O Genocídio Armênio

A história mundial é marcada por fatos tristes e muitas vezes criminosos, hoje vamos abordar mais um destes momentos difíceis, o genocídio armênio. O extermínio sistemático de armênios ocorreu entre os anos de 1915 e 1923 e teve seu ápice durante a Primeira Guerra Mundial, com a morte de aproximadamente um milhão de armênios mortos. O Império Otomano era composto por várias minorias étnicas, inclusive pelos armênios que historicamente ocupavam a região da chamada Ásia Menor e eram predominantemente cristãos. É preciso manter a questão religiosa e territorial em mente para entender as motivações do genocídio.

Já no final do século XIX, o Império Otomano se encontrava enfraquecido pelas constantes perdas territoriais, a elite otomana temia que a fração oriental do império (Ásia Menor) se tornasse independente como aconteceu com a região dos Balcãs. Sendo assim, a área habitada pelos armênios era a mesma que o império buscava proteger, pois a região era importante e estratégica dentro do contexto da Primeira Guerra Mundial, uma vez que se tratava de uma área fronteiriça entre os Impérios Otomano e Russo.

mapa

A proximidade da região com o Império Russo tornou inevitável o contato dos armênios com os russos. Isso gerou uma ligação entre estes povos, que partilhavam características culturais similares como, por exemplo, a religião. Tanto os armênios quanto os russos eram predominantemente cristãos ortodoxos, sendo assim, muitos  se identificavam mais com os russos do que com os otomanos. Esta ligação fez com que muitos armênios, durante a Primeira Guerra Mundial, combatessem ao lado das tropas russas czaristas contra o Império Otomano. Segundo as lideranças do império, as derrotas das tropas otomanas nas batalhas da Campanha do Cáucaso, iniciada em outubro de 1914, foram atribuídas à ajuda armênia ao exército russo.

Após esta derrota os armênios passaram a ser considerados inimigos internos do Império Otomano e deveriam ser eliminados. A ajuda armênia aos russos foi a desculpa que as lideranças otomanas usaram para iniciar a perseguição à esta minoria e garantir assim sua soberania na região. A partir deste ponto foi intensificada, no Império, o movimento político do panturquismo, que buscava valorizar os povos turcos e seus descentes em detrimento de outras etnias, principalmente aquelas cristãs como os armênios, gregos e assírios. Uma destas políticas foi a aprovação de Atos de Deportação em zonas de guerra.

Em relação aos armênios, foi criado um plano de extermínio que começou a ser executado em janeiro de 1915. Já em 24 de abril daquele ano, 250 líderes comunitários e intelectuais foram presos em Constantinopla, capital otomana. A partir deste dia, tropas imperiais se dirigiram para as cidades e vilas da Ásia Menor, obrigando as famílias armênias a deixarem suas casas. Estas tropas estavam munidas de ordens de deportação, assinadas pelo sultão, que alegava que a área deveria ser esvaziada, pois aquela era uma zona de guerra.

As famílias deixavam suas casas e passavam a integrar as chamadas caravanas de deportados rumo, aos desertos da região. Centenas de milhares morreram no caminho por fome, sede, inanição, moléstias ou assassinados pelas tropas imperiais ou paramilitares, principalmente curdas. Vale ressaltar que grande parte dos armênios mortos era composta por crianças e mulheres, pois os homens foram destacados para os campos de batalha ou para campos de trabalhos forçados servindo como mão-de-obra escrava para construção de estradas como, por exemplo, a Berlim-Bagdá.

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Foto do acervo do Museu Genocídio Armênio, pertencente à Coleção do miliar russo Parakhodov.

A morte de armênios durante o deslocamento forçado foi divulgado pelo império como mortes decorrentes do cenário de guerra. Assim como o Império Otomano nunca assumiu a responsabilidade pelo projeto de extermínio armênio, a República da Turquia, nega que tenha existido o genocídio. O governo turco reafirma a justificativa otomana de que estes armênios morreram em decorrência da guerra e não vítimas de um extermínio sistemático projetado pelas lideranças otomanas. Até os dias de hoje, o Estado Turco toma medidas autoritárias para barrar pessoas que apoiam e/ou são solidárias às reivindicações armênias, com a aplicação do artigo 301 do Código Penal Turco que pune com prisão àqueles que ofendem os valores da nação turca, ou seja, qualquer pessoa que afirmar que o Império Otomano ou o Estado Turco, herdeiro do império, foi responsável pelo genocídio por responder criminalmente pelo ato de ofensa à Turquia.

O Brasil recebeu muitos armênios que deixaram o Império Otomano por conta das perseguições a esta minoria. Aproximadamente 25 mil armênios encontraram refúgio no país, concentrando-se, principalmente na cidade de São Paulo, onde formaram uma comunidade forte e unida. Como homenagem a estes imigrantes, no ano de 1985, uma estação do Metrô da cidade de São Paulo ganhou o nome de Armênia. Próxima a esta estação há a Igreja Apostólica Armênia São Jorge, uma construção belíssima e símbolo da força e união desses imigrantes.

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Igreja Apostólica Armênia São Jorge – São Paulo -SP

Ainda hoje milhões de armênios lutam pelo reconhecimento mundial do genocídio cometido pelo extinto Império Otomano durante os anos de 1915 e 1923, até hoje pouco mais de 20 países já reconhecem o genocídio. O Brasil não se posicionou oficialmente, pois o reconhecimento do genocídio implicaria em confrontos diplomáticos com a Turquia. Cabem aqui alguns questionamentos, por que alguns genocídios são reconhecidos e outros não? Será justo sobrepor interesses diplomáticos à consciência? Um crime dessa magnitude pode mesmo ser esquecido ou negligenciado por grande parte do mundo?

Bruna Borges

Saiba Mais:

http://www.genocide-museum.am/eng/index.php

 

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