Independência dos Estados Unidos

No século XVII, França e Inglaterra fundaram colônias localizadas na parte norte do continente americano. Enquanto espanhóis e portugueses se estabeleceram na região sul, os ingleses ocuparam apenas a costa leste da América do Norte. Lá foram fundadas as Treze Colônias, que eram, por sua vez, divididas nas colônias do Norte, conhecidas como Nova Inglaterra (Massachusetts, Rhode Island, Connecticut e New Hampshire – Nova York, Pensilvania, Nova Jersei e Delaware – eram da região central mas apresentam as mesmas características das do norte) , e as colônias do Sul (Maryland, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia).

Estas apresentavam grandes diferenças sociais e econômicas. A historiografia tradicional convencionou a dizer que o Norte havia sido colonizado, sobretudo, por ingleses puritanos que haviam fugido da perseguição religiosa em seu país. Foi formado por pequenas propriedades familiares que realizavam a policultura, com predomínio de mão-de-obra livre e cuja produção era voltada para o mercado interno, pois, por conta de sua posição geográfica, não poderia oferecer produtos diferentes daqueles produzidos na Inglaterra.

Um marco para a colonização da América do Norte foi em 1620, quando chegou, nessa região, o navio Mayflower que aportou em Massachusetts. Os ingleses puritanos que vieram nessa embarcação afirmavam estarem cumprindo o desígnio divino de construir um novo país, daí o nome de Nova Inglaterra, como ficaram conhecidas as colônias do Norte.

Já as colônias do Sul, apresentavam características bem distintas das descritas. Com um clima mais favorável à agricultura, predominavam, nessa região, as grandes propriedades monocultoras, com uso de mão-de-obra escrava e com uma produção voltada para a exportação. Essa é uma explicação que reforçaria não só as ideias de sacrifício e coragem puritanas, mas também substanciaria as complexas comparações entre o Sul, e até mesmo a colonização brasileira.

As Treze Colônias britânicas

As Treze Colônias britânicas

Leandro Karnal diz em seu livro História dos Estados Unidos – das origens ao século XXI, que a América do Norte recebeu os mais variados tipos de gente, ou seja, pessoas que não eram mais bem quistas na Metrópole também vieram para cá. Muitos resolveram cruzar o Atlântico na tentativa de estabelecer uma nova vida, se endividando para que tal viagem – que era cara – ocorresse. Surgiu, assim, a chamada indenturent servant, servidão temporária, na qual a pessoa trabalhava alguns anos gratuitamente àquele que lhe financiasse a passagem para o Novo Continente. A maioria do fluxo de imigrantes era composto por mulheres, crianças, criminosos e miseráveis. Somente esses dados já descontroem a ideia de uma colonização de povoamento que teria recebido os mais nobres ingleses, em detrimento de uma colonização de exploração. O Brasil, para efeito comparativo, teve a doação das capitanias hereditárias, instituída em 1534, a nobres e senhores endinheirados, que poderiam se manter e estabelecer uma vida no país.

As colônias do Norte, devido ao tipo de economia lá estabelecida, alcançaram uma maior autonomia com relação à Metrópole. Além disso, com a Inglaterra enfrentando disputas políticas internas , havia pouco interesse por parte da Metrópole com os negócios de sua colônia.

Dessa forma, pode-se destacar a formação de uma elite norte-americana, com anseios diferentes daqueles estabelecidos pela Inglaterra ao colonizar as terras americanas. No entanto, no século XVIII, a Coroa inglesa passou a adotar um controle mais rigoroso, já que, nesse período, suas disputas internas estavam resolvidas e a Revolução Industrial fez com que a Metrópole enxergasse sua colônia como um mercado promissor e como uma fonte maior de matéria-prima.

Tal postura dos ingleses acarretou na mudança da relação entre colonizadores e colonizados, aumentando com isso as tensões, tanto com os colonos do Norte, que não aceitavam bem a interferência da Inglaterra em sua terra, quanto com os do Sul, que passaram a ser cada vez mais explorados pela Metrópole. Nesse contexto, a Inglaterra travou com a França a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), na qual os dois países combateram em suas colônias a fim de disputar as terras da América do Norte, aquelas do território que hoje forma o Canadá e dos Estados Unidos.

A Inglaterra saiu vitoriosa e conquistou para si terras ao norte das Trezes Colônias e no interior da região do Estados Unidos, permitindo que os colonos avançassem seus domínios para o Oeste. Mas a guerra teve um preço alto e a Metrópole inglesa passou a cobrar mais impostos de sua Colônia para melhorar sua situação financeira. Além disso, os norte-americanos haviam sido essenciais na vitória inglesa, sob o comando de um oficial que se destacou pela bravura: George Washington.

Imagem de George Washington feita por Gilbert Stuart (1755-1828) e que, mais tarde, seria usada na cédula de 1 dólar.

Imagem de George Washington feita por Gilbert Stuart (1755-1828) e que, mais tarde, seria usada na cédula de 1 dólar.

Os ingleses impuseram então novos impostos que atingiram em cheio os comerciantes do Norte, que estavam acostumados com o descaso da Coroa em relação aos seus negócios. Em 1764, foi estabelecida a Lei do Açúcar, que taxava o melaço que os norte-americano consumiam e que fazia parte da produção do rum. No ano seguinte, um novo imposto: a Lei do Selo, que impunha a obrigação de que todos os documentos comerciais e jornais deveriam exibir um selo inglês, que seria comprado na Metrópole.

A reação dos colonos a essas novas taxas foi imediata e eles exigiram uma revisão da lei. Era comum, entre os norte-americanos, a crença de que, por não terem representação no Parlamento inglês, onde as leis eram aprovadas, os colonos não deveriam aceitar as decisões que diziam respeito à cobrança de impostos. A palavra de ordem era No taxation without representantion (Nenhum imposto sem representação). Diante dessa pressão, os ingleses revogaram a Lei do Selo, mas impuseram taxas sobre o papel, o vidro, o chumbo e o chá. Mais uma vez, os colonos reagiram e a Coroa voltou atrás na maior parte dos impostos, menos naquele que dizia respeito ao chá.

Em 1773, foi concedida à Companhia Inglesa das Índias o monopólio da venda de chá em todas as colônias inglesas. Essa medida afetou enormemente os negócios norte-americanos, que passaram a contrabandear o item. Para demonstrar seu descontentamento, um grupo de colonos disfarçado de índios abordou um navio ancorado no porto de Boston e jogaram uma quantidade enorme de chá ao mar. O episódio ficou conhecido como Festa do Chá de Boston.

A chamada Festa do Chá de Boston, representada na litogravura de 1846.

A chamada Festa do Chá de Boston, representada na litogravura de 1846.

Os ingleses reagiram e passaram a promulgar novas leis que ficaram conhecidas, nas Treze Colônias, como Leis Intoleráveis, ao longo do ano de 1774. Uma delas fechava o porto de Boston até que os colonos cobrissem o prejuízo causado pelo chá jogado ao mar; outra, substituía autoridades e funcionários que haviam sido eleitos pelos colonos por funcionários escolhidos pela Coroa inglesa.

No mesmo ano de 1774, os colonos se reuniram na cidade de Filadélfia para discutir a situação e pedir o fim dos entraves ao desenvolvimento da colônia. O encontro ficou conhecido como Primeiro Congresso Continental. Ao mesmo tempo, formaram-se comitês de correspondência, reuniram-se armas e treinaram-se milícias a fim de reagir a uma suposta agressão da Metrópole diante das exigências dos norte-americanos. Assim, as medidas impositivas da Coroa colocou colonos do Norte e do Sul juntos na ideia de recusar a interferência e a opressão dos colonizadores.

O Congresso da Filadélfia de 1776. Obra de John Trumbull, New Haven, Universidade de Yale, EUA.

O Congresso da Filadélfia de 1776. Obra de John Trumbull, New Haven, Universidade de Yale, EUA.

Os britânicos não gostaram nada dessa atitude e, em abril de 1775, os conflitos tiveram início e assim, começou a Guerra de Independência ou a Revolução Americana, como também é conhecido esse processo.

O governo inglês continuava intransigente com as exigências americanas e os colonos então reuniram-se, em 1776, no Segundo Congresso Continental e, nessa ocasião, redigiram um documento preparado por Thomas Jefferson: a Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos da América. Este significou a criação de um novo país em 4 de julho de 1776. Mas, para conquistar efetivamente sua independência, os norte-americanos tiveram ainda um longo conflito até 1783. George Washington, que havia lutado ao lado dos ingleses na guerra contra a França, atuou como comandante do exército revolucionário e conquistou grandes vitórias, mas devido ao enorme poder econômico dos ingleses, esses estavam ainda na frente dos colonos.

Guerra de Independência

Guerra de Independência

Diante da discrepância do armamento e da preparação dos dois exércitos, a França, grande inimiga da Inglaterra, interviu em favor dos colonos e passou a fornecer dinheiro e armas. Em 1778, os franceses envolveram-se diretamente no conflito enviando homens para a luta.

Em 1779, a Espanha também declarou guerra à Inglaterra a fim de pressioná-la a reconhecer a independência das Treze Colônias. No ano seguinte, a Holanda fez o mesmo e, em outubro de 1781, os exércitos americanos já haviam capitulado os ingleses em Yorktown, mas o reconhecimento da independência só se deu em 1783, quando foi assinado o Tratado de Versalhes.

Logo depois, em 1787, foi aprovada a Constituição americana, que consagrava os princípios republicanos e federalistas e George Washington foi eleito o primeiro presidente em 1789.

Até então, as antigas colônias estavam divididas sobre questões territoriais, de comércio e da autonomia política. Para o estabelecimento do texto constitucional, houve muita tensão e discussões até que os representantes de todos os Estados, superando as divergências, elaborassem a Constituição e organizassem um governo federal adequado às diferentes realidades regionais. O conjunto de leis do novo país tinha que resolver o problema de fortalecer o poder central sem enfraquecer os diferentes Estados. Assim, ficou estabelecido que o governo central comandaria a política externa, a defesa, o comércio exterior e os Estados seriam responsáveis por todas as outras questões. Impunha-se, dessa forma, o federalismo.

A Constituição americana também estabelecia o poder tripartite, ou seja, seria dividido em Poder Executivo, Legislativo e Judiciário, sendo cada um indiretamente controlado pelo outro. Tal decisão foi tomada por receio de uma centralização executiva.

Por terem se recusado a dispor de antemão sobre eventualidades futuras, os constituintes americanos acabaram redigindo um texto que oferece extensa margem a interpretações. Com isso, a Constituição americana é breve, mas ainda hoje está em vigor, com pouquíssimas alterações. A título de exemplo, o Brasil já teve 6 textos constitucionais diferentes.

É importante destacar também o papel da independência dos Estados Unidos tanto para a América, pois serviu de exemplo para lutas independentistas, quanto para a Europa, pois a participação dos franceses na luta serviu como um exemplo para os revolucionários franceses de 1789, na medida em que proclamou o direito à resistência contra um governo opressivo.

Ligia Lopes Fornazieri

Ana Carolina Machado

Para saber mais:

KARNAL, Leandro (org.). História dos Estados Unidos – das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2010.

Filme: O Patriota (2000, EUA, dir: Roland Emmerich). 

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Uma resposta para Independência dos Estados Unidos

  1. Ju Uezu disse:

    Excelente. Me ajudaram demais!!😀
    Aproveito para parabenizar pela iniciativa. o blog está show! Muito sucesso

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