Imigração no Brasil

Até o fim do período colonial, a entrada e fixação de estrangeiros no Brasil sempre foi motivo de preocupação por parte das autoridades portuguesas. Isso porque o processo de ocupação das terras pelos colonizadores portugueses foi constantemente pautado por disputas com outras nações europeias. Sobre isso, é importante lembrar os vários episódios de invasões à costa brasileira por holandeses e franceses durante o os séculos XVI e XVII. Durante o século XVIII, a preocupação com relação aos estrangeiros era ainda maior em regiões estratégicas ou fontes de riquezas, como era o caso das terras de Minas Gerais. Nesses casos, a presença de estrangeiros era regulada, vigiada e até mesmo proibida.

Com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido à Portugal e Algarves, uma série de decretos passou a regular a fixação de estrangeiros (especialmente açorianos, suíços e germânicos), com o objetivo de colonizar terras e dinamizar a economia. No período posterior à Independência, na década de 1820, houve uma tentativa do governo imperial de colonizar o Sul do país trazendo alemães. Entre 1824 e 1830, entraram cerca de 7 mil alemães que se destinaram às terras abertas do Sul. Nessa experiência,  o governo imperial subsidiava a vinda desses colonos. Mas, em 1830, essa iniciativa foi interrompida por uma lei que proibia despesas com a imigração estrangeira.

O projeto, no entanto, foi retomado em 1845, com a fundação de colônias alemãs no Sul, no Rio de Janeiro (em Petrópolis) e no Espírito Santo. Essas iniciativas estavam relacionadas à preocupação com a ocupação das terras, com a consolidação do território, com o desenvolvimento de novas culturas agrícolas e com a necessidade de substituição da mão-de-obra, uma vez que o tráfico de escravos foi proibido em 1850.

Com esses objetivos, nas primeiras décadas pós-Independência, surgiram inúmeros Núcleos Coloniais, que, com o passar do tempo, acabaram dando origem a cidades como Petrópolis (RJ), Blumenau (SC), Florianópolis (SC), São Francisco do Sul (RS), entre outras.

Se num primeiro momento o objetivo maior do incentivo à imigração tinha a ver com interesses de ocupação de terras, a partir da expansão da cafeicultura na região Sudeste, houve uma ressignificação para a entrada e fixação de estrangeiros no país. Nesse contexto, em 1845, o senador Nicolau Vergueiro propôs o sistema de parceria.

imigração

Colonizadores italianos no Rio Grande do Sul

Nesse sistema, os trabalhadores europeus teriam suas despesas de viagem e instalação pagas por firmas agenciadoras. Após um prazo determinados, os colonos deveriam ressarcir as agências, pagando juros de 6% ao ano. Nas fazendas, os colonos e suas famílias recebiam alguns pés de café, além de ter a permissão de utilizar parte da terra para cultivo de gêneros alimentícios para subsistência.

Os lucros obtidos com a produção de café e de excedentes deveriam ser divididos entre os colonos e os proprietários da fazenda, que se encarregariam de comercializar os produtos. Nesse ponto, o sistema de parceria do Brasil diferia daquele utilizado na Europa, onde a responsabilidade pela comercialização da produção era do próprio colono.

A única firma agenciadora criada nesse período foi a Vergueiro e Cia, e ela foi beneficiada pelo governo brasileiro para desempenhar essa função. É importante destacar que, ainda que os imigrantes ficassem obrigados ao pagamento de juros pelos recursos que lhes eram adiantados, o Tesouro do Império também emprestou dinheiros a Vergueiro durante três anos.

Em 1847, o senador ainda criou, em sua fazenda, a Ibicaba, em Limeira, a primeira colônia de trabalhadores estrangeiros que tinham ingresso no Brasil e a partir do novo projeto imigracionista.

Essa experiência levada a cabo por Vergueiro representou uma nova perspectiva para a imigração, na medida em que deslocava sua relação com a colonização. Assim, na Fazenda Ibicaba, a inserção de estrangeiros relacionava-se unicamente com a finalidade de substituição da mão-de-obra escravizada. Os novos trabalhadores, vindo especialmente de países europeus, foram inseridos numa lógica moderna de desenvolvimento de relações capitalistas no campo, visando ao aumento do lucro dos donos da fazenda e tendo como contrapartida aos trabalhadores a oferta, ainda que precária, de moradia e remuneração.

Devido à precariedade da situação dos estrangeiros, não só em Ibicaba, como em várias fazendas no interior do país, foram comuns as fugas e revoltas em virtude dos maus tratos e das péssimas condições a que eram submetidos os imigrantes recém-chegados.

ibicaba

Fazenda Ibicaba em Limeira

Com a abolição paulatina da escravidão no Brasil, o aumento da produção cafeeira, a dinamização do transporte ferroviário e o interesse do Estado na criação de uma política imigratória com vistas ao “branqueamento” da população, foram dados novos significados à noção de imigração, o que acabou por reorientar a política imigratória oficial. A implantação da República permitiu ao governo paulista promover uma política de subsídios para a vinda de imigrantes para o estado. A iniciativa oficial incluía a oferta de passagens até São Paulo (a partir de portos europeus), além de hospedagem e transporte até as propriedades dos cafeicultores no interior.  As autoridades paulistas também se tornaram responsáveis pela propaganda brasileira nos países da Europa e por firmar acordos com os governos de países como Itália, Alemanha, Japão, entre outros.

Essa política governamental acabou estimulando novos e variados fluxos imigratórios para a região de São Paulo, que não se destinavam, necessariamente, à cafeicultura, como por exemplo, a entrada no Brasil, de sírios e libaneses, que vieram para se dedicar ao comércio. Além disso, é importante ressaltar que muitos imigrantes instalados nas fazendas de café, em dado momento, acabavam migrando para a capital em busca de novas oportunidades e muitos deles se inseriram nas atividades urbanas e industriais que se desenvolviam na cidade.

Núcleos Coloniais

Entre os anos 1890 e 1940, como parte da política imigratória, do estado de São Paulo, a Secretaria de Agricultura se empenhou na criação de Núcleos Coloniais no interior do estado. Tal iniciativa visava à formação de um contingente de trabalhadores para o café. Assim, instalavam-se grupos de imigrantes em terras próximas às fazendas para que eles servissem de mão-de-obra.

Nesse período, houve também a formação de Colônias, que eram iniciativas privadas de empresas que investiam na especulação fundiária. Assim, eles loteavam áreas em várias regiões do estado e vendiam pequenos lotes aos imigrantes. Foi a partir de iniciativas desse tipo que surgiram cidades como Holambra,  que foi uma colônia holandesa, e Registro, formada inicialmente por uma colônia japonesa.

Ambos os casos de formações imigrantes, Núcleos e Colônias, representavam oportunidades para que os imigrantes pudessem adquirir uma propriedade e, com isso, procurar reproduzir um modo de vida camponês que não era totalmente atrelado à cafeicultura.

Um importante passo para a organização de uma política de imigração do estado se deu com a construção de hospedarias, que eram estruturas comuns no processo de saída e chegada de imigrantes nos países. Eram localizadas próximas aos portos ou em ilhas e concentravam os trâmites de documentação, inspeção médico-sanitária (vale lembrar que essa era uma época de grandes epidemias), registro e encaminhamento para os locais de trabalho.

Em 1886, iniciou-se a construção de um espaço desse tipo na região do Brás, no cruzamento dos trilhos de 2 ferrovias: a Central do Brasil, que vinha do Rio de Janeiro, e a São Paulo Railway, que ligava as cidades de Santos e Jundiaí. Logo em 1887, antes mesmo de terminada, a Hospedaria do Brás recebeu o primeiro grupo de imigrantes.

hospedaria

Imigrantes em frente à Hospedaria do Brás

Ao longo de sua existência, entre 1887 e 1978, a hospedaria recebeu mais de 2,5 milhões de pessoas. Mas não foram apenas imigrantes estrangeiros, pois lá foi também um ponto de chegada de muitos trabalhadores de outros estados brasileiros, a partir de 1930. Na década de 1970, o prédio perdeu sua função original e o último grupo de imigrantes que chegou ali foi em 1978.

Ligia Lopes Fornazieri

Bibliografia

PAIVA, Odair da Cruz. Histórias da (I)migração: Imigrantes e migrantes em São Paulo entre o final do século XIX e início do século XXI. São Paulo: Arquivo Público do Estado, 2013.

Saiba mais:

A antiga hospedaria do Brás hoje abriga um interessante museu chamado Museu da Imigração, que tem como objetivo principal a reflexão sobre os processos migratórios no país. Conheça!

 

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