Mercantilismo

Aqui no blog nós sempre discutimos sobre o processo de construção histórica. Se a Revolução Francesa é, até hoje, um elemento chave na compreensão da história ocidental, é porque, além de ter modificado a estrutura política de um país, ganhou notoriedade entre os historiadores, que enxergaram a peculiaridade desse evento. Ou seja, muito daquilo que aprendemos na escola está ligado ao processo de escolha feito por um grupo de historiadores em um determinado período. Por isso dizemos que o historiador é um sujeito histórico, influenciado pelos assuntos do presente.

E por que essa introdução para falar de mercantilismo? Porque o Mercantilismo é um exemplo desses fatos e conceitos criados e apropriados por pensadores ao longo do tempo que nos auxiliam a entender o desenvolvimento político e econômico de uma sociedade.

O conceito foi criado por pensadores liberais e/ou iluministas no século XVIII, para compreender o período conhecido como o da fundação das monarquias Absolutistas e das Grandes Navegações. Esse momento da história europeia é fundamental para entendermos o desenvolvimento das colônias americanas, e o mercantilismo foi a prática econômica que guiou as monarquias absolutistas nesse processo.

A política econômica mercantilista abrangia duas atividades correlacionadas: a exploração – que poderia ser por meio da mineração ou da monocultura agrícola – e o acúmulo de riquezas. Ambas só foram possíveis devido ao momento de centralização política. E esse processo não foi homogêneo na Europa, assim como nenhum outro conhecido. A Inglaterra instituiu a Dinastia Tudor depois de diversas brigas dinásticas que culminaram na Guerra das Duas Rosas entre 1455-1485. A França viveu a consolidação do Absolutismo com a Dinastia Bourbon, mas já sentia os efeitos da vitória na Guerra dos Cem Anos com a Dinastia de Valois e a importância do poder real centralizado. Isso é um exemplo partilhado pelo Mercantilismo: apesar de ser uma teoria econômica e ter algumas características marcantes, foi experimentado de formas especificas pelas monarquias europeias.

Dentre essas características, encontramos algumas em mais destaque:

Comércio/Exploração: exercidos profundamente pelos países, ambos foram fundamentais para o processo de acúmulo de metais e produção das monoculturas agrícolas. Além disso, a busca pelas atividades comerciais era necessária para manter a Balança Comercial Favorável.

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Frans Post – Engenho com capela – 1667

Balança Comercial Favorável: esse era o “índice de desenvolvimento” da época. Manter a balança favorável significava estar sem dívidas, que, por sua vez, significava exportar mais do que importar, criando essa busca incessante por riqueza.

Tudo isso só era possível, contudo, devido à:

Intervenção estatal: o Estado como condutor da economia foi fundamental para o estabelecimento das práticas mercantilistas e do projeto colonial. E isso significava intervir e regulamentar as regras, os preços, os impostos, a importação, a exportação, em suma, controlar todo o sistema econômico na finalidade e abocanhar a maior fatia dos lucros

Para facilitar nosso entendimento, convencionou-se a dividir o processo mercantilista em 3 fases:

  1. Século XVI – Revolução dos Preços: com a descoberta das férteis minas de ouro no México e Prata na América do Sul, os países europeus encontraram uma saída para a escassez de metais preciosos que sofriam. A entrada dessas riquezas foi tão significativa que o momento recebeu o nome de Metalismo e foi fundamental para a Revolução dos Preços.
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Herman Moll – Mapa da América do Sul, 1715

Foi o século de Portugal e Espanha, do domínio ibérico do Atlântico. A importância desses pequenos países foi tão grande, que a França, em 1555, e a Holanda, em 1620, tentaram de diversas formas se estabelecerem no território brasileiro. Portugal, além da monocultura açucareira no Brasil, também colonizou partes da África e da Ásia, estendendo o seu domínio para o Oceano Índico.

Uma questão interessante era o conhecimento técnico que os países ibéricos possuíam, muito caros às influências culturais e saberes compartilhados pelos árabes, exímios comerciantes.

 

  1. Século XVII – Estabilização e Depressão: enquanto no século anterior, os países viveram a abundância, nos seiscentos encontraram a depressão. Se pensarmos na história como algo cíclico, aquele período de acúmulo ilimitado sofreria algum tipo de arrocho, pois o enriquecimento vem seguido do inchaço estatal. Para conseguir dar vazão ao processo exploratório, o Estado necessitou, e muito, da iniciativa da burguesia, financiada pelas monarquias. Além disso, o projeto colonial não abarcava apenas a exploração econômica. Foram deslocados enormes contingentes para as novas colônias e o estabelecimento de políticas coloniais, aumentando o já considerável número de funcionários públicos. Todos esses aspectos contribuíram para a depressão das práticas mercantilistas de acúmulo de riquezas.

No âmbito político, as colônias sofriam cada vez mais com suas próprias demandas, o surgimento das primeiras gerações de portugueses e espanhóis nascidos em terras coloniais, a dificuldade em lidar com a mão de obra escrava e, sobretudo, as invasões. Inglaterra encontrou no tráfico e na pirataria formas de enriquecer, já Holanda e França mantinham fortemente a disputa pelos territórios americanos, causando a necessidade de deslocamento de forças militares para alguns locais, que, obviamente, também custa caro.

 

  1. Século XVIII – último fôlego: nessa época, a prática mercantilista começou a ficar obsoleta. Os Estados absolutistas apresentavam problemas estruturais inaceitáveis pela população, sobretudo pela burguesia enriquecida pelo próprio mercantilismo. Essa nova classe que crescia economicamente, também queria partilhar o poder, e encontrou na política hierarquizada absolutista um empecilho fundamental. Além disso, as monarquias enfrentavam uma escassez de metal, a não ser por um breve momento, com a descoberta de minas de prata no México e de ouro no Brasil. Espanha e Portugal abraçaram fortemente essa nova oportunidade, aumentaram os impostos e acumularam o que podiam. Porém, a máquina estatal estava tão inflada, que o fôlego foi perdido rapidamente.

 

Enquanto alguns países tentavam se salvar, no século XVIII temos dois processos revolucionários que mudaram completamente o cenário mundial. A industrialização encabeçada pela Inglaterra e a independência dos Estados Unidos, trouxeram novas perspectivas políticas, econômicas e sociais, abalando a já enfraquecida estrutura absolutista e mercantilista.

Ana Carolina Machado

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A Pré-História – Surgimento do homem e Período Paleolítico

Os historiadores do século XIX acreditavam que a História só poderia ser feita e estudada por homens que praticavam a escrita. Tal constatação levou à exclusão de homens e mulheres “comuns”, analfabetos de seu papel como sujeitos históricos, pessoas cujas ações transformam o rumo das coisas. Além dessa exclusão, uma segunda foi feita: os homens que não conheciam a escrita (os chamados homens das cavernas) também não poderiam ser considerados como parte ativa da trajetória do mundo. Assim, no momento em que tais historiadores decidiram dividir a História em “Idades”, o período em que viveram os primeiros homens foi considerado um episódio “anterior” à História propriamente dita, isto é, foi chamado de “Pré-História”.

A História começaria apenas quando o homem inventou a escrita, tornando possível o estudo de suas ações e demonstrando o uso da inteligência do homem. Do surgimento dos primeiros humanos à invenção da escrita então temos o chamado período pré-histórico, que ainda pode ser dividido em dois momentos diferentes: Paleolítico e Neolítico.

Tal divisão da História dá conta de milhões de anos, cujo conhecimento somente é possível graças aos estudos de arqueólogos e paleontólogos que nos fornecem informações que normalmente são aproximadas, dada a impossibilidade de qualquer exatidão quando se fala de períodos tão remotos. Além disso, esses conhecimentos estão em constante modificação, pois a todo momento novas descobertas são feitas, transformando todo o conhecimento anterior.

Um dos momentos mais importante para o conhecimento da evolução do homem (depois da conclusão de Charles Darwin de que o homem e o macaco possuíam um ancestral comum, em 1859) foi a descoberta de um fóssil, no deserto de Afar, na Etiópia, que ficou conhecido como Lucy, em 1974. O nome se deve à canção dos Beatles Lucy in the sky with Diamonds, que foi tocada durante as comemorações da descoberta. Os cientistas conseguiram recuperar quase 40% do esqueleto de Lucy, um hominídeo bípede, da família dos Australopithecus, de aproximadamente 3 milhões de anos.

lucy

Esqueleto da Lucy, exposto no Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. Existem réplicas do esqueleto em alguns museus do mundo.

Cinco anos depois outra descoberta foi essencial para definir como se deu a evolução dos hominídeos. Os cientistas encontraram pegadas fossilizadas de cerca de 6 milhões de anos, que demonstravam que espécies de primatas teriam liberado as articulações superiores da função locomotora para outras atividades e movimentos. Gradativamente, foram sendo realizadas interações das mãos com o sistema cerebral, num longo processo de desenvolvimento evolutivo, chamado de hominização, que, no entanto, não foi linear nem uniforme.

Para que os primatas pudessem ser considerados humanos, outras modificações foram necessárias, frutos do processo seletivo natural, como o crescimento da caixa craniana, a visão binocular (através dela, os hominídeos aprimoraram a capacidade de ver uma imagem única com os dois olhos, avaliar distâncias e enxergar em três dimensões) e o deslocamento contrário dos dedos polegares (nos pés, numa posição paralela, para tornar possível um maior apoio para o corpo, e nas mãos, numa posição oponível, que permitia agarrar os objetos).

O processo de desenvolvimento evolutivo do homem durante o Período Paleolítico, ou Idade da Pedra Lascada, que se iniciou há 3 milhões de anos e cujo término é estimado em torno de 10 000 a.C., envolveu, principalmente, a interação entre as mãos e os olhos, permitida pelo desenvolvimento do sistema nervoso do cérebro em expansão. Tal cooperação possibilitou ao homem a fabricação das primeiras ferramentas e utensílios. E, nesse período, a matéria-prima usada pelos homens foram ossos, madeira e lascas de pedra.

Homo habilis

Após a evolução que permitiu ao hominídeo andar somente sobre os pés, o Homo habilis (“homem hábil”) passou a utilizar as mãos para trabalhar as pedras e construir ferramentas que auxiliavam as atividades de caça e coleta. Viviam na África em grupos de 15 a 20 indivíduos, levando uma vida nômade.

Homo erectus

Há cerca de 1,5 milhão de anos, desenvolveu-se no continente africano o Homo erectus (“homem ereto”), que foi capaz de aperfeiçoar as ferramentas e elaborar novas maneiras de trabalhar as pedras. Entre 500 mil e 400 mil anos atrás, ele também foi responsável pela domesticação do fogo. Ele foi o primeiro a descobrir uma forma de fazer o fogo, não sendo mais tão dependente da natureza. Com esses conhecimentos, o homem passou a se deslocar pelo continente africano.

Homo neanderthalensis

Apareceu por volta de 100 mil anos atrás e leva esse nome por ter sido encontrado no lago Neander, na Alemanha. Ele possuía capacidade de fala e realizava rituais religiosos, cuidava dos idosos e das crianças e deixou muitos vestígios de sua ação, através das pinturas rupestres.

Homo sapiens

Entre 200 e 100 mil anos atrás, teria surgido o Homo sapiens (“homem inteligente”), nosso ancestral direto. Ele desenvolveu utensílios de madeira e pedra e aproveitou outros materiais para isso. Demonstrou grande capacidade de adaptação, vivendo em diferentes tipos de habitats e foram também os primeiros a demonstrar sinais de manifestações artísticas e culturais.

Os homo sapiens povoaram lentamente o mundo e a partir de 10.000 a.C. eles podiam ser encontrados nas mais variadas partes do mundo.

Charles Darwin in 1881

Charles Darwin, com seu livro “A origem das espécies” foi o primeiro a afirmas que o macaco e o homem possuíam um ancestral comum.

Caçadores e coletores

Os homens do Período Paleolítico são chamados de coletores e caçadores, pois viviam somente daquilo que a natureza oferecia, o que lhe forçava a se mudar constantemente à procura de novas presas e novas fontes de coleta, ou seja, eram nômades. Viviam em grupos de 20 a 30 pessoas e dividiam-se entre si na caça e na coleta, fortalecendo um elo social.

Acredita-se que havia uma divisão de trabalhos entre homens e mulheres, mas os antropólogos destacam a existência de certa igualdade entre eles. As mulheres, por serem responsáveis pelos cuidados com as crianças, permaneciam nos acampamentos, coletando raízes, grãos e frutos, e defendendo o grupo de ataques de animais, enquanto os homens saíam para caçar e pescar.

Com a domesticação do fogo, que ocorreu por volta de 500 mil anos atrás, o homem passou a ter maior capacidade de adaptação, pois podia suportar as noites frias, podendo se deslocar para regiões cada vez mais frias. Além disso, o fogo afugentava animais, permitia que os alimentos fossem cozidos e, mais tarde, tornou possível a manipulação de metais. Assim, a fabricação de ferramentas e a utilização do fogo denunciam a capacidade de adaptação cultural do homem.

Ao longo desse processo evolutivo, o homem também demonstrou a necessidade de se comunicar através da fala e também de manifestações artísticas, como as pinturas rupestres, que são pinturas feitas em superfícies rochosas que demonstram aspectos do cotidiano do homem pré-histórico. Até hoje, muito se discute sobre a natureza e o caráter dessas pinturas, mas é certo que tais manifestações demonstram que esses homens não estavam apenas sobrevivendo, mas transformando a natureza ao seu redor e deixando seus vestígios no mundo.

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O Genocídio Armênio

A história mundial é marcada por fatos tristes e muitas vezes criminosos, hoje vamos abordar mais um destes momentos difíceis, o genocídio armênio. O extermínio sistemático de armênios ocorreu entre os anos de 1915 e 1923 e teve seu ápice durante a Primeira Guerra Mundial, com a morte de aproximadamente um milhão de armênios mortos. O Império Otomano era composto por várias minorias étnicas, inclusive pelos armênios que historicamente ocupavam a região da chamada Ásia Menor e eram predominantemente cristãos. É preciso manter a questão religiosa e territorial em mente para entender as motivações do genocídio.

Já no final do século XIX, o Império Otomano se encontrava enfraquecido pelas constantes perdas territoriais, a elite otomana temia que a fração oriental do império (Ásia Menor) se tornasse independente como aconteceu com a região dos Balcãs. Sendo assim, a área habitada pelos armênios era a mesma que o império buscava proteger, pois a região era importante e estratégica dentro do contexto da Primeira Guerra Mundial, uma vez que se tratava de uma área fronteiriça entre os Impérios Otomano e Russo.

mapa

A proximidade da região com o Império Russo tornou inevitável o contato dos armênios com os russos. Isso gerou uma ligação entre estes povos, que partilhavam características culturais similares como, por exemplo, a religião. Tanto os armênios quanto os russos eram predominantemente cristãos ortodoxos, sendo assim, muitos  se identificavam mais com os russos do que com os otomanos. Esta ligação fez com que muitos armênios, durante a Primeira Guerra Mundial, combatessem ao lado das tropas russas czaristas contra o Império Otomano. Segundo as lideranças do império, as derrotas das tropas otomanas nas batalhas da Campanha do Cáucaso, iniciada em outubro de 1914, foram atribuídas à ajuda armênia ao exército russo.

Após esta derrota os armênios passaram a ser considerados inimigos internos do Império Otomano e deveriam ser eliminados. A ajuda armênia aos russos foi a desculpa que as lideranças otomanas usaram para iniciar a perseguição à esta minoria e garantir assim sua soberania na região. A partir deste ponto foi intensificada, no Império, o movimento político do panturquismo, que buscava valorizar os povos turcos e seus descentes em detrimento de outras etnias, principalmente aquelas cristãs como os armênios, gregos e assírios. Uma destas políticas foi a aprovação de Atos de Deportação em zonas de guerra.

Em relação aos armênios, foi criado um plano de extermínio que começou a ser executado em janeiro de 1915. Já em 24 de abril daquele ano, 250 líderes comunitários e intelectuais foram presos em Constantinopla, capital otomana. A partir deste dia, tropas imperiais se dirigiram para as cidades e vilas da Ásia Menor, obrigando as famílias armênias a deixarem suas casas. Estas tropas estavam munidas de ordens de deportação, assinadas pelo sultão, que alegava que a área deveria ser esvaziada, pois aquela era uma zona de guerra.

As famílias deixavam suas casas e passavam a integrar as chamadas caravanas de deportados rumo, aos desertos da região. Centenas de milhares morreram no caminho por fome, sede, inanição, moléstias ou assassinados pelas tropas imperiais ou paramilitares, principalmente curdas. Vale ressaltar que grande parte dos armênios mortos era composta por crianças e mulheres, pois os homens foram destacados para os campos de batalha ou para campos de trabalhos forçados servindo como mão-de-obra escrava para construção de estradas como, por exemplo, a Berlim-Bagdá.

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Foto do acervo do Museu Genocídio Armênio, pertencente à Coleção do miliar russo Parakhodov.

A morte de armênios durante o deslocamento forçado foi divulgado pelo império como mortes decorrentes do cenário de guerra. Assim como o Império Otomano nunca assumiu a responsabilidade pelo projeto de extermínio armênio, a República da Turquia, nega que tenha existido o genocídio. O governo turco reafirma a justificativa otomana de que estes armênios morreram em decorrência da guerra e não vítimas de um extermínio sistemático projetado pelas lideranças otomanas. Até os dias de hoje, o Estado Turco toma medidas autoritárias para barrar pessoas que apoiam e/ou são solidárias às reivindicações armênias, com a aplicação do artigo 301 do Código Penal Turco que pune com prisão àqueles que ofendem os valores da nação turca, ou seja, qualquer pessoa que afirmar que o Império Otomano ou o Estado Turco, herdeiro do império, foi responsável pelo genocídio por responder criminalmente pelo ato de ofensa à Turquia.

O Brasil recebeu muitos armênios que deixaram o Império Otomano por conta das perseguições a esta minoria. Aproximadamente 25 mil armênios encontraram refúgio no país, concentrando-se, principalmente na cidade de São Paulo, onde formaram uma comunidade forte e unida. Como homenagem a estes imigrantes, no ano de 1985, uma estação do Metrô da cidade de São Paulo ganhou o nome de Armênia. Próxima a esta estação há a Igreja Apostólica Armênia São Jorge, uma construção belíssima e símbolo da força e união desses imigrantes.

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Igreja Apostólica Armênia São Jorge – São Paulo -SP

Ainda hoje milhões de armênios lutam pelo reconhecimento mundial do genocídio cometido pelo extinto Império Otomano durante os anos de 1915 e 1923, até hoje pouco mais de 20 países já reconhecem o genocídio. O Brasil não se posicionou oficialmente, pois o reconhecimento do genocídio implicaria em confrontos diplomáticos com a Turquia. Cabem aqui alguns questionamentos, por que alguns genocídios são reconhecidos e outros não? Será justo sobrepor interesses diplomáticos à consciência? Um crime dessa magnitude pode mesmo ser esquecido ou negligenciado por grande parte do mundo?

Bruna Borges

Saiba Mais:

http://www.genocide-museum.am/eng/index.php

 

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Revolta da Vacina

Durante a chamada República Oligárquica, quando os cafeicultores apossaram-se do poder em 1894, com o primeiro presidente civil do país, Rodrigues Alves foi eleito, em 1902, para dar continuidade à chamada “política dos governadores”. A fim de investir em obras públicas e ostentar uma aparência de prosperidade, Rodrigues Alves adquiriu vários empréstimos no exterior, aumentando ainda mais a dívida externa do Brasil.

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Presidente Rodrigues Alves (1902-1906)

Em seu governo, foram realizadas grandes obras públicas, como a remodelação do porto e a construção da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) na cidade do Rio de Janeiro. O desejo de transformar a cidade, tornando-a mais moderna já vinha de administrações anteriores, mas foi só com a nomeação, por parte do presidente da República, do prefeito Pereira Passos que a remodelação da cidade foi possível, começando pela abertura e alargamento de ruas e praças e o saneamento da lagoa Rodrigo de Freitas.

Em meio a esse desejo de renovação e modernização da capital do país, o médico sanitarista Osvaldo Cruz lançou uma campanha para erradicação da febre amarela e da varíola. Mas ao mesmo tempo em que o governo central procurava propagandear a prosperidade e modernidade do país, o desemprego e o alto custo de vida assolavam a população, especialmente na capital do país. Assim, numa política sanitarista baseada na imposição e repressão, o governo de Rodrigues Alves regulamentou, em 31 de outubro de 1904, a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, vacina esta que já havia sido utilizada na Europa, mas ainda era muito pouco conhecida no Brasil.

Diante do conturbado cenário político, no qual Rodrigues Alves lidava com a oposição dos chamados republicanos radicais, que eram, em sua maioria, positivistas, e dos monarquistas, a lei gerou alguns protestos por parte de políticos e da imprensa. Até a publicação do plano de regulamentação da aplicação da vacina, em 9 de novembro, os ânimos foram se exaltando até culminar em conflitos populares.

O argumento do governo se baseava nos números da doença no Brasil, especialmente na cidade do Rio de Janeiro que, naquele mesmo ano, havia sido palco de um amplo surto epidêmico. Assim, para acabar com essa doença, a solução seria aplicar, em caráter obrigatório, sob a alegação de que era dever do governo cuidar do bem-estar da população, uma vacina que já havia sido utilizada com sucesso em países da Europa.

A oposição, por sua vez, contestava os métodos de aplicação da vacina, ressaltando as atitudes truculentas da polícia e de enfermeiros que haviam manifestado instintos brutais e moralidade discutível durante a campanha pela extinção da febre amarela, episódio recente na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, os opositores ainda questionavam a questão da obrigatoriedade da vacinação. Se ela tinha tantas qualidades e eficácia como o governo propagandeava, então as pessoas poderiam escolher se submeter à vacina ou não. Como exemplo desse argumento pode-se ver o discurso do senador Lauro Sodré, ex-militar, positivista e líder maçom que criticava o caráter autoritário da lei: “arbitrária, iníqua e monstruosa, que valia pela violação do mais secreto de todos os direitos, o da liberdade de consciência.”

Até mesmo um político conservador de grande influência como Rui Barbosa, se mostrou reticente e desconfiado com relação à vacinação, afirmando que o governo não teria direito de “envenenar, com a introdução no meu sangue, de um vírus sobre cuja influência existem os mais bem fundados receios de que seja condutor da moléstia ou da morte”. Se inclusive um membro da elite do país questionava a vacina e se mostrava temeroso com a possibilidade de receber o vírus da doença, o que dizer da população carente e desinformada que ainda sofria com o desemprego e as péssimas condições de vida?

O clima, então, não era propício para a aplicação de uma vacina obrigatória e, em 5 de novembro de 1904, foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória e quanto a regulamentação sobre a aplicação da lei foi publicada, alguns dias depois, a população logo se rebelou. Os termos da regulamentação, elaborada pelo médico sanitarista Osvaldo Cruz, eram rígidos e previam a vacinação inclusive em recém-nascidos e idosos, impondo ainda exames e ameaçando a população com multas e demissões.

Em 10 de novembro, a população saiu às ruas para protestar, mesmo com as ordens do governo proibindo concentrações públicas. A partir de então a cidade se tornou palco de choques entre a polícia e manifestantes, que erguiam barricadas, incendiavam bondes e depredavam lojas. Três dias depois, os conflitos já tomavam grandes proporções, como se pode ver no artigo publicado pelo jornal Correio da Manhã:

“Bondes são virados para servirem de trincheiras. As ruas General Câmara, Ouvidor, Prainha, av. Passos, Imperatriz e outras ficam tomadas de barricadas: postos policiais são assaltados. A luta se intensifica, e as tropas policiais, ajudadas pelos bombeiros, são incapazes de vencer todos os focos populares.”

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Bonde virado na Praça da República

Nos três dias que se seguiram, o clima continuou tenso e os conflitos aumentaram. O número de feridos de ambos os lados só crescia e a cada momento chegavam novos contingentes de policiais e novos revoltosos saíam às ruas. Aos poucos, as autoridades foram perdendo o controle da região central e de alguns bairros periféricos, como a Saúde e a Gamboa. Ao tentar reestabelecer a “ordem” nessas regiões, os policiais altamente armados acabavam sendo expulsos por uma população revoltada e cheia de vontade. Os becos, as demolições, as casas abandonadas acabavam se tornando armadilhas e refúgios para os populares, que utilizavam aquilo que estava ao seu alcance.

Para reverter a situação, o governo recorreu ao Exército, à Marinha e até ao corpo de bombeiros, que recebeu armas para ajudar as tropas governistas. A Guarda Nacional também foi acionada e logo foram realizados bombardeios nas casas dos populares, o que, aos poucos, desmobilizou os revoltosos. As tropas infiltravam-se nas casas, expulsando seus habitantes, para transformá-las em barricadas e o número de mortos e feridos aumentava vertiginosamente.

Ao mesmo tempo, outro fato alardeou o governo: uma revolta militar ocorreu, em 14 de novembro, cujo objetivo era tirar Rodrigues Alves do governo. Os jovens militares, instados por republicanos florianistas, já tinham planos de um golpe para o dia 15 de novembro (aniversário da Proclamação da República), mas os acontecimentos da revolta popular precipitaram os acontecimentos.  Mas a resposta das tropas leais ao governo foi rápida e, no dia seguinte, à sublevação, os revoltosos foram obrigados a ceder.

No dia 16 de novembro, com os conflitos ainda ocorrendo nas ruas, o governo acabou revogando a obrigatoriedade da vacina. Assim, o movimento dos populares refluiu e logo cessou, tão espontaneamente quanto havia começado. O governo então conseguiu colocar suas energias na repressão aos militares revoltosos e à população, que foi perseguida e presa em grandes números.

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Imagem da cidade após os conflitos

Após os conflitos, a cidade estava irreconhecível; cheia de ruínas, trincheiras, lâmpadas quebradas, manchas de sangue por todos os lados. O número de mortos e feridos não chegou a ser calculado com exatidão, nem o número de presos, que foram levados para prisões no norte do país. Mas pode-se afirmar que essa revolta, que se iniciou contra uma medida sanitária acabou se tornando um dos maiores levantes populares da cidade do Rio de Janeiro e da jovem República brasileira.

Os significados desse grande levante, no entanto, não dizem respeito somente à desconfiança da população com relação à vacina e sua forma de aplicação, mas sim contra uma política antiga de segregação da população pobre da cidade do Rio de Janeiro, cujas condições de vida eram cada dia mais precárias.

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O Império Otomano

O Império Otomano foi um dos principais impérios da Idade Moderna, sendo por muito tempo o centro de comunicação entre oriente e ocidente. Surgiu no ano de 1299,  perdurou até o século XX (1923). Em seu auge, entre os séculos XVI e XVII, alcançou a extensão territorial que abrangia o norte do continente africano, o sudeste europeu e o Oriente Médio.  Teve seu nome derivado de um de seus líderes mais importantes, o sultão Otman I, que transformou as tribos nômades, fixadas na região da Anatólia, em uma dinastia imperial, nomeada de Otomana. Essas tribos contribuíram para a disseminação da religião islâmica em terras dominadas pelo Império Bizantino .

O ano de 1453, foi importante para o Império Otomano porque, após intensas campanhas militares contra o Império Bizantino, a cidade de Constantinopla foi conquistada e tornou-se a capital do império. Este ano representou o início da supremacia otomana, momento de ascensão econômica graças às posteriores e bem-sucedidas caravanas que comercializavam especiarias com o Ocidente e das políticas agrícolas e das ações militares do sultão Mehmed II.

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Mapa mostra o auge da extensão territorial do Império Otomano

O estado otomano era considerado multiétnico, era formado por armênios, gregos, romenos, turcos, sérvios, búlgaros e árabes. O turco era a língua oficial e o árabe era usado em cerimônias e textos religiosos. A religião é um ponto importante para ter compreensão da diversidade do império, por ser formado por diferentes etnias, vários grupos religiosos conviviam de forma respeitosa cristãos católicos e ortodoxos, mulçumanos sunitas e xiitas, judeus entre outros.

Embora o islamismo fosse a religião oficial, essas outras eram vivas e parte importante da vida e identidade de cada um dos grupos que formavam o império. Apesar de aceitas, os praticantes das religiões não oficiais recebiam tratamento diferente, sendo obrigados a pagar impostos específicos e dificilmente chegavam a ocupar cargos importantes. A longevidade do império pode ser atribuída ao forte poderio militar e, em larga escala, pela tolerância com as tradições dos povos dominados, neste ponto deve-se salientar que a tolerância era de interesse da elite dominante, uma vez que os praticantes de outras religiões eram obrigados a pagar impostos, dos quais os mulçumanos estavam isentos, aumentando assim a arrecadação do Império.

Declínio

Já no século XIX, o Império começou a enfrentar um processo de estagnação, a produção agrícola enfrentou dificuldades e a peste bubônica vitimou grande parcela da população otomana. O declínio não ocorreu apenas por fatores internos, mas também em decorrência das transformações mundiais e a crescente competitividade dos Estados europeus, principalmente pelos efeitos gerados pela industrialização que enfraqueceu um dos braços econômicos mais importantes do império, o comércio de produtos têxteis. Além das questões econômicas, o império já enfrentava baixas territoriais. Em 1798, o Egito foi tomado por Napoleão e junto com a dominação napoleônica, as ideias modernas e iluministas entraram no império, desagradando assim as elites otomanas. Influenciadas por essas ideias, lideranças das minorias étnicas passaram a se organizar e criar movimentos pró-independência , como aconteceu com a minoria sérvia que criou o Estado Sérvio em 1830 e a Grécia que, em 1833, se declarou Reino Independente da Grécia. Estas perdas territoriais e o enfraquecimento econômico aumentaram a instabilidade política do império.

Em meio a este momento instável surgiu um movimento político que será muito importante para a criação da República da Turquia, o nacionalismo turco, que nasceu como resposta ao período delicado que o estado enfrentava. O suspiro final do Império Otomano foi a Primeira Guerra Mundial, suas tropas combateram ao lado dos Impérios Alemão e Austro-Hungaro. O exército otomano sofreu várias derrotas, principalmente na região do Cáucaso, o que gerou um enfraquecimento irreversível, uma vez que a região era estratégica, principalmente para a Rússia.

Criação da Turquia

Com o fim da Primeira Guerra em 1918, o mundo passou por um momento de realinhamento e, em 1920, o Império Otomano assinou o Tratado de Sèrves, um tratado de paz em que os aliados impuseram o desmembramento do Império que teve sua extensão reduzida à Anatólia (correspondente à Turquia asiática). A Grécia e a Armênia conquistaram o direito à independência e as províncias árabes passaram a ser dominadas pelos britânicos e franceses.

O tratado de paz desagradou às lideranças do nacionalismo turco, que se negaram a aceita-lo. Mustafá Kemal, líder nacionalista, mobilizou e reorganizou o extinto Exército Otomano e travou a Guerra de Independência Turca, expulsando os aliados e abolindo o sultanato na região. No ano de 1923 é criada a República da Turquia, Mustafá Kemal, chamado de Atatürk (pai dos turcos) torna-se presidente, transfere a capital de Istambul (antiga Constantinopla) para Ancara, parte central do país.

Atatürk , implantou reformas radicais no país como, por exemplo, a secularização do Estado, a reforma educacional (o turco passou a ser ensinado no alfabeto latino em vez do persa-árabe), implementou igualdade civil entre homens e mulheres, aboliu o uso do véu nas universidades e locais públicos, entre muitas outras reformas. O Estado turco é bastante importante dentro da geopolítica internacional e regional, é um país cheio de contradições que serão exploradas em posts futuros.

mausoleo

Mausoléu de Ataürk localisá-se na capital turca, Ancara. O monumento abriga também o museu da Guerra de Independência Turca, que é um dos monumentos mais visitados do país.

Dicas de leitura

QUATAERT, Donald G. O Império Otomano: Das origens ao século XX. Portugal. Edições 70. 2008.

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Idade Média – a Alta Idade Média e a Dinastia Merovíngia

O conceito de Idade Média foi criado a partir da noção de que a Antiguidade Clássica e o Renascimento constituíram o ápice do desenvolvimento do homem. Essa concepção criada pelos modernos atribuía ao período medieval uma época de estagnação, de atraso, preconceitos materializados com a alcunha de “Idade das Trevas”. Os medievalistas demonstram, contudo, que essa ideia não corresponde ao período, que nos trouxe um desenvolvimento cultural enorme. Um exemplo: as universidades surgiram na Idade Média, a centralização monárquica, com as Monarquias Nacionais e a criação dos Estados europeus. Como durou 1000 anos, do século V ao XV, foram diversas as transformações e consolidações vividas pelo homem, desde a ruralização até a retomada do comércio. Portanto, pensar nessa época como obscura e estagnada não é só errôneo como anacrônico.

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Mapa da Alta Idade Média

Neste post, vamos falar de um episódio específico da Alta Idade Média, a invasão da Gália pelos francos e a Dinastia Merovíngia. O fim do Império Romano foi marcado pelas invasões bárbaras aos territórios imperiais, sobretudo nas fronteiras mais longínquas à Roma e Constantinopla. A divisão de poderes entre Oriente e Ocidente enfraqueceram o comando central do Império e auxiliou os povos “bárbaros” a conquistarem as regiões que sofriam com a falta de segurança institucional. É o início da conhecida Alta Idade Média, período muito mais de continuidades do que mudanças abruptas. Porém, antes de discorrermos sobre a região francesa, temos que entender o termo bárbaro. Nesse caso, a ideia está relacionada ao que chamamos de alteridade, ou seja, o conhecimento sobre o outro. Com o tempo, o conceito de bárbaro ganhou o significado de não-civilizado, bruto, belicoso. Porém, eram os não romanos, isso quer dizer: germânicos, visigodos, godos, etc. Assim como no passado haviam sido os não gregos, ou seja, macedônios, persas. Estes, por exemplo, chamavam de bárbaros, e de maneira pejorativa, os turcos.

Esses povos possuíam uma organização social o suficiente para abalarem as estruturas dos impérios e governos vigentes. Os Francos, como ficaram conhecidos os bárbaros que invadiram a Gália, região da atual França, foram considerados diferenciados por causa da centralização política, que ajudou no processo de estabelecimento no território invadido.

Além disso, outra disposição importante foi a aliança construída com a Igreja Católica. Com o fim de Roma, as instituições políticas se desfaleceram, e a única instituição que sobreviveu, e que se desenvolveu e se fortaleceu, foi a Igreja. A união foi prova da sagacidade do rei franco Clóvis, que sabia que seu poder não seria consolidado sem qualquer tipo de absorção das estruturas locais. Ou seja, para que o novo governo franco se estabelecesse na região, eles precisavam do apoio da população. Para isso, seus costumes e tradições não poderiam desaparecer de uma hora para outra. Portanto, ao se converter, Clóvis determinou o caminho do seu governo e conseguiu consolidar a tomada da Gália. Foi o início da Dinastia Merovíngia.

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O primeiro rei franco a invadir a Gália foi Meroveu, mas foi somente com Clóvis, entre 481-511, seu neto, e suas vitórias contra os resistentes à invasão, que a Dinastia surgiu. Um dos grandes feitos foi a imposição da estrutura política própria dos francos, com a divisão do território em condados. Dessa forma, a administração foi fragmentada, facilitando o controle central com a designação dos cargos à figuras de confiança. Essa movimento foi importante, pois atribuiu muito poder à nobreza franca, demonstrando uma das principais características da Idade Média, que foi a descentralização administrativa e o poder crescente da nobreza. Major Domus foi o nome dado à instituição que os nobres coordenavam, e a sua existência fez com que o poder dos reis fosse menor do que conheceríamos no Absolutismo ou mesmo na época do Império Romano. Dessa forma, os reis francos foram conhecidos como reis indolentes.

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Joia merovíngia – séc. VI-VII

A dualidade de poder se tornou mais latente com a Batalha de Poitiers, de 732. Já no século VII, com Pepino de Heristal, um dos nobres que comandavam a Major Domus, ficou tão fortalecido que transformou o seu cargo em hereditário e vitalício, além de desliga-lo de qualquer jurisdição real. Isso demonstrava o poder que a nobreza alcançou. No século VIII, a França sofreu uma tentativa de invasão árabe, que foi abafada pelas tropas coordenadas por Carlos Martel, filho de Heristal. A batalha estreitou ainda mais a aliança com a Igreja Católica, pois livrou a região do domínio muçulmano, e fortaleceu uma nobreza que já dominava a política do país.

A Dinastia Merovíngia se viu mortalmente abalada pelos acontecimentos em Poitiers. Pepino, o Breve, filho de Martel, desferiu o golpe final, ao destituir o rei merovíngio e dar início a outra dinastia na França, a Carolíngia.

Foi a partir desse período que temos o processo de feudalização do país, além do desenvolvimento cultural, com o Império Carolíngio e o chamado Renascimento Carolíngio.

Ana Carolina Machado de Souza

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República Romana – Parte 2

Com a conquista de terras e de pessoas, após o processo de expansão romana, a sociedade sofreu um processo de transformações. O aumento no número de escravos, muito utilizados na agricultura e em algumas atividades urbanas, causou um grande êxodo rural, pois os pequenos produtores acabaram perdendo espaço e mudaram para as cidades à procura de uma nova fonte de renda.

Das novas relações comerciais com as províncias conquistadas, formou-se uma camada de grandes comerciantes romanos que, apesar da fortuna, não podiam participar ativamente da política. O cenário então para os patrícios que comandavam os rumos da política não estava mais tão favorável: havia pressões tanto dos camponeses destituídos de suas terras e que se tornaram desempregados nas cidades, quanto dos grandes comerciantes, desejosos de uma maior participação nas decisões fundamentais para a sociedade. Assim, a falta de terras, a desigualdade social e o crescimento desordenado das cidades agravou o quadro de tensão social.

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Mosaico romano com representação dos escravos

Foi nesse momento que dois tribunos da plebe, Tibério e Caio Graco, trouxeram algumas ideias para solucionar a crise, propondo, em 133 a.C., uma reforma agrária, além de outras proposições de caráter popular. Os patrícios não gostaram da ideia e vetaram a distribuição das terras e acabaram assassinando Tibério e vários de seus seguidores.

Mas as ideias de reforma agrária continuaram e, dez anos depois, Caio Graco, reeleito Tribuno da Plebe, retomou o projeto e ainda propôs, em 123 a.C., a Lei Frumentária, que determinava o fornecimento de trigo e pão para a população pobre de Roma a preços reduzidos. Mais uma vez, os patrícios reagiram e houve choques com os plebeus, resultando na morte de Caio Graco e no aumento da tensão social.

Crise da República

Para dominar e comandar um território tão vasto quanto aquele dominado pelos romanos após a expansão, o Exército foi ficando cada vez mais fortalecido, o que acabou tendo grandes consequências para a política romana.

Diante do contexto de crescente tensão social, os generais passaram a ter cada vez mais prestígio, ocupando cargos políticos e tendo o apoio da população, já que vários deles tinham uma origem plebeia e se aproximavam de seus interesses.

No caso dos generais Mário e Sila, diferentes interesses estavam em jogo na disputa pelo poder: enquanto o primeiro se ocupava das aspirações das camadas inferiores, o segundo se alinhava com os desejos dos patrícios. Das disputas entre os dois, Sila saiu vencedor e se proclamou Ditador, em 89 a.C.

Com sua renúncia, em 79 a.C., em razão de sua idade avançada, o poder foi disputado por diferentes grupos e, em 60 a.C., a solução encontrada foi a formação do Primeiro Triunvirato, composto pelos generais Júlio César, Pompeu e Crasso.

Em 53 a.C., Crasso morreu, o que causou novas disputas pelo poder entre os outros dois generais que compunham o Triunvirato, tendo como vencedor Júlio César. Em 46 a.C., ele se autoproclamou Ditador Vitalício, concentrando todo o poder em suas mãos, o que desagradou o Senado. Como resultado de uma conspiração, Júlio César acabou assassinado por Brutus (daí a expressão “até tu, Brutus, meu filho?”, já que Brutus era filho adotivo do ditador, a quem ele confiava não participar da conspiração).

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Busto de Júlio César (Museu Arqueológico Nacional de Nápoles)

A morte do ditador causou grande comoção popular, pois ele havia estabelecido a paz em Roma, ao limitar o poder dos patrícios. Outro general, Marco Antônio, se aproveitou da situação, se apropriando da popularidade de Júlio César, e, juntamente com Otávio (sobrinho do antigo ditador) e Lépido (chefe dos cavaleiros), formou o Segundo Triunvirato, em 43 a.C.

Nesse período, mais uma vez, procurou-se afastar o Senado do poder, mas o equilíbrio entre os governantes durou pouco: Lépido foi afastado, Otávio acabou ficando responsável pelo comando do território ocidental de Roma e Marco Antônio do oriental. Os dois logo romperam relações quando o segundo se aliou a Cleópatra, rainha do Egito e Otávio, por sua vez, passou a contar com o apoio dos membros do Senado.

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Cleópatra e César (1866), Jean-León Gerôme. O relacionamento de Otávio e a rainha Cleópatra se tornou tema para várias obras, inclusive filmes.

Em 32 a.C., Otávio derrotou as tropas de Marco Antônio e se apossou do território egípcio, tomando posse então de imensas riquezas. Senhor absoluto, ele recebeu do Senado os títulos de príncipe e de imperador de Roma, acumulando cargos que lhe garantiram plenos poderes. Assim, em 27 a.C., para reforçar seu domínio, ele se intitulou augustus, o divino, título que lhe atribuía poderes divinos e estabelecia o culto a sua figura. Inaugurava-se, assim, um novo regime e uma nova fase do predomínio romano, o Império.

Para saber mais:

FUNARI, Pedro Paulo. Grécia e Roma. São Paulo: Contexto, 2002.

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