Arte na Antiguidade: as Esculturas Gregas

Quando falamos que Grécia e Roma foram os pilares da civilização ocidental como conhecemos hoje, abarcamos vários aspectos. As organizações políticas e sociais, como a polis e a democracia gregas, foram fundamentais, como já sabemos, mas não podemos nos esquecer da arte.

A arte e a arquitetura grega desenvolveram-se de tal maneira que influenciaram diretamente as construções romanas, e estas, por sua vez, trouxeram outros aspectos que modificaram a história. Nosso foco aqui são as esculturas gregas que, ao atingirem um grau de sofisticação e idealização, conceito muito importante para compreendê-las, foram imitadas, estudadas e reapropriadas em séculos posteriores, seja na Roma Antiga, no Renascimento ou mesmo no século XIX Neoclássico.

A origem da arte produzida na atual Grécia é normalmente remetida à ilha de Creta. E. Gombrich no seu famoso livro História da Arte diz que os reis cretenses possuíam poder suficiente para enviar representantes ao Egito, e estes os teria embasbacado com suas manifestações artísticas. Esse ponto é interessante para problematizarmos a questão das origens, e aqui entramos nas esculturas propriamente ditas. A ideia de uma arte grega “pura”, sem precedentes, é errônea. Sempre há uma inspiração, um período predecessor que traz algum elemento para a construção feita no presente. Ou seja, há sempre um ponto de partida. No Renascimento, por exemplo, os estudos sobre o corpo humano aliados aos exemplos artísticos antigos deram origem a uma manifestação artística e cultural que modificou a nossa tradição. Essa mesma lógica se aplica à Grécia. Os primeiros escultores, que surgiram em meados do século VII a. C., partiram dos modelos egípcios e assírios para fazer sua arte.

Figura 1 - Miquerinos e a Rainha, de Gizé. c. 2470 a.C. Xisto. Museum of Fine Arts, Boston

Figura 1 – Miquerinos e a Rainha, de Gizé. c. 2470 a.C. Xisto. Museum of Fine Arts, Boston

Figura 2 - Os irmãos Cleobis e Biton, de Polímedes de Argos, c. 590-580 a.C. Museu de Delfos.

Figura 2 – Os irmãos Cleobis e Biton, de Polímedes de Argos, c. 590-580 a.C. Museu de Delfos.

A escultura de Polímedes (figura 2) foi inserida no chamado Estilo Arcaico, sendo denominada kouros (o homem jovem, sempre esculpido nu) e kouré (a mulher jovem, sempre vestida). Esse estilo demonstrava um estudo na tradição egípcia de representar o corpo humano: a silhueta delgada, punhos cerrados e a perna esquerda a frente, por exemplo. O que os historiadores da arte discutem é que já havia uma preocupação com a representação do homem a partir de um ponto de vista próprio, introduzindo a subjetividade do autor para a obra. Portanto, não só o conhecimento técnico seria primordial, mas também o olhar do artista que poderia ser visto nos pequenos detalhes, como um sorriso.

Figura 3 - Moscóforo – 560 a. C.

Figura 3 – Moscóforo – 560 a. C.

A rigidez da tradição da estatuária egípcia foi sendo deixada de lado ao longo do tempo. Como qualquer aspecto humano, a arte está imersa em sua historicidade. A Grécia passou por vários níveis de desenvolvimento social, político, econômico, cultural e religioso que foram fundamentais para as artes.

A democracia ateniense marcou o apogeu artístico grego. Os artistas mudaram suas abordagens na representação do corpo humano ao estuda-lo diretamente, produzindo estátuas cada vez mais semelhantes ao homem. É o período do Estilo Clássico, em voga entre os séculos V e IV a. C. Porém, como em vários momentos da História, houve um período de transição entre o Arcaico e o Clássico, o chamado Estilo Severo, no qual a harmonia e sensibilidade ao corpo humano já poderiam ser vistas. O “sorriso arcaico” já não era encontrado, assim como a forma possuía mais movimentação. O grande exemplo, tido como um dos marcos na escultura grega, foi o Efebo de Krítios:

Figura 4 - Efebo de Krítios - c. 480 a. C. – Museu da Acrópole - Atenas

Figura 4 – Efebo de Krítios – c. 480 a. C. – Museu da Acrópole – Atenas

Esculpido em mármore, seu corpo já possui detalhes anatômicos não encontrados nos exemplares anteriores, e lhe dão uma aparência realista. Ao repararmos na peça, percebemos que suas pernas parecem estar contraídas para suportar o peso do corpo. Essa estátua é datada de 480 a. C., época de Péricles e momento em que o templo sagrado encontrado na Acrópole ateniense foi destruído. Assim foi autorizada a construção do que viria ser um dos maiores símbolos gregos: o Parthenon. A escultura era um elemento tão importante para a arquitetura, que foi acrescentada nos frontões do grande templo, sempre contando as origens lendárias da cidade, como a disputa entre Atena e Poseidon no frontão leste, e o nascimento de Atena da cabeça de Zeus, no oeste.

O período Clássico foi a ratificação do uso dos movimentos, do estudo da musculatura e da aproximação com o real que já era flertado no severo. Foi a criação do contrapposto, técnica retomada pelos renascentistas. A rigidez sai para a entrada da naturalidade, perfeição e, sobretudo, proporção. As estatuas pareciam não se sustentar devido à leveza que exalavam e um apoio discreto era inserido na peça.

Figura 5 - Doríforo – Policleto – 450-440 a. C. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles – cópia romana

Figura 5 – Doríforo – Policleto – 450-440 a. C. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles – cópia romana

Outro detalhe que encontramos nesse período é a ideia de uma peça tridimensional. A frontalidade que vemos na obra de Polímedes de Argos já não é representativa na de Policleto.  A escultura passa ser vista e apreciada em todos os seus ângulos, necessitando, assim, de estudos aprofundados de detalhes para que pudessem reproduzir o corpo humano de maneira realista.

Figura 6 - Hermes com Dionísio menino – Praxíteles - c. 350 a. C. Museu Nacional em Olímpia

Figura 6 – Hermes com Dionísio menino – Praxíteles – c. 350 a. C. Museu Nacional em Olímpia

A mulher também foi uma figura recorrente nesse período clássico, e Praxíteles um dos seus maiores escultores. Um detalhe interessante é a erotização feminina em contraposição à virilidade dos homens. A mulher possuía uma beleza etérea, graciosa e sensual e a partir do século IV a. C. essa tradição toma forma. Não que anteriormente não houvesse exemplos de estátuas femininas, mas não com essas características. Por exemplo:

Figura 7 - Atena Parthenos – Fídias c. 438 a. C. cópia romana – Museu Arqueológico Nacional de Atenas

Figura 7 – Atena Parthenos – Fídias c. 438 a. C. cópia romana – Museu Arqueológico Nacional de Atenas

Figura 8 - Afrodite de Cnido, Praxíteles c. 340-330 a. C. cópia romana – Museu do Louvre

Figura 8 – Afrodite de Cnido, Praxíteles c. 340-330 a. C. cópia romana – Museu do Louvre

A Atena criselefantina* de Fídias remete muito mais força e poder do que a de Praxíteles. É claro que a primeira foi feita como representação da patrona da cidade de Atenas e colocada no maior e mais importante templo da cidade, local de rituais e oferendas. Porém, os efeitos da comparação são bons para entendermos as diferenças de estilos e tradição nos períodos. Praxíteles elimina categoricamente a rigidez e solenidade dos deuses, pois a descontração não seria prejudicial à imagem. A beleza imposta nessas figuras atinge ao campo do ideal. Gombrich diz que muitos pensam que os artistas observavam o ser humano e idealizavam a figura que produziam, como que numa foto refeita em photoshop. Ele argumenta, contudo, que os artistas gregos modificavam sim o homem real, pois ninguém atingiria tal grau de perfeição, mas isso nos demonstraria o nível da habilidade e a tradição do olhar de uma época.

Se o estilo clássico exemplificava o auge da democracia ateniense e do desenvolvimento promovido por Péricles, o subsequente era a cara de Alexandre, o Grande. O Estilo Helenístico introduziu um outro ingrediente na perfeita harmonia de Praxíteles e Policleto: o drama. Em um período de conquista de territórios e expansão cultural e política da Grécia, a manifestação artística adquiriu novos contornos. O equilíbrio e o belo ideal deram lugar para o expressionismo e a intensidade dramática. O realismo nas formas foi mantido, as esculturas ainda eram representadas à imagem do homem, mas uma complexidade psicológica, uma cenografia e o naturalismo cotidiano passam a ser retratados. Ou seja, uma nova intencionalidade emerge nesse estilo, tanto na expressão corporal quanto facial, sobretudo com o olhar.

Figura 9 - Laocoonte - Conjunto escultório da Escola de Rodes (Agesandro, Atenodoro, Polidoro) c. 175-50 a.C. – Museu do Vaticano

Figura 9 – Laocoonte – Conjunto escultório da Escola de Rodes (Agesandro, Atenodoro, Polidoro) c. 175-50 a.C. – Museu do Vaticano

A estátua de Laocoonte foi descoberta apenas em 1506, e é um exemplo claro da dramaticidade helenística. Sua história mítica é descrita na Eneida do poeta latino Virgílio. Laocoonte era um sacerdote de Troia que desconfiou do cavalo de madeira enviado de presente pelos gregos. Devido à sua engenhosidade ao perceber a armação, os deuses, que queriam a destruição troiana, enviaram serpentes do mar para estrangula-lo e mata-lo, assim como a seus filhos. A peça acima representa justamente esse momento. O contorce dos músculos do tronco, a posição da cabeça dos filhos, a expressão de horror são características que nos transmite o sofrimento dos personagens.

Outro famoso exemplo é a Vênus de Milo:

Figura 10 - Vênus de Milo – c. séc. II a. C. – Museu do Louvre

Figura 10 – Vênus de Milo – c. séc. II a. C. – Museu do Louvre

Um detalhe interessante é o acabamento da peça. A frente é mais refinada porque era a parte a ser exposta. É bem provável que a Vênus tivesse sido encaixada em um nicho, portanto suas costas não foram muito bem acabadas. O olhar da figura e seu posicionamento, sobretudo seus braços, diferem do da Afrodite de Praxíteles, por exemplo. Apesar dela estar incompleta, pela movimentação do torso é possível vislumbrar sua movimentação.

Vale ressaltar um aspecto importante. Vários exemplos que temos hoje nos museus pelo mundo de esculturas gregas são cópias romanas. Essa prática era muito comum na época, o que protegeu, de certa maneira, o patrimônio artístico e histórico. Os originais se perderam, foram destruídos ao longo do tempo, devido aos inúmeros saques, invasões e mudanças políticas sofridas em território europeu. Muitas das estátuas foram feitas em bronze e as cópias em mármore, o que modificava o acabamento. Apesar de podermos ter uma ideia bem clara de como eram, ainda assim temos que salientar esse detalhe. Isso desperta outra questão primordial: o valor da originalidade das peças. O Doríforo (figura 5) é menos valioso ou importante porque é uma cópia? Qual a reflexão por trás da cópia e do original? Mas isso fica para um próximo post.

*Criselefantina: técnica que se utiliza o ouro e o marfim para esculpir.

Ana Carolina Machado

Dica:

GOMBRICH, E. A História da Arte. RJ: LTC, 1993.

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