrial com suas chaminés

    Essa situação, empregos mal remunerados, a substituição de trabalhadores por máquinas, as dificuldades de habitação, higiene e alimentação foram fatores responsáveis por levarem os trabalhadores a resistirem e a procurarem meios de demonstrarem sua insatisfação e sua péssima situação. A transformação de artesãos, com seus próprios meios de trabalho, sua própria disciplina em operários, num situação em que eles eram desprovidos de seus conhecimentos e de suas maneiras de trabalhar, fizeram com que muitos deles se unissem para resistir à exploração. Alguns exemplos dessas resistências foram a sabotagem, o movimento ludita, o cartismo e o surgimento de teorias socialistas.

    A sabotagem, palavra que vem do francês sabot (tamanco), consistia na estratégia dos operários de enfiarem seus tamancos em meio à máquinas, interrompendo a produção e danificando os equipamentos. O movimento ludita também teve como alvo a maquinaria das empresas. Inspirados na figura de Ned Ludd, que quebrou o tear de seu patrão por acreditar a máquina era responsável por seu sofrimento. Os chamados “quebradores de máquinas” foram duramente reprimidos nas primeiras décadas do século XIX, mas demonstram como a insatisfação dos operários os levou a culpar, primeiramente, a tecnologia por seus infortúnios e pela exploração cada vez maior a que eram submetidos.

    Os cartistas eram assim chamados por terem sido responsáveis pela elaboração da “Carta do Povo” (1838), na qual reivindicavam o sufrágio universal para os homens, a limitação dos mandatos do Parlamento e a elegibilidade de não-proprietários, ou seja, o direito de operários participarem do Parlamento. Da mesma forma que os luditas, os cartistas foram perseguidos e reprimidos, tendo o Parlamento rechaçado a Carta do Povo, mas os trabalhadores continuaram defendendo várias das ideias contidas nesse documento e, com o passar dos anos, algumas deles acabaram tendo sua aprovação.

    Pode-se determinar, portanto, que foi a partir da chamada Revolução Industrial que alguns aspectos de nossa sociedade capitalista, hoje tão comum a nós, começaram a ser desenhados e delineados. A ascensão de uma classe industrial, com seus interesses tendo espaço importante na política, o papel dos trabalhadores nas reivindicações sociais e a transformação do trabalho em mercadoria foram alguns desdobramentos da revolução industrial e tecnológica que se iniciou no final do século XVIII na Inglaterra e que, com o tempo, se alastrou pelo mundo, ganhando novas proporções e sentidos.

    A partir da segunda metade do século XIX, com o aprimoramento científica e tecnológico das descobertas e inovações desses acontecimentos citados no texto, houve uma Segunda Revolução Industrial, na qual outros países, como Estados Unidos e Alemanha, tiveram um papel predominante.

    Após a Segunda Guerra Mundial, com as inovações tecnológicas decorrentes das descobertas e estudos para determinar o papel de potências mundiais de alguns países, ocorreu aquilo que se chama de uma “Terceira Revolução Industrial”, cujas principais características podem ser assim resumidas: uso de novas fontes de energia, como a nuclear, globalização da produção industrial e a massificação dos produtos tecnológicos e científicos, como o computador.

Ligia Lopes Fornazieri

Para saber mais:

HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções. 1789-1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

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4 respostas para Revolução Industrial

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  3. Kelly Cristina disse:

    Parabéns!
    Pela excelência apresentada nos fatos e de fácil entendimento.

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