Grécia Antiga – Parte 1

Quando pensamos em Antiguidade Clássica, o Mundo Grego sempre surge como uma forte referência. A cultura, política, artes, pensamento gregos são muito presentes nas sociedades ocidentais. Em nossa sociedade, por exemplo, a língua, estruturas políticas têm forte influência vinda do Mundo Grego. Vamos agora conhecer um pouco mais sobre este período histórico que marcou tanto a cultura do mundo ocidental.

Para melhor compreendermos o Mundo Grego é necessário que façamos algumas divisões cronológicas para que o conteúdo possa ser melhor assimilado. Período Pré-Homérico (séculos XX a XII a.C.); Período Homérico (XIII a VIII a.C.); Período Arcaico (VIII a VI a.C.); Período Clássico (V a IV a.C.) e Helenístico (III a II a.C.). Hoje iremos conhecer as três primeiras fases, as duas outras ficam para um próximo post.

Localização geográfica do chamado Mundo Grego.

Localização geográfica do chamado Mundo Grego.

Período Pré-Homérico (séc. XX a XII a.C.)

A formação do Mundo Grego remota à sociedade creto-micênica. As descobertas arqueológicas do século XIX, na Ilha de Creta, foram primordiais para que se pudesse conhecer melhor as origens da civilização grega. Segundo estas descobertas, na sociedade cretense o eixo principal da vida social estava na cidade e tinha na religião um de seus pilares centrais. Por volta dos anos 2000 a.C., a sociedade cretense passou a estabelecer contado com os povos indo-europeus (aqueus, jônios, dórios e eólios). Estes povos assimilaram a cultura cretense surgindo assim o que chamamos de civilização creto-micênica.

O apogeu desta sociedade foi entre os anos de 1400 a 1230 a.C.. Porém, pouco tempo depois, em aproximadamente 1150 a.C., a desintegração da sociedade ocorreu, segundo alguns historiadores, devido as constantes guerras entre os reinos formados, algumas perturbações sociais e por mudanças climáticas que prejudicaram a agricultura, desencadearam a Primeira Diáspora Grega. Os creto-micênicos legaram à Grécia suas crenças religiosas, arte da cerâmica, metalurgia, agricultura, língua, etc…

Durante muito tempo acreditou-se que a destruição brusca das cidades micênicas tivesse ocorrido pela invasão dos dórios, uma população que tinha a detenção de armas de ferro. Porém as pesquisas arqueológicas ainda não conseguiram encontrar vestígios dessa invasão, o que deixa essa possibilidade em aberto. Este fato nos mostra como a História é uma ciência que está em constante transformação, cada nova descoberta sobre períodos passados podem mudar as perspectivas históricas que temos.

Período Homérico (séc. XIII a VIII a.C.)

Foi durante o período Homérico que as duas mais famosas obras literárias gregas foram escritas, Ilíada e Odisseia. As duas epopeias narraram a história de Ulisses, um guerreiro espartano, que participou da Guerra de Troia e desempenhou um papel fundamental para o desfecho da mesma. A Ilíada é um poema épico que descreve o último ano da guerra. Já Odisseia narra a difícil volta do espartano para Ítaca. Estas obras são atribuídas ao poeta Homero, porém não se sabe exatamente se foram por ele escritas. Elas representam uma importante fonte para os estudos históricos sobre o Mundo Grego, uma vez que é um dos poucos documentos escritos do período.

As epopeias de Homero são os poucos documentos escritos produzidos durante o período, por isso, mais uma vez, a arqueologia tem um papel fundamental na tentativa de descobrirmos informações sobre o Mundo Grego. Os indícios arqueológicos apontam para o predomínio de uma sociedade agropastoril composta por genos ou comunidades gentílicas, uma espécie de unidade econômica, social, política e religiosa em que os membros eram unidos por laços de parentesco e religiosos. Este grupo vivia sob a autoridade do pater familia (patriarca) que desempenhava um papel de chefe político e religioso. A organização política destes genos se dava por assembleias compostas pelos líderes, proprietários e guerreiros de cada uma dessas comunidades.

Já no final do Período Homérico, estes pequenos genos começaram a sofrer algumas modificações. O crescimento populacional juntamente com a estagnação das técnicas agrícolas e a falta de terras férteis desencadeou uma escassez alimentos. Aos poucos as comunidades gentílicas começaram a se desintegrar, os membros foram liberados pelo pater e dividiram as terras coletivas. Os pater-familias favoreceram seus parentes mais próximos com as melhores terras, esses parentes passam a ser chamados de eupátridas (bem-nascidos).

Os eupátridas herdaram o poder político exercido pelos pater-familias e formaram uma aristocracia de base fundiária. Os eupátridas agrupavam-se nas chamadas fratrias e estas, por sua vez, formavam uma tribo. O agrupamento de várias tribos pode ser considerado o embrião das póleis (cidades-Estado) gregas. Estas póleis eram governadas por um basileus (rei) que tinha seus poderes limitados pelos eupátridas, cada uma dessas cidades tinha suas próprias características, porém todas contavam com um templo construído em sua parte mais alta: a Acrópole.

Período Arcaico (séc. VIII a VI)

Entramos então no período de desenvolvimento das póleis gregas. No século VIII a.C., teve início um crescimento populacional que durou até o século VI a.C. e esta expansão contribuiu para a colonização da região do Mediterrâneo, ficando conhecida como a Segunda Diáspora Grega. Algumas das razões para esta dispersão nós já vimos anteriormente, a desintegração das comunidades gentílicas, o crescimento populacional além do desenvolvimento da navegação.

Dentre as muitas cidades-Estado que surgiram no final do Período Homérico, duas se destacaram, são elas: Esparta e Atenas. Agora vamos conhecer um pouco mais sobre cada uma delas.

Esparta

Situada na planície da Lacônia, península do Peloponeso (sul da Grécia), foi fundada pelos dórios, uma população com uma forte tradição guerreira. Até o século VII a.C., Esparta era uma cidade comum, sem nenhum fator pontual que a diferenciasse das outras. Porém a grande mudança política e econômica espartana ocorreu no século VII a.C., quando conquistou a cidade vizinha Missênia. Assim que Esparta dominou a cidade, tornou aquela população escrava e, ao contrário do que faziam as outras cidades, decidiu não vender os escravos tornando-os “servos do Estado” ou hilotas.

Os hilotas eram maioria dentro de Esparta e revoltados com a situação a que foram submetidos rebelaram-se na tentativa de recuperar sua liberdade. Esta rebelião foi sufocada pelos espartanos, que motivados a perpetuar o domínio sobre os missênios, muito mais numerosos, transformaram a sociedade espartana numa espécie de acampamento militar. Sendo assim, a partir do século VII a.C., as modificações sociais foram marcantes assim como as políticas.

Esparta passou a contar com uma nova estrutura política oligárquica que contava com a Gerúsia (formada por 28 gerontes, cidadãos com mais de 60 anos, e por dois reis) que desempenhava o poder supremo; Ápela (Assembleia dos Cidadãos) com valor meramente consultivo e os Éforos (formada por cinco cidadãos, eleitos anualmente pelos gerontes) que desempenhavam as funções de administração da cidade e da ordem pública.  Essas transformações foram atribuídas à Licurgo.

A sociedade espartana passou a organizar-se em três estamentos sociais, os espartíatas – os únicos que possuíam direitos políticos, ou seja, os únicos considerados cidadãos; os periecos – homens livres que não eram considerados cidadãos, mas que tinham terras e se dedicavam à agricultura, pastoreio, artesanato e comércio; e os hilotas – os escravos que não eram protegidos pelas leis e eram privados de liberdade.

A educação e cultura em Esparta também são importantes pontos de distanciamentos em relação as outras cidades-Estado gregas. Como já mencionado, era vital que Esparta mantivesse seu domínio sobre os hilotas, por isso foi implementada uma estrutura educacional rígida com um forte viés militar. Primeiramente a prática da eugenia era amplamente aplicada, ou seja, os recém-nascidos eram selecionados por critérios físicos, sendo descartados por qualquer fragilidade aparente. Até os sete anos eram educados pelas mães e depois pelo Estado, meninos e meninas aprendiam os valores cívicos da sociedade espartana, praticavam exercícios físicos e eram disciplinados militarmente, além de incentivados a praticar o laconismo – estratégia do Estado para barrar o crescimento do espírito crítico para que a educação militar pudesse ser recebida pelos jovens sem grandes questionamentos. Aos 17 anos, os meninos eram submetidos a uma prova de resistência, conhecida como kriptia, em que eram obrigados a matar um certo número de hilotas; dos 18 aos 30 anos dedicavam-se, exclusivamente, às atividades militares. Aos 30 anos casavam-se e estavam aptos a participar da Ápela.

Além das práticas da eugenia e do laconismo, a xenofobia (aversão a estrangeiros) era bastante estimulada, pois buscava-se frear o contato dos espartanos com cidadãos de outras póleis que tinham ideias culturais e políticas distintas das desenvolvidas e cultuadas em Esparta, sendo assim, essas práticas buscavam manter o status quo e evitar mudanças indesejadas pelos espartíatas.

Depois de compreendermos as estruturas políticas e sociais de Esparta, vamos conhecer outra cidade-Estado importante do Mundo Grego, Atenas, o berço da democracia. Esta apresenta-se como um contraponto à Esparta com estruturas políticas e sociais distintas.

Atenas

Partenon, templo construído em homegagem à deus Atena, no centro de Atenas

Partenon, templo construído em homegagem à deus Atena, no centro de Atenas

Localizada no litoral da península Ática sua população originou-se dos aqueus, eólios e jônios, porém os atenienses consideravam-se jônios. Graças a sua localização contava com um excelente porto o que fez de Atenas uma cidade com forte vocação comercial. A monarquia foi a primeira forma de governo, em que o basileus (rei) desempenhava o poder político, militar e religioso e tinha seu poder limitado pelo Conselho de Aristocratas, o Areópago. No século VIII a.C., os eupátridas usurparam o poder impondo a oligarquia como regime político, durante esse período, o basileus teve suas funções limitadas às questões sacerdotais.

Já no século seguinte Atenas enfrentou uma grave crise, os camponeses que haviam perdido suas terras para os aristocratas e tornaram-se escravos, começaram a questionar as estruturas políticas da cidade. Eles lutavam por leis escritas, o fim da escravidão por dívidas e o direito de participar da vida política da cidade. Foi neste contexto que a oligarquia recuou e fez algumas concessões, desta forma surgiram os legisladores que tinham como principal função frear a crescente crise que Atenas enfrentava.

No ano de 621 a.C., Drácon foi designado pela oligarquia a redigir um código de leis escritas, o código era extremamente severo, uma vez que previa pena de morte para quase todos os delitos e não trazia nenhuma melhora significativa para a situação econômica dos camponeses. Na prática os eupátridas continuavam monopolizando o poder, mas este código permitiu que os pobres conhecessem as leis, o que diminuiu as arbitrariedades dos juízes aristocratas. Ainda assim a instabilidade política e social continuou avançando, esta leis ficaram conhecidas como leis draconianas.

Atenas, prestes a uma guerra civil, encontrou no poeta Sólon uma possível solução. Ele foi nomeado legislador no ano de 594 a.C., com o objetivo de solucionar a crise e evitar a guerra civil. Suas propostas modificaram as estruturas políticas, sociais e econômicas atenienses. O tamanho das propriedades foi limitado, a escravidão por dívidas foi abolida, permitiu que todos os grupos participassem da Assembleia, enfraquecendo assim a hegemonia dos eupátridas. As reformas de Sólon são importantes para compreendermos o estabelecimento da democracia ateniense.

As mudanças iniciadas por Sólon não eliminaram as reivindicações populares nem agradaram a aristocracia. A sociedade ateniense continuava em constante crise e a luta entre os grupos políticos somente aumentava e essa condição gerou condições para que tiranias fossem estabelecidas e, durante cinquenta anos, essa foi a estrutura política ateniense. Vale ressaltar que a tirania era comum nas cidades-Estado gregas e não necessariamente tinha um caráter negativo, pois a palavra não estava associada à ideia de opressão e dominação como atualmente.

Entre os anos de 560 e 527 a.C., Atenas foi governada por Psístrato, de origem aristocrata que durante seu governo construiu várias obras públicas e estimulou o comércio. Para conseguir apoio do povo construiu canais para melhorar o abastecimento de água na cidade; distribuiu terras e também manteve os aristocratas no poder político ateniense. Estabeleceu também incentivos culturais fazendo com que a cultura, antes privilégio da aristocracia, pudesse chegar também às pessoas comuns. Sua política cultural elevou Atenas à categoria de capital cultural do Mundo Grego.

Já em 508 e 507 a.C., Clístines iniciou um processo de reformas que culminaria na criação da democracia. Estas propostas incluíam direitos políticos para todos os cidadãos (homens maiores de 21 anos, filhos de pai ateniense e de origem jônica) estabelecendo sua participação na Assembleia dos Cidadãos, conhecida como Eclésia. Vale ressaltar que a democracia ateniense era exercida por cerca de 45.000 cidadãos em uma população de aproximadamente 450.000 habitantes. Além da Eclésia, havia também a Bulé (Conselho dos 500) que preparava as leis que seriam votadas pela Assembleia dos Cidadãos; a Heliae tinha a função de ministrar a justiça comum e o Areópago a alta justiça.

Outra prática proposta por Clístenes foi o ostracismo, que consistia na suspensão dos direitos políticos, por dez anos, dos cidadãos que eram considerados nocivos à democracia. Se um cidadão tivesse seu nome inscrito várias vezes no ostrakon (pedaço de cerâmica em forma de concha) era banido da cidade. Esta prática visava proteger a cidade contra tirania.

Ostrakon - fragmento de cerâmica usados para indicar quem deveria ser expulso da cidade.

Ostrakon – fragmento de cerâmica usados para indicar quem deveria ser expulso da cidade. Peça encontra-se no Museu de Ágora, Atena, Grécia,

Como já vimos anteriormente, a democracia ateniense era destinada a uma pequena parcela da população. Sendo assim, os aristocratas continuavam a dominar as estruturas políticas da cidade, os estrangeiros eram privados de qualquer participação política e os escravos, que compunham aproximadamente um quarto da população, não gozavam de nenhuma liberdade. Os gregos consideravam a escravidão essencial à democracia, pois a existência de escravos dava tempo para os cidadãos usufruírem das atividades políticas e culturais.

Além dessas ressalvas não podemos deixar de enfatizar que a sociedade ateniense era predominantemente masculina. Todas as liberdades e atividades políticas estavam direcionadas aos homens. As mulheres não podiam participar da Assembleia e tão pouco exercer qualquer cargo político, não estavam aptas a possuir ou herdar bens, não eram consideradas cidadãs e estavam em total submissão aos homens.

Bruna Borges

BIBLIOGRAFIA

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2002.

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