As Olimpíadas de Munique – 1972

munique 4

Em 1972, o mundo vivia a expectativa dos 20º Jogos Olímpicos. A cidade de Munique, na então Alemanha Ocidental, foi escolhida como sede, e presenciou as setes medalhas de ouro de Mark Spitz, nadador americano que se tornou um dos maiores vencedores das olimpíadas; a vitória da seleção masculina de basquete da URSS sobre os americanos, pela primeira vez na história dos jogos; e tantos outros desempenhos memoráveis.

Porém, ninguém imaginava que seria por uma ação terrorista que deixou 17 mortos que essa edição seria lembrada.

Na madrugada do dia 05 de setembro, oito membros do grupo-terrorista Setembro Negro, dissidentes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), invadiram os dormitórios da delegação israelense. Fortemente armados, o barulho que provocaram acordou alguns técnicos do primeiro apartamento. Um conseguiu fugir e o outro, Moshe Weinberg, foi ferido no rosto. Mesmo baleado, foi ordenado pelos terroristas a guia-los aos quartos. Resolveu leva-los aos dormitórios de atletas lutadores, como de luta greco-romana, e levantadores de peso, pois imaginou que poderiam interceptar o avanço dos sequestradores. Yossef Romano, por exemplo, era veterano da Guerra dos Seis Dias e conseguiu atacar um dos palestinos, mas foi morto a tiros. Outro atleta, Gad Tsobari correu pela garagem e conseguiu fugir. Weinberg foi novamente alvejado e não resistiu. Ao todo, foram feitos nove reféns: Kehat Shorr, Amitzur Shapira, Andre Spitzer, Yakov Springer, Eliezer Halfin, Mark Slavin, David Berger  e Ze’ev Friedman. Eles foram amarrados, espancados e torturados psicologicamente, mantidos em um cômodo com o corpo de Romano exposto para que compreendessem a seriedade da situação.

Os simbolismos por trás do ataque são enormes. Os últimos jogos ocorridos na Alemanha até aquele momento tinham sido os de 1936, em Berlim, famosos pelas saudações ao führer e pela exploração da propaganda nazista. Munique fica na região da Baviera, berço do nazismo, portanto, em 1972, era latente a vontade de exorcizar esse passado vergonhoso e mostrar a nova nação democrática que nasceu.

 

munique 1

Olimpíadas de Berlim – 1936

Os sequestrados eram membros da delegação de Israel. Os sequestradores eram nascidos em países como o Líbano, Síria e Jordânia, e faziam parte de uma facção da OLP que lutava através das armas pela libertação do povo palestino. Palestina e Israel travam uma briga infindável, com invasões, ataques e morte de civis de ambos os lados. Os judeus, como sabido, sofreram com uma das maiores atrocidades cometidas no século XX pelo governo alemão e seus aliados. Os palestinos, por sua vez, foram expulsos das próprias terras pelos judeus e seus aliados com a criação do Estado de Israel. Ou seja, nada em relação ao atentado de 1972 é simples. A bagagem entre as nações envolvidas era extensa e não pode ser descartada.

munique 2

A reivindicação para que liberassem os sequestrados era a soltura de 234 prisioneiros em solo israelense e de dois terroristas presos na Alemanha. A hora limite: meio dia. A primeira-ministra israelense Golda Meir, condenou os ataques e manteve a política de não negociação com terroristas, clamando que se cedessem às chantagens, nenhum israelense no mundo se sentiria seguro novamente.

Depois de horas de negociações, os egípcios Magdi Gohary e Mohammad Khadif, membros da Liga Árabe e do Comitê Olímpico Internacional, tentaram convencer o líder e porta voz do grupo a libertar os atletas. O Setembro Negro fez outra ameaça: a cada hora passada do limite, eles executariam publicamente uma pessoa. O governo da Baviera ofereceu uma quantidade ilimitada de dinheiro para que os reféns fossem liberados, mas a resposta também foi negativa.

Protestos se formavam em várias partes do mundo para que o Comitê Olímpico direcionasse todos seus esforços para a solução da crise. Os jogos só foram cancelados após quase 12 horas do sequestro e muita pressão internacional.

Israel tentou mandar uma força-tarefa especializada em terrorismo (Mossad) para lidar com a situação, já que os esforços alemães eram infrutíferos, mas tiveram a autorização negada. Devido a leis militares, o Exército da Alemanha Ocidental não poderia interferir nas ações. Além disso, o mundo descobriu que não possuíam um esquadrão (paralelo ao Exército, à Marinha e à Aeronáutica, como EUA e Inglaterra, por exemplo) treinado a lidar com crises dessa magnitude. A imagem que o mundo via até então era a de um país em pleno vigor, se recuperando dos horrores da guerra e de uma separação arbitrária de território. Contudo, o que foi exposto era uma polícia e governantes despreparados.

Perto do limite do tempo estipulado (que havia sido prorrogado em cinco horas), guardas alemães se voluntariaram a invadir o local. Vestidos como atletas, se reuniram nos telhados e varandas próximas, em uma operação que era televisionada para o mundo todo. E esse foi o problema. Nos quartos dos atletas havia tvs, e os sequestradores acompanhavam ao vivo os movimentos. A tentativa foi cancelada após ameaçarem matar dois reféns.

Ao perceberem que suas demandas não seriam atendidas e após conversas com os oficiais alemães, os terroristas mudaram a estratégia e exigiram transporte direto para o Cairo. Dois helicópteros foram disponibilizados para leva-los à base aérea de Fürstenfeldbruck, pertencente à OTAN (Organização do Tratado de Atlântico Norte), onde embarcariam em um Boeing 727. Houve aí uma brecha para a recuperação dos reféns. As autoridades alemãs resolveram emboscar os palestinos e utilizar os atiradores de elite para deter os que tentassem matar os atletas. Além disso, na aeronave haveria um time de policiais travestidos de tripulação, para capturar os agressores e acabar com situação insustentável.

Os oficiais se mostraram totalmente despreparados para a crise, novamente. Quando os líderes terroristas exigiram fiscalizar o caminho que percorreriam e as aeronaves que adentrariam, a polícia alemã foi pega de surpresa, ordenando a saída desenfreada de seus homens. Os atiradores não eram treinados e preparados, foram escolhidos apenas por terem alguma prática com tiro. A cúpula da Mossad foi deixada de lado e não foi consultada durante toda a operação. Os alemães preparavam um resgate monumental sem informações exatas, como a quantidade de sequestradores, que foi somente descoberta quando palestinos e israelenses embarcaram nos helicópteros.

Durante o voo até a base da OTAN, a polícia alemã disfarçada de tripulação, resolveu abandonar o posto, sem consultar o comando da operação. Naquele momento, o poder de contenção estava nas mãos dos atiradores. Ao pousarem, dois dos principais membros terroristas foram inspecionar o caminho para a aeronave. No trajeto, um dos atiradores resolveu acertar o líder do grupo. Devido às péssimas condições de luz e ao pouco treinamento, o tiro acertou o outro membro, dando início ao massacre. Os atletas, amarrados nos helicópteros, foram executados pelos terroristas. Uma das naves foi explodida por uma granada, carbonizando os corpos a ponto de não serem identificados. Somente três sequestradores sobreviveram, e no total, cinco atletas, seis treinadores, um policial alemão e cinco membros do Setembro Negro morreram.

munique 3

Placa memorial em frente aos apartamentos da delegação israelense em Munique

Os cinco terroristas mortos tiveram seus corpos transportados para a Líbia, onde foram recebidos com condecorações e honras. Os que sobreviveram foram mantidos prisioneiros em Munique. Em outubro de 1972, um avião da Luftansa foi sequestrado com a exigência de que fossem libertados. O governo alemão cedeu e os prisioneiros soltos também foram recebidos como heróis na Líbia.

O que se viu depois disso foi uma série de ataques e bombardeios por ambos os lados. Israel atacou a Palestina e países vizinhos e foi atacado de volta. Nada diferente do que acontece até hoje.

Os países europeus iniciaram uma contra ofensiva ao terrorismo. O governo alemão paga até hoje indenizações às famílias dos que sofreram essa barbaridade. Logo após o incidente, a Alemanha Ocidental deu início ao GSC 9, uma instituição policial de elite especializada em crises como essa.

Paz e Irmandade são os ideais olímpicos, um momento em que nações em guerra, inimigas e amigas possam confraternizar ao longo daqueles dias de competições. Os Jogos nunca mais foram os mesmos. Em 1972, um cerimonial foi realizado em memória dos mortos e feridos, mas a indignação continua.

Hoje vemos metrôs, aeroportos, casas de show, prédios comerciais, zonas residenciais, do Oriente e do Ocidente serem explodidas, obrigando a migração de milhares de pessoas. Tudo documentado. Mas será que muda?

Ana Carolina Machado

Dicas:

  • Documentário: One day in September (1999)

  • Filme: Munique (2005)

Publicado em História Contemporânea, vestibular | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

Black Power nos Estados Unidos: o movimento por direitos civis.

A década de 1960 foi um período de muitas transformações, o mundo estava envolto numa intensa instabilidade e radicalismos gerados pela Guerra Fria. O planeta encontrava-se dividido entre o bloco capitalista, conduzido pelos Estados Unidos, e o socialista, liderado pela União Soviética. Essa década foi uma época de muitas incertezas e de profundas mudanças sociais, políticas e culturais; assistiu-se ao nascimento de ditaduras civil-militares na América Latina, a Guerra do Vietnã; a consolidação da Revolução Cubana  e da Revolução Cultural Chinesa, o crescimento de movimentos sociais como a Primavera de Praga, o Maio de 1968 na França e o Black Power nos Estados Unidos.

Este post será dedicado ao surgimento de um movimento político, social e cultural nomeado de Black Power. Assim como no Brasil, os Estados Unidos tiveram uma colonização escravagista e a situação dos negros não mudou muito após a proibição da escravidão, durante a Guerra Civil Norte-Americana, uma vez que não fora criado nenhum plano de integração social e econômica para essa população. Sendo assim, o fim da escravidão não trouxe melhoras significativas para os negros, pois estes continuaram às margens da sociedade e, até 1964, ano do decreto da Lei dos Direitos Civis, eles não eram considerados iguais aos brancos perante as leis estadunidenses, e a segregação racial no país era institucionalizada.

No ano de 1955, Rosa Parks, uma jovem negra, foi presa no Estado do Alabama por não ceder seu lugar no ônibus para um homem branco que estava de pé, como previa a lei do Estado sulista. O caso gerou comoção da comunidade e foi o estopim para um movimento de boicote ao transporte público de Montgonery liderado por Martin Luther King. O boicote durou mais de 300 dias e teve como desfecho a conquista do fim da segregação racial nos transportes públicos do Estado do Alabama. A liderança de Luther King no caso de Rosa o projetou nacionalmente e tornou-o um dos principais nomes da luta pelo fim da segregação e pelos direitos humanos. Em 28 de agosto de 1963, Luther King reuniu mais de 250 mil pessoas em frente ao Memorial Lincoln, em Washington, em um ato pacífico que entraria para a história dos Estados Unidos, King proferiu um discurso que pregava um país e um mundo com igualdade racial. No ano seguinte, em 1964, o movimento negro alcançou uma grande vitória, foi decretada a Lei de Direitos Civis, que proibia a discriminação contra os negros.

luther

Martin Luther King

O decreto da lei foi uma grande conquista, não se pode negar, porém uma lei, infelizmente, não tem o poder de mudar a mentalidade que foi construída ao longo de séculos. Apesar dela, a discriminação e os atos de violência contra os negros continuaram, movimentos racistas como a Ku Klux Klan surgiam sempre com muita força e provocava ondas de violência contra os negros. Em 21 de fevereiro de 1965, por exemplo, um dos principais líderes negros da luta por diretos civis, Malcom X, foi assassinado em Nova York, o que gerou ainda mais insatisfação. Perante a lei, negros e brancos desfrutavam dos mesmos direitos, mas a realidade não refletia isso, por isso, em 1966, a comunidade de Oakland, no Estado da Califórnia, decidiu criar uma maneira de proteger-se das arbitrariedades que lhes eram constantemente impostas e criaram o Black Panther Party for Self-Defense , conhecidos como os Panteras Negras.

pantera

Símbolo do Partido

O partido tinha como principal objetivo patrulhar os guetos negros e proteger seus moradores das brutalidades e dos abusos cometidos pela polícia. Durante as patrulhas os integrantes do partido andavam armados e uniformizados com boinas e camisas pretas. A atuação do partido não estava restrita ao patrulhamento dos guetos e o partido desenvolveu programas de alimentação e assistência médica além de publicarem jornais diários. Em 1968, Martin Luther King foi assassinado na cidade de Memphis, no Tennessee. Sua morte gerou comoção e os protestos contra a opressão e a violência contra os negros tomaram o país inteiro. Os confrontos entre a polícia e os Panteras Negras foram aumentando cada vez mais e o movimento sofreu muitas baixas, suas lideranças foram presas ou mortas o que enfraqueceu o partido logo nos primeiros anos da década de 1970.

Três meses após o assassinato de Luther King, foram realizados os Jogos Olímpicos do México e dois jovens atletas estadunidenses realizaram um protesto simbólico que entrou para história. Os vencedores da prova dos 200 metros rasos, John Carlos e Tommy Smith respectivamente primeiro e terceiro lugares, no momento da cerimônia de premiação, baixaram a cabeça e com as mãos vestindo luvas pretas ergueram os punhos cerrados, gesto que faz referência direta ao grupo Panteras Negras. O ato foi visto no mundo inteiro e os dois atletas enfatizavam que a discriminação contra os negros e que a luta por igualdade continuava.

BLACK+POWER+MEXICO+1968

Atletas nos Jogos Olímpicos do México

Quase cinco décadas depois do protesto simbólico de John Carlos e Tommy Smith, foi a vez do mundo assistir a mais um ato contra a discriminação e a segregação racial nos Estados Unidos. Desta vez, Beyoncé, uma das cantoras mais famosas do mundo, fez uma apresentação no Super Bowl, um dos principais eventos esportivos e uma das maiores audiências televisivas do país e lançou uma música que enaltece a beleza e a força dos negros. A cantora e suas dançarinas apresentaram-se com seus cabelos naturais, vestiram roupas pretas, a coreografia fez menções aos Panteras Negras e a Malcom X. A apresentação de Beyoncé foi simbólica por diversas razões, pois posicionou-se em relação à discriminação e segregação racial no país, por fazê-la em um evento de grandes proporções e, principalmente, por ter reaberto um debate importantíssimo dentro da sociedade estadunidense. A apresentação de Beyoncé assim como o posicionamento de outros artistas negros evidenciam o quanto a segregação racial é uma questão que necessita ser discutida nos Estados Unidos e também em outros países do mundo, como é o caso do Brasil.

Bruna Borges

Beyoncé no Superbowl 2016:

Discurso de Luther King:

História e Cinema

Histórias Cruzadas (2011): https://www.youtube.com/watch?v=Cqn4XN21O1g
Panteras Negras (1995): https://www.youtube.com/watch?v=sKuyDdoo3NI
Mississipi em Chamas (1988): https://www.youtube.com/watch?v=5E41USKzJCI

Publicado em Brasil República | Deixe um comentário

O florescimento do Renascimento artístico: O concurso da porta do Batistério

O período conhecido como Renascimento, entre os séculos XV e XVIII é tido como um momento de rupturas e inovações na política, na economia, na cultura e nas artes. Desde o século XIV, durante o que os italianos chamam de Trecentos, ou seja, os anos 1300, alguns artistas, como Giotto (1267-1337) e Arnolfo di Cambio (1240-1310), já vinham apresentando inovações na pintura e na arquitetura, como o esboço de desenhos com perspectiva (assunto que, mais tarde, viria se tornar uma das maiores “invenções” do Renascimento). Mas foi no nascer do século XV, ou início do Quattrocento, que se marca o início do Renascimento cultural florentino.

É importante destacar que Florença foi o palco principal desse movimento de renovação artística na península itálica. Posteriormente, as novas ideias foram se alastrando por parte da Europa.

Se é difícil apontar uma data ou um momento preciso para o início do período conhecido como Renascimento, é fácil destacar uma data em que esse novo pensamento surgiu nas artes: 1401, com o concurso para a Porta do Batistério San Giovanni de Florença.

catedralFlorença

Batistério de San Giovanni e ao fundo a Catedral Santa Maria del Fiori de Florença

Esse edifício, que servia como espaço de batismo para os católicos e que era dedicado a São João Batista, encontra-se em frente à Catedral Santa Maria del Fiore. Acredita-se que tal edifício foi construído sobre as ruínas de um templo romano dedicado à Marte. O certo é que por volta do ano 1000, ele foi reconstruído e ampliado no estilo românico.

Como acesso ao Batistério, existem três portas (ao norte, ao sul e a leste) que, inicialmente, eram de madeira. Em 1330, uma delas, a sul, foi construída em bronze, por Andrea di Pisano, que a elaborou em estilo gótico, com 28 painéis emoldurados por quatrifólios e que contam a história de João Batista e trazem representações das virtudes.

portasul

Porta Sul de Andrea di Pisano

Entre 1400 e 1401, aconteceu o concurso que visava eleger o artista responsável por elaborar a porta leste do edifício. Grandes nomes participaram e o grande embate ficou entre Lorenzo Ghiberti (1378-1455) e Filippo Brunelleschi (1377-1446). A obra com as quais eles participaram foi uma representação da passagem bíblica do “Sacrifício de Isaac”.

brunelleschi

Brunelleschi. Sacrifício de Isaac. Bronze dourado, 45×38 cm. Museo del Baregello, Florença

 

ghiberti-sacrifice-isaac

Ghiberti. Sacrifício de Isaac. Bronze dourado, 45×38 cm. Museo del Baregello, Florença

Em ambos, pode-se perceber uma nova forma de representação, na qual se procura apresentar os personagens dentro de um espaço. Enquanto que Ghiberti descreve o espaço em uma sucessão de planos e episódios, Brunelleschi o constrói com simultaneidade dos movimentos. No primeiro, há uma preocupação maior com o estudo da Antiguidade Clássica (uma das características fundamentais do Renascimento), o que era muito apreciado pelos grandes estudiosos da época. Na obra de Ghiberti, pode-se perceber que o torso de Isaac é muito semelhante às esculturas romanas. Além disso, é interessante notar o realismo das figuras representadas: os corpos estão todos retorcidos, como se estivessem em pleno movimento, enquanto que Brunelleschi optou por apresentar seus personagens somente de perfil.

Por ser mais condizente com os propósitos da época, Ghiberti foi escolhido como vencedor. No entanto, é importante destacar o trabalho de Brunelleschi, já que nele pode-se vislumbrar sua noção de espaço perspético, que mais tarde ele iria aprimorar e revolucionar a arquitetura.

Depois de finalizada a porta a que ele havia sido destinada, na qual em 28 painéis foram representados trechos do Novo Testamento, Ghiberti foi convidado para elaborar mais uma porta, dessa vez, a leste. Nesse trabalho, que já não era limitado por regras pré-concebidas e já sob o clima renascentista, o artista florentino fez um trabalho ainda mais complexo. Nessa nova porta, os painéis, maiores, não foram emoldurados pelos quatrifólios , neles, Ghiberti pôde aprimorar sua noção de perspectiva.

portadoparaiso2

Ghiberti. Porta do Paraíso, Florença.

Foram 10 painéis que retratam histórias do Antigo Testamento, mas que com inovações, como a técnica de representação em baixo relevo (no qual as formas não ultrapassam os limites da visão frontal), acabam apresentando diferentes cenas em um mesmo painel. Ao redor deles, encontram-se 24 pequenos bustos de bronze que retratam os célebres florentinos da época. No centro da porta, pode-se ver retratos também do próprio Ghiberti e de seu pai.

No painel que representa a história de José, pode-se perceber características que marcam tanto as representações dessa obra quanto o espírito renascentista. Além disso, ele colocou em prática uma técnica que vinha sendo utilizada naquele período do “relievo schiacciato”, que significa que o artista, para representar a ocupação do espaço, apresentou uma transição entre formas em relevo pleno, em primeiro plano, e formas cada vez mais pictóricas e menos nítidas ao fundo.

Florence - Baptistery , Panel of the Door of Paradise

Ghiberti. Painel História de José. Porta do Paraíso

Para realizar essa grande obra, que demorou 26 anos, entre 1426 e 1452, o florentino contou com o auxílio de inúmeros artistas, entre eles, destaca-se o grande escultor Donatello. Apesar de poder se considerar que essa foi uma obra coletiva, os estudiosos atuais não conseguem distinguir diferenças que mostrem a personalidade de outros artistas, além de Ghiberti.

Depois de pronta e apresentada ao público, Michelangelo, outro grande artista da época, batizou a obra de Ghiberti de “Porta do Paraíso” por conta de sua grande beleza e importância. Hoje, ela pode ser contemplada no Museo dell’Opera del Doumo, e uma cópia continua no Batistério de origem.

Ligia Lopes Fornazieri

Dica:

WALKER, Paul Robert. A disputa que mudou a Renascença. Rio de Janeiro: Record, 2005. – Romance que mostra a disputa entre Ghiberti e Brunelleschi para a elaboração dos painéis da porta do Batistério de Florença.

Publicado em História da Arte, Idade Moderna | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Segunda Guerra Mundial – Parte 2

bomba IIGM

– Introdução

No post anterior abordamos como se deu o início da Segunda Grande Guerra que durou de 1939-1945. Mostramos o empoderamento da Alemanha que, com as invasões do leste europeu e da França, angariou mais recursos naturais e desenvolvimento bélico, o que tornou a situação dos Aliados preocupante. Porém, em 1941 tudo mudou. Neste post discutiremos sobre:

– O ataque a Pearl Harbor;

– O declínio do Eixo;

– 1945 e as bombas atômicas.

– Itália e o norte da África

Já estipulamos que em 1941, tudo mudou para a Alemanha, a nação que comandava o Eixo. Contudo, não foi apenas o ataque à base havaiana de Pearl Harbor o principal fato do declínio alemão. As constantes derrotas italianas no norte da África também foram substanciais.

Em 1935, teve início da guerra Ítalo-Etíope, entre a colônia e sua metrópole. Em 1936, com o final do confronto, a Itália formou uma região colonial no continente, a África Oriental Italiana (AOI – Etiópia, Eritreia e parte da Somália). Com isso, o país estabelecia ali um forte posto militar, que o auxiliaria nas batalhas da década seguinte.

Em julho de 1940, a Itália começou sua ofensiva na região de Malta, no Mediterrâneo. A região da Grécia, sobretudo a ilha de Creta, batalhou contra as tropas de Mussolini. Não se sabe ao certo as motivações dos italianos em invadir a região, mas alguns livros discutem que o movimento seria uma reação às conquistas de Hitler.

Contudo, as investidas italianas não foram vencedoras como as alemãs. A armada britânica (British Commonwealth, formada por britânicos e membros das antigas colônias, como australianos e canadenses) forçou os italianos a saírem da Grécia no fim de 1940, os encurralando na Albânia, onde vários impasses fizeram com que constituíssem uma espécie de acordo entre as partes. Aqui temos mais um detalhe de qualquer guerra: mesmo inimigos, Aliados e Eixo não se furtavam em negociar territórios ocupados. Não importava quem seriam os moradores daqueles locais, suas etnias, crenças e culturas. A perspectiva de aumentar o poder de influência nos Balcãs era o principal aspecto que pensavam.

Em dezembro de 1940, os britânicos enfraqueciam cada vez mais a estabilidade italiana no Norte da África, sobretudo no Egito e na AOI. A Líbia foi invadida posteriormente pelas tropas italianas, que logo passaram a ser pressionadas. Todo esse problema da Marinha de Mussolini fez com que Hitler precisasse deslocar força humana e recursos bélicos para uma região que deveria ser tomada pelo seu parceiro.

Mesmo assim, o Eixo ainda era onipotente e conseguia danificar seriamente os Aliados, que nesse momento se resumia a British Commolwealth tentando reequilibrar as forças na Europa Ocidental, na África e parte do Oriente Médio, pois a França estava totalmente encurralada e invadida.

A URSS, percebendo o avanço japonês pela Ásia, assinou o Pacto de Neutralidade Soviético-Japonês, em abril de 1941. Foi uma tentativa de conter a poderosa aliança entre os nipônicos e os alemães, mas que se mostrou infrutífera. Devido a impasses entre os líderes, em junho de 1941, Hitler deu início à Operação Barbarossa, anunciada em tempo real através do rádio pelo seu braço direito e ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, realizando sua antiga vontade de dominar a região soviética. O intuito era liberar toda essa área dos males do comunismo e se apoderar de todos os recursos naturais, haja vista a grande quantidade de petróleo e gás natural no local. Além disso, a intenção era libertar a região de “pessoas má desenvolvidas”, ideia que fazia parte do conceito de espaço vital (Lebensraum), reinterpretado e apropriado pelo discurso nazista endossado no Mein Kampf.

Apesar de algumas vitórias durante o verão, os alemães subestimaram o rigoroso inverno russo, que enfraqueceu exponencialmente a força humana, além de invalidar algumas armas bélicas. Em dezembro de 1941, foi autorizada a invasão de Moscou, que simbolizaria o domínio do território. Porém, as tropas nazistas enfrentaram no clima um adversário mortal e na URSS a sua rapidez em estabelecer um exército de 500 mil homens, que expulsaram os inimigos. O que começou como uma operação triunfante tornou-se um pesadelo. As perdas foram significativas, não só na quantidade mas como no sentimento da guerra. Os Aliados perceberam uma rachadura na então quase indestrutível armada do Eixo.

– 07/12/1941 – A mudança

Os EUA mantiveram-se ao lado dos Aliados desde o início, financiando a guerra tanto com material bélico quanto com mantimentos e produtos de primeira necessidade. Além disso, com toda a energia da Europa voltada às batalhas, o desenvolvimento industrial norte-americano atingiu novos patamares. Ou seja, estrategicamente estiveram à margem, se beneficiando da geografia dos conflitos.

Apesar disso, o governo americano aumentou sua frota naval e aérea, e estabeleceu mais áreas de influência no Pacífico. Esse movimento foi percebido pelos japoneses, que se tornaram reticentes com a dominação paulatina da Ásia. Os EUA não criavam colônias, como os europeus fizeram ao longo do século XIX. Eles criavam sociedades dependentes do seu poder, influenciando governos, assinando alianças e acordos. Desde a década de 1920, com a expansão japonesa pelo continente asiático, uma possível guerra tornava-se iminente. Em 1931, o Japão atacou e se apossou da Manchúria, criando mais atritos com a China, parceiro dos EUA e de outras nações, como o Reino Unido e a França.

O governo japonês planejou e executou alguns ataques a bases navais americanas, como a USS Panay e também o massacre a chineses. Houve um auxilio militar para a região por parte dos países amigos, mas a força nipônica preocupava os EUA. Foram elaborados vários pactos e tratados de não-agressão que forçavam o Japão a abandonar as bases na China. Porém, todos esses acordos não os favorecia, o que inviabilizou as negociações.

Durante a guerra, em 1941, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt ordenou que a frota militar do Pacífico, que ficava em San Diego na Califórnia, fosse deslocada ao Havaí, em uma tentativa de atemorizar os japoneses. Por meio da inteligência americana, descobriram os planos do Japão de invadirem as Filipinas logo após sua bem sucedida invasão à Indochina. Foi uma espécie de guerra estratégica, sem o envolvimento aberto das duas nações. Eles moviam peças no grande tabuleiro de xadrez que era a Ásia, enquanto Alemanha e Reino Unido se exauriam na Europa. Foi nesse período que a guerra se tornou mundial. Pela primeira vez, todos os continentes estavam envolvidos no conflito. Se em 1939, com a invasão da Polônia, o discurso dos Aliados para lutarem contra a Alemanha residia na intenção de eliminar o mal nazista do mundo, três anos depois, no Pacífico, a ideia era diferente.

 

USS Weste Virginia IIGM

Ataque ao USS West Virginia

Em 07 de dezembro de 1941, logo após o sol nascer, a Marinha e a Força Aérea americana foram acordadas pelo ataque japonês à base naval de Pearl Harbor, assim como nas Filipinas, na Tailândia, na Malásia e em Hong Kong. Não houve nenhuma declaração formal de guerra antes do ataque. Ela chegou primeiramente aos jornais japoneses um dia depois.

Apesar do ataque coordenado, Pearl Harbor sofreu os maiores danos. Dez bases foram o alvo. Algumas, como a USS California, USS Nevada e USS Arizona foram totalmente destruídas. Quase 3000 soldados americanos morreram, e centenas ficaram feridos.

 

USS California IIGM

Naufrágio do USS Califórnia

No dia seguinte, Roosevelt discursou para a nação e os outros países, declarando guerra ao Império do Japão e, por consequência, ao Eixo. A entrada dos EUA na guerra mundial, com todos os recursos que poderiam desprender e a vantagem de não batalharem no próprio território, modificou as faces do conflito.

– O declínio do Eixo

Outras frentes dos Aliados surgiram na Europa, auxiliando a minar o poder do Eixo aos poucos. No fim de 1941, o exército britânico já neutralizava a influência italiana no norte da África, obrigando a Alemanha a deslocar mais forças para a região. Em 1942, o Japão viu seus códigos militares serem decifrados, entregando todo o estratagema de guerra. O ataque ao Alasca foi totalmente destruído pelos americanos, por exemplo.

Ao mesmo tempo em que o Japão sofria em manter suas forças no Pacífico, a Alemanha enfrentava reveses na Europa e na África, auxiliando os italianos.  Com a Frente Oriental, quase alcançou sucesso na tomada dos poços de petróleo da região do Cáucaso, obrigando Stalin a desprender cada vez mais tropas para se defender. Contudo, os alemães pareciam ter esquecido do clima russo. A partir da Ucrânia, o Eixo resolveu invadir todo o território entre o Mar Cáspio e o Mar Morto, sentido aos férteis campos petrolíferos. A estratégia soviética foi formar uma linha de frente em Stalingrado, que ficava no caminho. A primeira ofensiva foi vencida pelos alemães, que quase dominaram por completo o local. Contudo, a segunda ofensiva soviética, em novembro de 1942, marcou uma das grandes derrotas de Hitler.

Batalha de Stalingrado

A Batalha de Stalingrado

A Batalha de Stalingrado é considerada uma das mais sangrentas de toda a guerra. Quase 2 milhões de soldados e civis foram mortos em uma guerra majoritariamente urbana. O 6º exército alemão foi completamente destruído, enfraquecendo mortalmente toda a ofensiva ao longo do leste europeu. O inverno russo, novamente, mostrou-se uma arma letal, mas isso não diminuiu a força do Exército Vermelho, que soube ler as fraquezas do inimigo. Muitos descrevem o declínio nazista como parte da megalomania de seu líder, que mesmo contra todas as possibilidades, ordenou uma invasão tão arriscada.

Stalingrado

Apesar da derrota, durante 1943, Hitler e seu exército planejaram mais um ataque ao planalto central russo, que acabou antes mesmo de ser efetivado. As tropas do Eixo foram esgotadas pela bem treinada armada de Stalin, o que fez com que a Alemanha recuasse antes de tentar qualquer movimento mais arriscado.

A URSS derrotou a ofensiva alemã, os forçando a voltar para Berlim. Apesar de serem da mesma aliança, Stalin várias vezes mostrou-se impaciente com a falta de solidariedade dos outros países com os conflitos no leste europeu. Alegando falta de recursos, o Reino Unido muitas vezes se esquivou de enviar ajuda. Contudo, a pressão soviética tornou-se latente com a entrada dos EUA na guerra.

Em 1943, os Aliados tornavam-se mais fortes e organizados, estabelecendo grandes frotas em diversas regiões da Europa. A Sicília, ilha ao sul da Península Itálica, foi invadida e tomada, resultando na prisão de Mussolini, que logo depois foi resgatado pelos nazistas. No continente, os italianos sofreram outra derrota e parte do território foi apossado pelos Aliados. Aqui vale o destaque da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que atuou na Batalha do Monte Castelo, entre 1944 e 1945, contendo as forças alemãs ao Norte da Itália.

Monte Castelo IIGM

Apesar de toda a ofensiva dos Aliados contra o Eixo no leste europeu, na África e no Mediterrâneo, havia um território que ainda estava sob domínio nazista: a França.

No dia 6 de junho de 1944, ocorreu o Dia D, uma das ofensivas mais conhecidas de toda a Segunda Guerra Mundial.

Praia de Omaha - Normandia IIGM

Praia de Omaha – Normandia

Também conhecido como Operação Overlord ou Operação Netuno, consistiu na tomada da praia de Omaha, na Normandia, norte da França, por quase 100 mil soldados aliados, entre britânicos, canadenses, americanos, milhares de navios, porta-aviões, aviões e aparatos bélicos para a derrocada final da Alemanha e a recuperação da França.

Omaha foi escolhida por ser uma das regiões mais bem guardadas pelos alemães. Contudo, a ideia inicial era avançar para o leste francês a partir dos Balcãs, o que desagradou Stalin. Tal empreitada necessitaria do envolvimento profundo do Exército Vermelho, que já tinha derrotado o Eixo na Europa Oriental. Após várias discussões, decidiram que a maneira mais fácil seria aportar no norte da França, atravessando o Canal da Mancha.

Ao derrotarem o exército alemão em Omaha, os Aliados seguiram conquistando o litoral e rumaram para Paris, que seria a derrota simbólica dos nazistas. Em 25 de agosto de 1944, finalmente, a Cidade Luz foi libertada.

Libertação de Paris IIGM

Libertação de Paris

Após esse episódio, aos poucos, os Aliados foram minando o Eixo na Europa, e os EUA travavam sua batalha contra o Japão na Ásia. A última tentativa desesperada de Hitler foi uma ofensiva na região das Ardenas, na Bélgica, em dezembro de 1944. Ele deslocou toda sua força restante e foi derrotado um mês depois.

Em janeiro de 1945, a URSS invadiu a Polônia e foi dominando o leste europeu, enquanto Reino Unido e França iam conquistando o oeste. A configuração da guerra na Europa já estava dada, só faltava a rendição formal da Alemanha. Em fevereiro de 1945, as primeiras reuniões da Conferência de Yalta ocorreram na Crimeia. Roosevelt, Stalin e o primeiro-ministro inglês, Winston Churchill, decidiram a nova geografia econômica e política dos territórios invadidos pelo Eixo, as zonas leste e oeste da Europa e como lidariam com os outros continentes.

Churchill, Roosevelt e Stalin em Yalta IIGM

Churchill, Roosevelt e Stalin em Yalta

Em abril, Aliados ocidentais e soviéticos invadiram a Alemanha por lados opostos e se encontraram ao longo do rio Elba. Com a tomada do Reichstag, em 30 de abril de 1945, foi simbolizada a derrota oficial do Terceiro Reich e Hitler se suicidou. Em 8 de maio foi ratificado o tratado de rendição alemão.

Porém, a guerra não estava terminada. No Pacífico, os EUA e Aliados ainda enfrentavam as forças japonesas, isoladas com a derrota de seus parceiros.  Os americanos invadiram o Japão em episódios conhecidos, como a Batalha de Iwo Jima, uma ilha que ficou ocupada pelos ocidentais até 1968, onde ficava o controle aéreo da região. Dessa forma, os EUA mantiveram a posse e puderam estabelecer novas estratégias para derrotar o Império.

Invasão de Iwo Jima IIGM

Invasão de Iwo Jima

Muito se fala das invasões nazistas pela Europa, da barbárie cometida, mas em uma guerra esse é o modo de operação prioritário: destruir para conquistar. No Japão, os EUA destruíram cidades inteiras e mataram civis. Bloquearam o fornecimento de comida da população no momento em que impediram as importações.

Em agosto de 1945, mais uma vez a guerra foi simbolicamente finalizada, com o ataque atômico às cidades de Hiroshima e Nagasaki. Oficialmente a guerra só acabou com a rendição japonesa assinada em setembro. Finalmente a Segunda Grande Guerra havia terminado.

Várias observações podem ser feitas, mas uma bem interessante é enxergar como os discursos mudam ao longo do tempo. Em 1939, era um mundo contra a barbárie nazista. Em 1945, foram os “mocinhos” que destruíram duas cidades e assassinaram mulheres e crianças.

Entre agosto e setembro de 1945, ocorreu a Conferência de Postdam, na Alemanha. Nela, foram definidos os rumos da Europa e dos territórios afetados pelo conflito, além da punição à Alemanha e o que fariam com seus espólios. A Segunda Guerra Mundial modificou sensivelmente o teatro político mundial.

Ana Carolina Machado de Souza

CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK!

– Dicas:

A filmografia sobre a Segunda Guerra Mundial é riquíssima. Desde as visões Hollywoodianas sobre o conflito, passando sobre o terror dos povos subjugados pelos nazistas, assim como as consequencias de tudo o que ocorreu. As indicações aqui nem arranham a superfície. A ordem foi bem arbitrária: gosto pessoal.

 – Band of Brothers (série – 2001)

Série veiculada pela HBO, produzida por Steven Spielberg e Tom Hanks, conta a história de um batalhão se preparando para os eventos do Dia D.

– Lista de Schindler (filme – 1993)

Dirigido por Steven Spielberg, o aclamado filme conta a história do empresário alemão Oskar Schindler, que empregou judeus em suas fábricas, os salvando do Holocausto.

– O Jogo da Imitação (filme – 2014)

O filme conta a história do matemático Alan Turing, o inventor do primeiro computador. Construiu a máquina que decifrou o código da Enigma, usada pela Alemanha. Foi condenado por ser homossexual, considerado crime na Inglaterra.

– Cartas de Iwo Jima (filme – 2006)

Dirigido por Clint Eastwood, lida com a Batalha de Iwo Jima

– A Conquista da Honra (filme – 2006)

Também dirigido por Eastwood, neste filme ele mostra o que seria a versão norte americana da Batalha de Iwo Jima

A Queda: As Últimas Horas de Hitler (filme – 2005)

Baseado em textos historiográficos e documentos deixados pela secretária de Hitler, conta a história de como o líder nazista viveu o declínio do seu império.

 

Publicado em História Contemporânea, História dos Estados Unidos | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

Segunda Guerra Mundial – Parte 1

 

MAPA IIGM

Mapa dos territórios invadidos pelos nazistas até 1940

Introdução e explicações

A Segunda Guerra Mundial ocorrida entre 1939 e 1945, foi um desses eventos superlativos que ocorrem regularmente na história da humanidade. Xadrez político, perseguições a minorias, ideologias, holocausto, bombas atômicas e a ascensão e consolidação dos Estados Unidos como a maior potência global por pelo menos meio século. Para abordarmos esse assunto tão complexo, dividimos o post em duas partes, como vocês já viram antes. Neste abordaremos os seguintes temas:

– O totalitarismo na Itália e Alemanha;

– Os efeitos da Primeira Guerra Mundial

– Os antecedentes do conflito

– O início e a guerra continental

De maneira arbitrária (mas que possui uma explicação coerente), cronologicamente falaremos dos acontecimentos até 1940. Do ano seguinte em diante vocês verão na parte 2.

O mundo pós-1918: o fascismo e o nazismo

HITLER MUSSOLINI

Mussolini e Hitler

O fascismo adquiriu mais força com a ascensão de Benito Mussolini ao poder em 1922, na Itália, mas, em outros países, regimes totalitários semelhantes também foram instituídos, como no Brasil, na Polônia, na Espanha e na Alemanha. Os tratados de paz assinados após o fim da Primeira Guerra recompensaram os vencedores, mas a Itália, apesar de fazer parte desse grupo, não se sentiu totalmente atendida. Os territórios coloniais perdidos pelo governo italiano não foram recuperados, além de não ter recebido largas parcelas das indenizações, haja vista que perderam quase 600 mil pessoas no conflito. Essas reivindicações frustradas eram uma das pautas principais dos nacionalistas, que se viam desmerecidos pelos países líderes como Inglaterra e França.

Outro problema foi a depressão econômica. A taxa de desemprego era alta, a industrialização permanecia precária devido aos conflitos e o poder de compra prejudicado pela inflação imprevisível. O Partido Socialista foi fortemente apoiado pela população e a ascensão da esquerda despertou o alerta dos conservadores. O Partido Fascista foi a saída encontrada por esses grupos para confrontar os ideais comunistas e socialistas. Intimidavam a oposição com ações armadas das esquadras, que destruíam reuniões sindicais e comícios, assim como qualquer atividade política das organizações de esquerda. Porém, a ação efetiva ocorreu no campo eleitoral, com a mobilização de milhares de apoiadores dos ideais fascistas. Um exemplo foi a “Marcha para Roma” em 1922, quando a cidade presenciou uma passeata de cerca de 50 mil camisas negras, os grupos militares do regime. Eles exigiam que Benito Mussolini presidisse o governo, o que ocorreu em 1924, com a sua eleição e o assassinato do principal opositor socialista, Matteoti. Em 1925, com o clima cada vez mais acirrado, Mussolini finalmente implantou uma ditadura.

Enquanto isso, a situação da Alemanha não era muito diferente. A derrota na Primeira Guerra prejudicou todos os interesses alemães, pois o Tratado de Versalhes assegurou o pagamento, de diversas formas, de todo o prejuízo que causaram incitando o conflito. Além disso, com a queda do império prussiano e a instituição democrática, a desconfiança da população só crescia. A República de Weimer, como foi chamado esse período, não era popular e a crise econômica ajudou a desestabilizar ainda mais o frágil conceito de democracia no país. Tanto a esquerda quanto a direita estavam descontentes com a maneira como o governo atuava, e promoviam manifestações com o intuito de mudar a situação política. Entre 1924-1929, o presidente Hindemburg conseguiu que o capital externo (leia-se americano) investisse no país, o que proporcionou alguns anos de respiro para a população. Contudo, com a Crise de 1929 e a queda da bolsa de NY, a economia voltou a piorar e com isso a insatisfação e o desemprego. O Partido Nazista encontrou, então, terreno fértil para se desenvolver e ascender. A classe trabalhadora o apoiava assim como a burguesia que temia o estabelecimento do comunismo. Vale lembrar que Adolf Hitler, líder do partido, tentou um golpe de estado em 1923, que fracassou e resultou na sua prisão. Nos anos encarcerados ele escreveu Mein Kampf (“Minha luta”), no qual destrinçava o que era a ideologia nazista. No campo político, se assemelhava ao fascismo ao negar o liberalismo, o socialismo e o comunismo, além da posição autoritária de querer exercer controle absoluto sobre o Estado e a população. Porém, a maior diferença residia no aspecto racial. O nazismo pregava a superioridade ariana e a eugenia, assim como o antissemitismo.

Depois de décadas de reveses econômicos na Alemanha, o Partido Nazista alcançou o poder em 1933, quando Hitler virou primeiro-ministro com alta taxa de popularidade. Com o incêndio do Reichstag (Parlamento alemão), o líder angariou apoio suficiente para exigir o poder e controle absoluto do governo, instaurando assim uma ditadura.

Com o banimento e perseguições das oposições, a ideologia eugenista nazista foi imposta a duras penas. Um exemplo foi o estabelecimento das Leis de Nuremberg em 1935, entre as quais judeus não seriam mais considerados cidadãos alemães. Essas restrições tornaram-se cada vez mais acirradas, com o assassinato de judeus e outras minorias como ciganos, ou mesmo os armênios, a destruição de sinagogas, culminando com a criação dos campos de concentração. Apesar das atrocidades cometidas pelos nazistas e que foram altamente denunciadas em um certo período da guerra, o holocausto não foi a causa primordial para que os Aliados lutassem contra o regime autoritário. Por muito tempo parte da opinião pública questionava a não intervenção ou bombardeio das rotas utilizadas pelos nazistas para transportar os prisioneiros em direção aos campos de concentração. O que se encontra nos documentos oficiais americanos é que tal manobra de guerra não fazia parte do plano e que não seria a melhor estratégia. Uma vez que as decisões fossem tomadas, uma mudança desse calibre só poderia ser aprovada se uma catástrofe ocorresse. O assassinato de minorias não era. Daqui tiramos várias conclusões: percebemos como os estratagemas militares são muito mais complexos e políticos do que se imagina e que o bem-estar (ou salvação) de populações muitas vezes não é prioridade.

Antecedentes: as consequências da Primeira Guerra Mundial

Tratado de versalhes

Reunião do Tratado de Versalhes, 1919

O que vimos até aqui foi um pouco da situação europeia antes do que viria a ser a Segunda Guerra Mundial. O Tratado de Versalhes de 1919, estabeleceu prerrogativas severas à Alemanha, sendo uma delas a desmilitarização. Ao longo das décadas de 1920 e 1930, a indústria bélica alemã ascendeu juntamente com o governo autoritário. O interessante é perceber a reação dos outros países europeus, como a Inglaterra e a França, que fizeram vistas grossas ao que estava acontecendo. O que propuseram foi uma política de apaziguamento, que demonstrava o esforço de não iniciarem outro conflito como o de 1914. O que não foi suficiente.

Entre os tratados assinados depois de 1918 que fracassaram estava a Liga das Nações, criada para estabelecer e manter a paz entre os países. Desde o início foi uma tentativa que se mostrou deficiente, pois os Estados Unidos, que se consolidou economicamente por causa do conflito, não assinou o acordo. As intervenções na Etiópia em 1935, pela Itália, e do Japão na Manchúria foram exemplos da falta de cumprimento dos acordos.

A ascensão nazista e sua ideologia de superioridade intolerante só se tornou um problema quando Hitler passou a adquirir cada vez mais poder. Por não concordar com o Tratado de Versalhes, o governo alemão conduziu sua política externa a partir da demanda, da conquista e do empoderamento de aliados. O apoio à guerra civil espanhola, a ocupação da Áustria em 1938, a ocupação militar da Renânia em 1936, a crise com a Tchecoslováquia na região dos Sudetos, foram exemplos dos movimentos alemães pela Europa, algo que não ficou incólume para URSS de Josef Stálin.

Como já dito, as estratégias políticas tanto para a guerra quanto para a paz, são complexas. Apesar de condenar a Alemanha e conversar com França e Inglaterra sobre a ocupação que os nazistas faziam no leste, a URSS também mantinha acordos com a própria a Alemanha, o chamado pacto germano-soviético. Desse modo, Stalin adiaria o conflito e negociava com Hitler a possível partilha da Polônia.

O início da guerra

Em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polônia. Esse é o marco considerado como o início da que viria a ser a Segunda Guerra Mundial. A França e a Inglaterra declararam guerra contra a Alemanha no dia 03 de setembro de 1939. Tornou-se um conflito mundial devido aos variados interesses de manutenção dos territórios coloniais. Países africanos e asiáticos, por exemplo, já sofriam com domínios e invasões simultâneas, o que transformou o destino das populações locais. Mesmo assim, podemos dividir a Segunda Guerra em duas fases:

– 1939-1940: Guerra continental: caracterizada pelas invasões e bombardeios em solo europeu;

– 1941-1945: Expansão mundial: sobretudo com a entrada dos EUA na guerra com o ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941.

Além dessa divisão temos a clássica formação de dois grupos opositores:

Eixo: Alemanha, Itália, Japão;

Aliados: Inglaterra, França, URSS. Posteriormente os EUA, que forneciam armas e mantimentos, mas só entraram no conflito com força humana após 1941.

hitler frança

Hitler e o alto escalão nazista em Paris

A primeira fase foi marcada pelas conquistas de territórios. Após a Polônia, o exército alemão marchou para Paris, invadindo nesse ínterim, a Bélgica, Holanda, Dinamarca e Noruega. Os franceses e ingleses ainda imersos nas estratégias da Primeira Guerra, se entrincheiraram para receber os alemães. A escolha mostrou-se desastrosa numa época em que aviões caças e tanques blindados dominavam o novo poderia bélico. Em junho de 1940, a capital francesa foi tomada, simbolizando a potência do exército de Hitler. Foi o início da República de Vichy, na qual a parte sul do território permaneceu sob domínio francês e o norte e o seu litoral foram ocupados pelos alemães.

Todo esse movimento não foi passivo. A resistência francesa estava tanto no âmbito institucional, com as mensagens transmitidas via rádio pelo general Charles de Gaulle, do seu exílio na Inglaterra, quanto pela população que ficou na França. Os chamados maquis lutavam contra os nazistas, por meio de organizações secretas e muitos foram perseguidos e executados. Na Bélgica e Polônia também havia aqueles que lutavam contra o domínio nazista.

Enquanto a França era invadida, a Inglaterra sofria vários ataques aéreos pela Luftwaffe, a força aérea alemã. A RAF (Royal Air Force) inglesa rebatia o bombardeio e ainda defendia o Canal de Suez, domínio inglês, que era atacado pelos italianos. Para desestruturar a Inglaterra e o contato com suas colônias asiáticas, o Eixo também passou a controlar a região balcânica, a Grécia e a Iugoslávia.

A invasão francesa foi um ponto alto no caminho beligerante da Alemanha, mas que também inflou o ego do seu já egocêntrico comandante. Hitler pensou que os Aliados, sobretudo a Inglaterra, se renderiam. Contudo, o que presenciou foi um endurecimento dos ingleses, incitados pelas palavras do primeiro-ministro Winston Churchill. A resistência britânica, com sua secular marinha e a mencionada RAF, fizeram com que a estratégia alemã se modificasse.

Com a invasão polonesa e o avanço em direção à Europa Oriental, o pacto germano soviético foi quebrado. Devido às invasões, vários líderes se exilaram para evitar condenações e outros se tornaram refugiados. Os resistentes ao regime nazista passaram a se organizar em grupos bem armados e treinados. Os comunistas se auto intitularam partisans. Se utilizando de táticas de guerrilha, essas organizações conseguiram, muitas vezes, conter o avanço do Eixo. Além disso, difundiam e espalhavam propaganda contra o nazismo.

A Alemanha se sentia segura e empoderada o suficiente para enfrentar seu antigo aliado, a URSS. O ano de 1941 simbolizou uma mudança brusca no caminho alemão. Foi também o ano que modificou a história dos conflitos, que pareciam estar sob domínio nazista. No próximo post abordaremos esse período.

Curta nossa página no FACEBOOK! Continuar lendo

Publicado em História Contemporânea, vestibular | Marcado com , , , , , , , , | 1 Comentário

Imigração no Brasil

Até o fim do período colonial, a entrada e fixação de estrangeiros no Brasil sempre foi motivo de preocupação por parte das autoridades portuguesas. Isso porque o processo de ocupação das terras pelos colonizadores portugueses foi constantemente pautado por disputas com outras nações europeias. Sobre isso, é importante lembrar os vários episódios de invasões à costa brasileira por holandeses e franceses durante o os séculos XVI e XVII. Durante o século XVIII, a preocupação com relação aos estrangeiros era ainda maior em regiões estratégicas ou fontes de riquezas, como era o caso das terras de Minas Gerais. Nesses casos, a presença de estrangeiros era regulada, vigiada e até mesmo proibida.

Com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a elevação do Brasil à categoria de Reino Unido à Portugal e Algarves, uma série de decretos passou a regular a fixação de estrangeiros (especialmente açorianos, suíços e germânicos), com o objetivo de colonizar terras e dinamizar a economia. No período posterior à Independência, na década de 1820, houve uma tentativa do governo imperial de colonizar o Sul do país trazendo alemães. Entre 1824 e 1830, entraram cerca de 7 mil alemães que se destinaram às terras abertas do Sul. Nessa experiência,  o governo imperial subsidiava a vinda desses colonos. Mas, em 1830, essa iniciativa foi interrompida por uma lei que proibia despesas com a imigração estrangeira.

O projeto, no entanto, foi retomado em 1845, com a fundação de colônias alemãs no Sul, no Rio de Janeiro (em Petrópolis) e no Espírito Santo. Essas iniciativas estavam relacionadas à preocupação com a ocupação das terras, com a consolidação do território, com o desenvolvimento de novas culturas agrícolas e com a necessidade de substituição da mão-de-obra, uma vez que o tráfico de escravos foi proibido em 1850.

Com esses objetivos, nas primeiras décadas pós-Independência, surgiram inúmeros Núcleos Coloniais, que, com o passar do tempo, acabaram dando origem a cidades como Petrópolis (RJ), Blumenau (SC), Florianópolis (SC), São Francisco do Sul (RS), entre outras.

Se num primeiro momento o objetivo maior do incentivo à imigração tinha a ver com interesses de ocupação de terras, a partir da expansão da cafeicultura na região Sudeste, houve uma ressignificação para a entrada e fixação de estrangeiros no país. Nesse contexto, em 1845, o senador Nicolau Vergueiro propôs o sistema de parceria.

imigração

Colonizadores italianos no Rio Grande do Sul

Nesse sistema, os trabalhadores europeus teriam suas despesas de viagem e instalação pagas por firmas agenciadoras. Após um prazo determinados, os colonos deveriam ressarcir as agências, pagando juros de 6% ao ano. Nas fazendas, os colonos e suas famílias recebiam alguns pés de café, além de ter a permissão de utilizar parte da terra para cultivo de gêneros alimentícios para subsistência.

Os lucros obtidos com a produção de café e de excedentes deveriam ser divididos entre os colonos e os proprietários da fazenda, que se encarregariam de comercializar os produtos. Nesse ponto, o sistema de parceria do Brasil diferia daquele utilizado na Europa, onde a responsabilidade pela comercialização da produção era do próprio colono.

A única firma agenciadora criada nesse período foi a Vergueiro e Cia, e ela foi beneficiada pelo governo brasileiro para desempenhar essa função. É importante destacar que, ainda que os imigrantes ficassem obrigados ao pagamento de juros pelos recursos que lhes eram adiantados, o Tesouro do Império também emprestou dinheiros a Vergueiro durante três anos.

Em 1847, o senador ainda criou, em sua fazenda, a Ibicaba, em Limeira, a primeira colônia de trabalhadores estrangeiros que tinham ingresso no Brasil e a partir do novo projeto imigracionista.

Essa experiência levada a cabo por Vergueiro representou uma nova perspectiva para a imigração, na medida em que deslocava sua relação com a colonização. Assim, na Fazenda Ibicaba, a inserção de estrangeiros relacionava-se unicamente com a finalidade de substituição da mão-de-obra escravizada. Os novos trabalhadores, vindo especialmente de países europeus, foram inseridos numa lógica moderna de desenvolvimento de relações capitalistas no campo, visando ao aumento do lucro dos donos da fazenda e tendo como contrapartida aos trabalhadores a oferta, ainda que precária, de moradia e remuneração.

Devido à precariedade da situação dos estrangeiros, não só em Ibicaba, como em várias fazendas no interior do país, foram comuns as fugas e revoltas em virtude dos maus tratos e das péssimas condições a que eram submetidos os imigrantes recém-chegados.

ibicaba

Fazenda Ibicaba em Limeira

Com a abolição paulatina da escravidão no Brasil, o aumento da produção cafeeira, a dinamização do transporte ferroviário e o interesse do Estado na criação de uma política imigratória com vistas ao “branqueamento” da população, foram dados novos significados à noção de imigração, o que acabou por reorientar a política imigratória oficial. A implantação da República permitiu ao governo paulista promover uma política de subsídios para a vinda de imigrantes para o estado. A iniciativa oficial incluía a oferta de passagens até São Paulo (a partir de portos europeus), além de hospedagem e transporte até as propriedades dos cafeicultores no interior.  As autoridades paulistas também se tornaram responsáveis pela propaganda brasileira nos países da Europa e por firmar acordos com os governos de países como Itália, Alemanha, Japão, entre outros.

Essa política governamental acabou estimulando novos e variados fluxos imigratórios para a região de São Paulo, que não se destinavam, necessariamente, à cafeicultura, como por exemplo, a entrada no Brasil, de sírios e libaneses, que vieram para se dedicar ao comércio. Além disso, é importante ressaltar que muitos imigrantes instalados nas fazendas de café, em dado momento, acabavam migrando para a capital em busca de novas oportunidades e muitos deles se inseriram nas atividades urbanas e industriais que se desenvolviam na cidade.

Núcleos Coloniais

Entre os anos 1890 e 1940, como parte da política imigratória, do estado de São Paulo, a Secretaria de Agricultura se empenhou na criação de Núcleos Coloniais no interior do estado. Tal iniciativa visava à formação de um contingente de trabalhadores para o café. Assim, instalavam-se grupos de imigrantes em terras próximas às fazendas para que eles servissem de mão-de-obra.

Nesse período, houve também a formação de Colônias, que eram iniciativas privadas de empresas que investiam na especulação fundiária. Assim, eles loteavam áreas em várias regiões do estado e vendiam pequenos lotes aos imigrantes. Foi a partir de iniciativas desse tipo que surgiram cidades como Holambra,  que foi uma colônia holandesa, e Registro, formada inicialmente por uma colônia japonesa.

Ambos os casos de formações imigrantes, Núcleos e Colônias, representavam oportunidades para que os imigrantes pudessem adquirir uma propriedade e, com isso, procurar reproduzir um modo de vida camponês que não era totalmente atrelado à cafeicultura.

Um importante passo para a organização de uma política de imigração do estado se deu com a construção de hospedarias, que eram estruturas comuns no processo de saída e chegada de imigrantes nos países. Eram localizadas próximas aos portos ou em ilhas e concentravam os trâmites de documentação, inspeção médico-sanitária (vale lembrar que essa era uma época de grandes epidemias), registro e encaminhamento para os locais de trabalho.

Em 1886, iniciou-se a construção de um espaço desse tipo na região do Brás, no cruzamento dos trilhos de 2 ferrovias: a Central do Brasil, que vinha do Rio de Janeiro, e a São Paulo Railway, que ligava as cidades de Santos e Jundiaí. Logo em 1887, antes mesmo de terminada, a Hospedaria do Brás recebeu o primeiro grupo de imigrantes.

hospedaria

Imigrantes em frente à Hospedaria do Brás

Ao longo de sua existência, entre 1887 e 1978, a hospedaria recebeu mais de 2,5 milhões de pessoas. Mas não foram apenas imigrantes estrangeiros, pois lá foi também um ponto de chegada de muitos trabalhadores de outros estados brasileiros, a partir de 1930. Na década de 1970, o prédio perdeu sua função original e o último grupo de imigrantes que chegou ali foi em 1978.

Ligia Lopes Fornazieri

Bibliografia

PAIVA, Odair da Cruz. Histórias da (I)migração: Imigrantes e migrantes em São Paulo entre o final do século XIX e início do século XXI. São Paulo: Arquivo Público do Estado, 2013.

Saiba mais:

A antiga hospedaria do Brás hoje abriga um interessante museu chamado Museu da Imigração, que tem como objetivo principal a reflexão sobre os processos migratórios no país. Conheça!

 

Publicado em Brasil República, vestibular | Marcado com , , , | Deixe um comentário

Especial Vestibular – República Populista

Questões de vestibular corrigidas e comentadas sobre a República Populista no Brasil (1945-1964)

(Vestibular Unicamp 2013) Na foto abaixo reproduzida, o presidente Jânio Quadros condecora o líder da Revolução Cubana, Ernesto Che Guevara

janio

  1. a) Como essa condecoração pode ser explicada no contexto das propostas do governo Jânio Quadros para as relações externas do Brasil?
  2. b) Quais grupos, no Brasil, criticaram esse acontecimento?

Respostas esperadas

  1. a) O candidato deveria indicar que a principal proposta diplomática do governo Jânio Quadros foi a adoção da Política Externa Independente (PEI), pela qual o Brasil se distanciava do alinhamento automático com os EUA. A condecoração de Che Guevara, revolucionário integrante do governo cubano, representava essa nova política.
  2. b) A política externa de Jânio desagradou ao seu próprio partido, a UDN, às forças armadas ideologicamente alinhadas aos EUA, e às demais forças conservadoras do país.

Respostas do Historiando na Net 07:

  1. Para responder essa questão é necessário que o candidato saiba que o governo de Jânio Quadros foi marcado pelo realinhamento da política externa, que buscou distanciar-se do alinhamento quase que direto do Brasil com os Estados Unidos (traço marcante do governo anterior, de Juscelino Kubitschek). A condecoração de Che Guevara, além da aproximação com governos socialistas representava essa política externa que aproximou o Brasil da União Soviética e dos países capitalistas.
  2. Essa política externa de Jânio não agradou aos setores conservadores da sociedade brasileira. Desagradou ao próprio partido de Jânio, UDN e às Forças Armadas que ideologicamente estavam alinhadas aos EUA, que lideravam o bloco capitalista dentro do contexto da Guerra Fria.

(Enem 2013)

JK

JK — Você agora tem automóvel brasileiro, para correr em estradas pavimentadas com asfalto brasileiro, com gasolina brasileira. Que mais quer? JECA — Um prato de feijão brasileiro, seu doutô!

THÉO. In: LEMOS, R. (Org.). Uma história do Brasil através da caricatura (1840-2001). Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras & Expressões, 2001.

A charge ironiza a política desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek, ao

  1. a) evidenciar que o incremento da malha viária diminuiu as desigualdades regionais do país.
  2. b) destacar que a modernização das indústrias dinamizou a produção de alimentos para o mercado interno.
  3. c) enfatizar que o crescimento econômico implicou aumento das contradições socioespaciais.
  4. d) ressaltar que o investimento no setor de bens duráveis incrementou os salários de trabalhadores.
  5. e) mostrar que a ocupação de regiões interioranas abriu frentes de trabalho para a população local.

Resposta

C

A presente questão requer do candidato um conhecimento sobre o governo de Juscelino Kubitchek (1956-1961) que foi marcado pela política desenvolvimentista baseada no crescimento industrial, tendo como slogan a frase “50 anos em 5”. Tal política, no entanto, deixou graves sequelas para o país, como o aumento vertiginoso da inflação e das desigualdades econômicas e sociais. Enquanto os ricos e a classe média aumentaram suas riquezas, com o desenvolvimento industrial e a facilidade na aquisição de bens, as classes mais baixas do país se viram com um poder de compra cada vez menor. A charge apresentada na questão ironiza essa desiguladade e ainda traz mais uma elemento: o Plano de Metas, ou seja, o plano do governo para atingir o grau de desenvolvimento e modernização desejado.

Assim, a resposta certa está na alternativa C, pois é nela que temos evidenciada a contradição que existiu naquela fase do país.

Por que as outras estão erradas?

  1. a) Essa afirmação está errada, pois apresenta justamente uma condição oposta àquela encontrada no período sobre a desigualdade social.
  2. b) A modernização das indústrias não teve como objetivo o abastecimento de alimentos para o mercado interno. Na verdade, ela era voltada para indústrias como a automobilística, a siderúrgica e a metalúrgica.
  3. d) Essa alternativa está errada, pois não se encontrava, naquele período, uma preocupação com o aumento dos salários dos trabalhadores, e, como foi dito anteriormente, esse foi um momento de endividamento e perda do poder de compra dos brasileiros mais empobrecidos.
  4. e) A ocupação de regiões do interior do país esteve presente na política governamental de JK, como se com a criação da SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), que visava à promoção do desenvolvimento regional e mesmo na criação de Brasília. Mas essa afirmativa não tem relações com a charge apresentada. É preciso levar em consideração a proposta da questão.

CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK https://www.facebook.com/historiandonanet07

Publicado em Brasil República | Deixe um comentário