As Olimpíadas de Munique – 1972

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Em 1972, o mundo vivia a expectativa dos 20º Jogos Olímpicos. A cidade de Munique, na então Alemanha Ocidental, foi escolhida como sede, e presenciou as setes medalhas de ouro de Mark Spitz, nadador americano que se tornou um dos maiores vencedores das olimpíadas; a vitória da seleção masculina de basquete da URSS sobre os americanos, pela primeira vez na história dos jogos; e tantos outros desempenhos memoráveis.

Porém, ninguém imaginava que seria por uma ação terrorista que deixou 17 mortos que essa edição seria lembrada.

Na madrugada do dia 05 de setembro, oito membros do grupo-terrorista Setembro Negro, dissidentes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), invadiram os dormitórios da delegação israelense. Fortemente armados, o barulho que provocaram acordou alguns técnicos do primeiro apartamento. Um conseguiu fugir e o outro, Moshe Weinberg, foi ferido no rosto. Mesmo baleado, foi ordenado pelos terroristas a guia-los aos quartos. Resolveu leva-los aos dormitórios de atletas lutadores, como de luta greco-romana, e levantadores de peso, pois imaginou que poderiam interceptar o avanço dos sequestradores. Yossef Romano, por exemplo, era veterano da Guerra dos Seis Dias e conseguiu atacar um dos palestinos, mas foi morto a tiros. Outro atleta, Gad Tsobari correu pela garagem e conseguiu fugir. Weinberg foi novamente alvejado e não resistiu. Ao todo, foram feitos nove reféns: Kehat Shorr, Amitzur Shapira, Andre Spitzer, Yakov Springer, Eliezer Halfin, Mark Slavin, David Berger  e Ze’ev Friedman. Eles foram amarrados, espancados e torturados psicologicamente, mantidos em um cômodo com o corpo de Romano exposto para que compreendessem a seriedade da situação.

Os simbolismos por trás do ataque são enormes. Os últimos jogos ocorridos na Alemanha até aquele momento tinham sido os de 1936, em Berlim, famosos pelas saudações ao führer e pela exploração da propaganda nazista. Munique fica na região da Baviera, berço do nazismo, portanto, em 1972, era latente a vontade de exorcizar esse passado vergonhoso e mostrar a nova nação democrática que nasceu.

 

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Olimpíadas de Berlim – 1936

Os sequestrados eram membros da delegação de Israel. Os sequestradores eram nascidos em países como o Líbano, Síria e Jordânia, e faziam parte de uma facção da OLP que lutava através das armas pela libertação do povo palestino. Palestina e Israel travam uma briga infindável, com invasões, ataques e morte de civis de ambos os lados. Os judeus, como sabido, sofreram com uma das maiores atrocidades cometidas no século XX pelo governo alemão e seus aliados. Os palestinos, por sua vez, foram expulsos das próprias terras pelos judeus e seus aliados com a criação do Estado de Israel. Ou seja, nada em relação ao atentado de 1972 é simples. A bagagem entre as nações envolvidas era extensa e não pode ser descartada.

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A reivindicação para que liberassem os sequestrados era a soltura de 234 prisioneiros em solo israelense e de dois terroristas presos na Alemanha. A hora limite: meio dia. A primeira-ministra israelense Golda Meir, condenou os ataques e manteve a política de não negociação com terroristas, clamando que se cedessem às chantagens, nenhum israelense no mundo se sentiria seguro novamente.

Depois de horas de negociações, os egípcios Magdi Gohary e Mohammad Khadif, membros da Liga Árabe e do Comitê Olímpico Internacional, tentaram convencer o líder e porta voz do grupo a libertar os atletas. O Setembro Negro fez outra ameaça: a cada hora passada do limite, eles executariam publicamente uma pessoa. O governo da Baviera ofereceu uma quantidade ilimitada de dinheiro para que os reféns fossem liberados, mas a resposta também foi negativa.

Protestos se formavam em várias partes do mundo para que o Comitê Olímpico direcionasse todos seus esforços para a solução da crise. Os jogos só foram cancelados após quase 12 horas do sequestro e muita pressão internacional.

Israel tentou mandar uma força-tarefa especializada em terrorismo (Mossad) para lidar com a situação, já que os esforços alemães eram infrutíferos, mas tiveram a autorização negada. Devido a leis militares, o Exército da Alemanha Ocidental não poderia interferir nas ações. Além disso, o mundo descobriu que não possuíam um esquadrão (paralelo ao Exército, à Marinha e à Aeronáutica, como EUA e Inglaterra, por exemplo) treinado a lidar com crises dessa magnitude. A imagem que o mundo via até então era a de um país em pleno vigor, se recuperando dos horrores da guerra e de uma separação arbitrária de território. Contudo, o que foi exposto era uma polícia e governantes despreparados.

Perto do limite do tempo estipulado (que havia sido prorrogado em cinco horas), guardas alemães se voluntariaram a invadir o local. Vestidos como atletas, se reuniram nos telhados e varandas próximas, em uma operação que era televisionada para o mundo todo. E esse foi o problema. Nos quartos dos atletas havia tvs, e os sequestradores acompanhavam ao vivo os movimentos. A tentativa foi cancelada após ameaçarem matar dois reféns.

Ao perceberem que suas demandas não seriam atendidas e após conversas com os oficiais alemães, os terroristas mudaram a estratégia e exigiram transporte direto para o Cairo. Dois helicópteros foram disponibilizados para leva-los à base aérea de Fürstenfeldbruck, pertencente à OTAN (Organização do Tratado de Atlântico Norte), onde embarcariam em um Boeing 727. Houve aí uma brecha para a recuperação dos reféns. As autoridades alemãs resolveram emboscar os palestinos e utilizar os atiradores de elite para deter os que tentassem matar os atletas. Além disso, na aeronave haveria um time de policiais travestidos de tripulação, para capturar os agressores e acabar com situação insustentável.

Os oficiais se mostraram totalmente despreparados para a crise, novamente. Quando os líderes terroristas exigiram fiscalizar o caminho que percorreriam e as aeronaves que adentrariam, a polícia alemã foi pega de surpresa, ordenando a saída desenfreada de seus homens. Os atiradores não eram treinados e preparados, foram escolhidos apenas por terem alguma prática com tiro. A cúpula da Mossad foi deixada de lado e não foi consultada durante toda a operação. Os alemães preparavam um resgate monumental sem informações exatas, como a quantidade de sequestradores, que foi somente descoberta quando palestinos e israelenses embarcaram nos helicópteros.

Durante o voo até a base da OTAN, a polícia alemã disfarçada de tripulação, resolveu abandonar o posto, sem consultar o comando da operação. Naquele momento, o poder de contenção estava nas mãos dos atiradores. Ao pousarem, dois dos principais membros terroristas foram inspecionar o caminho para a aeronave. No trajeto, um dos atiradores resolveu acertar o líder do grupo. Devido às péssimas condições de luz e ao pouco treinamento, o tiro acertou o outro membro, dando início ao massacre. Os atletas, amarrados nos helicópteros, foram executados pelos terroristas. Uma das naves foi explodida por uma granada, carbonizando os corpos a ponto de não serem identificados. Somente três sequestradores sobreviveram, e no total, cinco atletas, seis treinadores, um policial alemão e cinco membros do Setembro Negro morreram.

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Placa memorial em frente aos apartamentos da delegação israelense em Munique

Os cinco terroristas mortos tiveram seus corpos transportados para a Líbia, onde foram recebidos com condecorações e honras. Os que sobreviveram foram mantidos prisioneiros em Munique. Em outubro de 1972, um avião da Luftansa foi sequestrado com a exigência de que fossem libertados. O governo alemão cedeu e os prisioneiros soltos também foram recebidos como heróis na Líbia.

O que se viu depois disso foi uma série de ataques e bombardeios por ambos os lados. Israel atacou a Palestina e países vizinhos e foi atacado de volta. Nada diferente do que acontece até hoje.

Os países europeus iniciaram uma contra ofensiva ao terrorismo. O governo alemão paga até hoje indenizações às famílias dos que sofreram essa barbaridade. Logo após o incidente, a Alemanha Ocidental deu início ao GSC 9, uma instituição policial de elite especializada em crises como essa.

Paz e Irmandade são os ideais olímpicos, um momento em que nações em guerra, inimigas e amigas possam confraternizar ao longo daqueles dias de competições. Os Jogos nunca mais foram os mesmos. Em 1972, um cerimonial foi realizado em memória dos mortos e feridos, mas a indignação continua.

Hoje vemos metrôs, aeroportos, casas de show, prédios comerciais, zonas residenciais, do Oriente e do Ocidente serem explodidas, obrigando a migração de milhares de pessoas. Tudo documentado. Mas será que muda?

Ana Carolina Machado

Dicas:

  • Documentário: One day in September (1999)

  • Filme: Munique (2005)

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Uma resposta para As Olimpíadas de Munique – 1972

  1. Olá parabéns pelo site, encontrei conteúdos de qualidade e temas muito interessantes.
    Recomendo demais.

    Abraços.
    Andréia

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