O florescimento do Renascimento artístico: O concurso da porta do Batistério

O período conhecido como Renascimento, entre os séculos XV e XVIII é tido como um momento de rupturas e inovações na política, na economia, na cultura e nas artes. Desde o século XIV, durante o que os italianos chamam de Trecentos, ou seja, os anos 1300, alguns artistas, como Giotto (1267-1337) e Arnolfo di Cambio (1240-1310), já vinham apresentando inovações na pintura e na arquitetura, como o esboço de desenhos com perspectiva (assunto que, mais tarde, viria se tornar uma das maiores “invenções” do Renascimento). Mas foi no nascer do século XV, ou início do Quattrocento, que se marca o início do Renascimento cultural florentino.

É importante destacar que Florença foi o palco principal desse movimento de renovação artística na península itálica. Posteriormente, as novas ideias foram se alastrando por parte da Europa.

Se é difícil apontar uma data ou um momento preciso para o início do período conhecido como Renascimento, é fácil destacar uma data em que esse novo pensamento surgiu nas artes: 1401, com o concurso para a Porta do Batistério San Giovanni de Florença.

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Batistério de San Giovanni e ao fundo a Catedral Santa Maria del Fiori de Florença

Esse edifício, que servia como espaço de batismo para os católicos e que era dedicado a São João Batista, encontra-se em frente à Catedral Santa Maria del Fiore. Acredita-se que tal edifício foi construído sobre as ruínas de um templo romano dedicado à Marte. O certo é que por volta do ano 1000, ele foi reconstruído e ampliado no estilo românico.

Como acesso ao Batistério, existem três portas (ao norte, ao sul e a leste) que, inicialmente, eram de madeira. Em 1330, uma delas, a sul, foi construída em bronze, por Andrea di Pisano, que a elaborou em estilo gótico, com 28 painéis emoldurados por quatrifólios e que contam a história de João Batista e trazem representações das virtudes.

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Porta Sul de Andrea di Pisano

Entre 1400 e 1401, aconteceu o concurso que visava eleger o artista responsável por elaborar a porta leste do edifício. Grandes nomes participaram e o grande embate ficou entre Lorenzo Ghiberti (1378-1455) e Filippo Brunelleschi (1377-1446). A obra com as quais eles participaram foi uma representação da passagem bíblica do “Sacrifício de Isaac”.

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Brunelleschi. Sacrifício de Isaac. Bronze dourado, 45×38 cm. Museo del Baregello, Florença

 

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Ghiberti. Sacrifício de Isaac. Bronze dourado, 45×38 cm. Museo del Baregello, Florença

Em ambos, pode-se perceber uma nova forma de representação, na qual se procura apresentar os personagens dentro de um espaço. Enquanto que Ghiberti descreve o espaço em uma sucessão de planos e episódios, Brunelleschi o constrói com simultaneidade dos movimentos. No primeiro, há uma preocupação maior com o estudo da Antiguidade Clássica (uma das características fundamentais do Renascimento), o que era muito apreciado pelos grandes estudiosos da época. Na obra de Ghiberti, pode-se perceber que o torso de Isaac é muito semelhante às esculturas romanas. Além disso, é interessante notar o realismo das figuras representadas: os corpos estão todos retorcidos, como se estivessem em pleno movimento, enquanto que Brunelleschi optou por apresentar seus personagens somente de perfil.

Por ser mais condizente com os propósitos da época, Ghiberti foi escolhido como vencedor. No entanto, é importante destacar o trabalho de Brunelleschi, já que nele pode-se vislumbrar sua noção de espaço perspético, que mais tarde ele iria aprimorar e revolucionar a arquitetura.

Depois de finalizada a porta a que ele havia sido destinada, na qual em 28 painéis foram representados trechos do Novo Testamento, Ghiberti foi convidado para elaborar mais uma porta, dessa vez, a leste. Nesse trabalho, que já não era limitado por regras pré-concebidas e já sob o clima renascentista, o artista florentino fez um trabalho ainda mais complexo. Nessa nova porta, os painéis, maiores, não foram emoldurados pelos quatrifólios , neles, Ghiberti pôde aprimorar sua noção de perspectiva.

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Ghiberti. Porta do Paraíso, Florença.

Foram 10 painéis que retratam histórias do Antigo Testamento, mas que com inovações, como a técnica de representação em baixo relevo (no qual as formas não ultrapassam os limites da visão frontal), acabam apresentando diferentes cenas em um mesmo painel. Ao redor deles, encontram-se 24 pequenos bustos de bronze que retratam os célebres florentinos da época. No centro da porta, pode-se ver retratos também do próprio Ghiberti e de seu pai.

No painel que representa a história de José, pode-se perceber características que marcam tanto as representações dessa obra quanto o espírito renascentista. Além disso, ele colocou em prática uma técnica que vinha sendo utilizada naquele período do “relievo schiacciato”, que significa que o artista, para representar a ocupação do espaço, apresentou uma transição entre formas em relevo pleno, em primeiro plano, e formas cada vez mais pictóricas e menos nítidas ao fundo.

Florence - Baptistery , Panel of the Door of Paradise

Ghiberti. Painel História de José. Porta do Paraíso

Para realizar essa grande obra, que demorou 26 anos, entre 1426 e 1452, o florentino contou com o auxílio de inúmeros artistas, entre eles, destaca-se o grande escultor Donatello. Apesar de poder se considerar que essa foi uma obra coletiva, os estudiosos atuais não conseguem distinguir diferenças que mostrem a personalidade de outros artistas, além de Ghiberti.

Depois de pronta e apresentada ao público, Michelangelo, outro grande artista da época, batizou a obra de Ghiberti de “Porta do Paraíso” por conta de sua grande beleza e importância. Hoje, ela pode ser contemplada no Museo dell’Opera del Doumo, e uma cópia continua no Batistério de origem.

Ligia Lopes Fornazieri

Dica:

WALKER, Paul Robert. A disputa que mudou a Renascença. Rio de Janeiro: Record, 2005. – Romance que mostra a disputa entre Ghiberti e Brunelleschi para a elaboração dos painéis da porta do Batistério de Florença.

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