Black Power nos Estados Unidos: o movimento por direitos civis.

A década de 1960 foi um período de muitas transformações, o mundo estava envolto numa intensa instabilidade e radicalismos gerados pela Guerra Fria. O planeta encontrava-se dividido entre o bloco capitalista, conduzido pelos Estados Unidos, e o socialista, liderado pela União Soviética. Essa década foi uma época de muitas incertezas e de profundas mudanças sociais, políticas e culturais; assistiu-se ao nascimento de ditaduras civil-militares na América Latina, a Guerra do Vietnã; a consolidação da Revolução Cubana  e da Revolução Cultural Chinesa, o crescimento de movimentos sociais como a Primavera de Praga, o Maio de 1968 na França e o Black Power nos Estados Unidos.

Este post será dedicado ao surgimento de um movimento político, social e cultural nomeado de Black Power. Assim como no Brasil, os Estados Unidos tiveram uma colonização escravagista e a situação dos negros não mudou muito após a proibição da escravidão, durante a Guerra Civil Norte-Americana, uma vez que não fora criado nenhum plano de integração social e econômica para essa população. Sendo assim, o fim da escravidão não trouxe melhoras significativas para os negros, pois estes continuaram às margens da sociedade e, até 1964, ano do decreto da Lei dos Direitos Civis, eles não eram considerados iguais aos brancos perante as leis estadunidenses, e a segregação racial no país era institucionalizada.

No ano de 1955, Rosa Parks, uma jovem negra, foi presa no Estado do Alabama por não ceder seu lugar no ônibus para um homem branco que estava de pé, como previa a lei do Estado sulista. O caso gerou comoção da comunidade e foi o estopim para um movimento de boicote ao transporte público de Montgonery liderado por Martin Luther King. O boicote durou mais de 300 dias e teve como desfecho a conquista do fim da segregação racial nos transportes públicos do Estado do Alabama. A liderança de Luther King no caso de Rosa o projetou nacionalmente e tornou-o um dos principais nomes da luta pelo fim da segregação e pelos direitos humanos. Em 28 de agosto de 1963, Luther King reuniu mais de 250 mil pessoas em frente ao Memorial Lincoln, em Washington, em um ato pacífico que entraria para a história dos Estados Unidos, King proferiu um discurso que pregava um país e um mundo com igualdade racial. No ano seguinte, em 1964, o movimento negro alcançou uma grande vitória, foi decretada a Lei de Direitos Civis, que proibia a discriminação contra os negros.

luther

Martin Luther King

O decreto da lei foi uma grande conquista, não se pode negar, porém uma lei, infelizmente, não tem o poder de mudar a mentalidade que foi construída ao longo de séculos. Apesar dela, a discriminação e os atos de violência contra os negros continuaram, movimentos racistas como a Ku Klux Klan surgiam sempre com muita força e provocava ondas de violência contra os negros. Em 21 de fevereiro de 1965, por exemplo, um dos principais líderes negros da luta por diretos civis, Malcom X, foi assassinado em Nova York, o que gerou ainda mais insatisfação. Perante a lei, negros e brancos desfrutavam dos mesmos direitos, mas a realidade não refletia isso, por isso, em 1966, a comunidade de Oakland, no Estado da Califórnia, decidiu criar uma maneira de proteger-se das arbitrariedades que lhes eram constantemente impostas e criaram o Black Panther Party for Self-Defense , conhecidos como os Panteras Negras.

pantera

Símbolo do Partido

O partido tinha como principal objetivo patrulhar os guetos negros e proteger seus moradores das brutalidades e dos abusos cometidos pela polícia. Durante as patrulhas os integrantes do partido andavam armados e uniformizados com boinas e camisas pretas. A atuação do partido não estava restrita ao patrulhamento dos guetos e o partido desenvolveu programas de alimentação e assistência médica além de publicarem jornais diários. Em 1968, Martin Luther King foi assassinado na cidade de Memphis, no Tennessee. Sua morte gerou comoção e os protestos contra a opressão e a violência contra os negros tomaram o país inteiro. Os confrontos entre a polícia e os Panteras Negras foram aumentando cada vez mais e o movimento sofreu muitas baixas, suas lideranças foram presas ou mortas o que enfraqueceu o partido logo nos primeiros anos da década de 1970.

Três meses após o assassinato de Luther King, foram realizados os Jogos Olímpicos do México e dois jovens atletas estadunidenses realizaram um protesto simbólico que entrou para história. Os vencedores da prova dos 200 metros rasos, John Carlos e Tommy Smith respectivamente primeiro e terceiro lugares, no momento da cerimônia de premiação, baixaram a cabeça e com as mãos vestindo luvas pretas ergueram os punhos cerrados, gesto que faz referência direta ao grupo Panteras Negras. O ato foi visto no mundo inteiro e os dois atletas enfatizavam que a discriminação contra os negros e que a luta por igualdade continuava.

BLACK+POWER+MEXICO+1968

Atletas nos Jogos Olímpicos do México

Quase cinco décadas depois do protesto simbólico de John Carlos e Tommy Smith, foi a vez do mundo assistir a mais um ato contra a discriminação e a segregação racial nos Estados Unidos. Desta vez, Beyoncé, uma das cantoras mais famosas do mundo, fez uma apresentação no Super Bowl, um dos principais eventos esportivos e uma das maiores audiências televisivas do país e lançou uma música que enaltece a beleza e a força dos negros. A cantora e suas dançarinas apresentaram-se com seus cabelos naturais, vestiram roupas pretas, a coreografia fez menções aos Panteras Negras e a Malcom X. A apresentação de Beyoncé foi simbólica por diversas razões, pois posicionou-se em relação à discriminação e segregação racial no país, por fazê-la em um evento de grandes proporções e, principalmente, por ter reaberto um debate importantíssimo dentro da sociedade estadunidense. A apresentação de Beyoncé assim como o posicionamento de outros artistas negros evidenciam o quanto a segregação racial é uma questão que necessita ser discutida nos Estados Unidos e também em outros países do mundo, como é o caso do Brasil.

Bruna Borges

Beyoncé no Superbowl 2016:

Discurso de Luther King:

História e Cinema

Histórias Cruzadas (2011): https://www.youtube.com/watch?v=Cqn4XN21O1g
Panteras Negras (1995): https://www.youtube.com/watch?v=sKuyDdoo3NI
Mississipi em Chamas (1988): https://www.youtube.com/watch?v=5E41USKzJCI

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