Como e porque estudar a Antiguidade Clássica – Dicas e apontamentos

Antiguidade Clássica é um termo que se utiliza comumente para definir o período entre a invenção da escrita cuneiforme, na Mesopotâmia, até as invasões “bárbaras” ao Império Romano. Essa definição de Antiguidade, no entanto, traz consigo algumas implicações e uma das maiores diz respeito às civilizações que são incluídas no estudo desse período. Durante muito tempo, a historiografia considerava apenas o estudo das sociedades formadas nas regiões da Mesopotâmia  e Egito, e o mundo greco-romano.

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Acrópole em Atenas – Imagem clássica quando nos referimos à Antiguidade Clássica

Assim, essa divisão trazia consigo uma concepção de mundo bastante eurocêntrica, que considerava apenas as descobertas dessas civilizações como formadoras da nossa sociedade ocidental atualmente. No entanto, uma tendência que tem sido vista nos últimos 30 anos é considerar como parte da Antiguidade as civilizações que se formaram em outras partes do mundo.

Estudo mais recentes mostram e ressaltam a importância das descobertas e invenções de civilizações que se formaram na China, na Índia e na América, que também desenvolveram uma escrita elaborada, contestando a ideia de que a escrita foi inventada e somente praticada entre aquelas civilizações do Oriente Próximo.

No entanto, os vestibulares e os livros didáticos de História ainda se pautam enormemente no estudo da chamada “Antiguidade Clássica”, que compreende apenas o mundo greco-romano, que seria o grande depositário de nossas heranças. Assim, ainda que apareçam análises sobre as outras civilizações da Antiguidade (incas, maias, astecas, chineses) nos livros das escolas e nas questões de vestibular, a predominância do estudo da Grécia e de Roma ainda prevalece.

Seguindo essa tendência, então, é importante que os vestibulando se dedique ao estudo desses tópicos que, quase que invariavelmente, são abordados nas provas das Universidades. O estudo do chamado mundo Grego e do Império Romano requer muita atenção e dedicação, uma vez que são assuntos complexos, com muitos conceitos e divisões, mas especialmente porque são assuntos mais distantes de nossa realidade do dia-a-dia.

Dessa forma, para estudar esses assuntos, precisamos nos desvencilhar de alguns conceitos e ideias. Por exemplo, ao estudar o conceito de cidadania na república romana, devemos ter em mente que esse conceito era muito diferente naquela sociedade. Não é possível supor e aplicar nossos conhecimentos e visão de mundo para estudar essas civilizações. O mesmo vale, em outro importante tópico, para o entendimento da democracia na Grécia Antiga.

Já que falamos sobre esses pontos, cidadania e democracia, é importante destacar que ainda que os conceitos sejam diferentes dos atuais, eles formaram a base da construção da política ocidental moderna. Assim, o estudo das organizações políticas na chamada Antiguidade Clássica é essencial para o entendimento da formação e das noções de nossas instituições políticas atuais. Justamente por isso, os vestibulares costumam privilegiar questões relacionadas a tais conceitos.

No vestibular da Unicamp desse ano, um dos maiores do Brasil, a primeira questão de História dizia respeito justamente ao conceito de democracia e, para responder a ela, era essencial entender o significado de democracia entre os gregos.

Veja a questão proposta no vestiular da Unicamp 2018:

Os gregos sentiram paixão pelo humano, por suas capacidades, por sua energia construtiva. Por isso, inventaram a polis: a comunidade cidadã em cujo espaço artificial, antropocêntrico, não governa a necessidade da natureza, nem a vontade dos deuses, mas a liberdade dos homens, isto é, sua capacidade de raciocinar, de discutir, de escolher e de destituir dirigentes, de criar problemas e propor soluções. O nome pelo qual hoje conhecemos essa invenção grega, a mais revolucionária, politicamente falando, que já se produziu na história humana, é democracia. (Adaptado de Fernando Savater, Política para meu filho. São Paulo: Martins Fontes, 1996, p. 77.)

Assinale a alternativa correta, considerando o texto acima e seus conhecimentos sobre a Grécia Antiga.

a) Para os gregos, a cidade era o espaço do exercício da liberdade dos homens e da tirania dos deuses.

b) Os gregos inventaram a democracia, que tinha então o mesmo funcionamento do sistema político vigente atualmente no Brasil.

c) Para os gregos, a liberdade dos homens era exercida na polis e estava relacionada à capacidade de invenção da política.

d) A democracia foi uma invenção grega que criou problemas em função do excesso de liberdade dos homens.

Concluindo, para o estudo da Grécia Antiga é importante destacar sempre a análise do conceito de democracia e as principais heranças dessa civilização para as sociedades modernas: a filosofia, o teatro e as artes plásticas. Em menor grau, as guerras de expansão, que demandam um estudo mais sistemático, costumam aparecer nas provas de vestibular.

No estudo da Roma Antiga também pode-se destacar alguns temas que acabam sendo privilegiados nas provas. São eles: o conceito de cidadania, a formação e o significado da república romana, as diferentes instituições políticas criadas nesse período (ditadura, ostracismo e tirania) e a expansão do Império romano.

É importante destacar, no entanto, que o estudo de tais civilizações não deve se limitar somente a esses tópicos, pois entender os conceitos políticos só faz sentido quando se entende o contexto e as sociedades que os formaram.

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Cursinhos online – A nova realidade na preparação para o vestibular

 

Estudar onde e quando quiser é a premissa básica do ensino a distância que diversas instituições de ensino superior há algum tempo oferecem aos estudantes. Com resultados interessantes, a proposta começa a ganhar espaço também dentro do “cardápio” de alguns cursos pré vestibulares online, com altos índices de aprovação.

Um dos cursos pré vestibular online pioneiro no Brasil é o Kuadro, baseado na cidade de São José dos Campos (SP), cidade que abriga o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), uma instituição universitária pública reconhecida por sua excelência educacional e para a qual o ingresso chega a ser uma missão “quase” impossível.  

Em dois anos de existência, o Kuadro contabiliza quatro aprovações de seus alunos para o ITA, e também para outras instituições de peso, casos do IME (Instituto Militar de Engenharia) e AFA (Academia da Força Aérea).

O cursinho do Vale do Paraíba, que não oferece aulas presenciais, foi criado para preparar alunos interessados em instituições de primeira linha e alta concorrência, conforme conta o professor Bruno Werneck, um dos fundadores e proprietário do Kuadro. “Nosso foco é a preparação para os vestibulares mais difíceis e concorridos.” Nesta linha, o Kuadro também prepara estudantes para as provas da Unicamp, USP, UNESP, entre outras. Recentemente, foram abertas matrículas para o curso preparatório para faculdades de Medicina, que terá início em 2017.  

Kuadro ana

Essa é a Ana Carolina, criadora e historiadora do blog e uma das professoras de História e Sociologia do kuadro

Segundo Werneck, além do custo ser cerca de 10 vezes menor do que o de cursos presencias, outra grande vantagem do ensino online é a de eliminar a perda de tempo com o transporte para se chegar até ao cursinho, principalmente nos grandes centros, onde o trânsito está cada vez mais complicado.

Somadas a estas vantagens, o Kuadro também se notabiliza pela excelência da qualidade de ensino que oferece. O curso conta com mais de 15 professores com elevada formação acadêmica e bastante experientes. “Nos preocupamos em contar com professores abertos a inovação.”

 Segundo Werneck, o cursinho conta com alunos residentes em quase todo país que acompanham as aulas gravadas nos estúdios do cursinho. “Eles também se valem de monitores que os acompanham diariamente. O suporte ao aluno é garantido e o seu desempenho ao longo do curso é acompanhado com extrema atenção apesar da distância. Ao aluno compete ter um sério comprometimento e dedicação com o seu sonho de ingressar em um curso de alta qualidade.”

Para atingir esse objetivo, a Internet é cada vez mais um aliado. A rede oferece vasta quantidade de informações indispensáveis para o reforço e atualização do candidato. Navegando na rede você pode encontrar textos sobre os mais variados temas, notícias e até mesmo verdadeiras aulas sobre as matérias que fazem parte das provas de seleção. Saber usar a Internet a seu favor pode ser uma excelente ferramenta na busca por seus objetivos.

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A Turma de 2018 do Kuadro cresceu e a instituição oferece, hoje, 3 opções para os alunos:

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Os hebreus

Por volta de 2000 a. C., um grupo semi-nômade de pastores migrou da cidade de Ur, na Mesopotâmia,  para Canaã, onde eles acreditavam que encontrariam a Terra Prometida. Esses homens eram os hebreus, os antepassados dos judeus. Guiados por Abraão, eles partiram da cidade mesopotâmica em busca de melhores pastagens e de terras mais férteis, se deslocando até a região da Palestina.

MAPA ANTIGA PALESTINA

A história desse povo pode ser contada a partir das histórias da Bíblia, mais especificamente no Antigo Testamento (os judeus não aceitam o Novo Testamento, pois não consideram Jesus Cristo seu Messias). O estudo dessa fonte é complementado por vestígios arqueológicos e outros documentos, mas os historiadores não descartam o estudo do livro religioso como fonte preciosa de informações, tanto dos hebreus quanto dos outros povos que viveram na região do Crescente Fértil (região que abrange os rios Nilo, Jordão, Tigre e Eufrates, onde surgiram as primeiras cidades do Oriente Próximo), ainda que a maior parte de sua linguagem seja simbólica e trate de lendas e mitos.

Estudar as origens, as disputas e as trajetórias desses povos da região que hoje é conhecida como Oriente Médio, nos permite entender melhor a situação política, social e econômica dessa região que é marcada por conflitos, guerras e muita história.

Governo dos patriarcas

Segundo a tradição hebraica, Abraão recebeu de Deus a missão de guiar seu povo até Canaã, a Terra Prometida, no território da Palestina, onde já viviam os cananeus. A viagem foi finalizada apenas com seu neto, Jacó, cujos filhos deram origem a doze tribos hebraicas que eram comandadas pelos patriarcas.

Por volta de 1750 a.C., a região passou por um período de grande seca, o que obrigou os hebreus a migrarem em busca de terras férteis. Sua viagem acabou no Egito, às margens do rio Nilo, onde encontraram condições favoráveis para se estabelecerem. Sua chegada à região coincidiu com o período de dominação dos hicsos, que haviam derrubado o faraó, impondo-se no poder. Nesse período, os hebreus chegaram a ocupar cargos administrativos e viviam livremente.

Após a expulsão dos hicsos, derrotados por volta de 1580 a.C., os hebreus começaram a ser perseguidos e obrigados a pagar altos impostos, até serem escravizados. O salvador dos hebreus, como conta a Bíblia, nasceu e foi jogado no rio Nilo, onde a filha do faraó o encontrou e o criou junto da família faraônica. Esse foi Moisés, cujo nome significa “filho do Nilo” e que, já adulto, recebeu uma revelação divina de sua origem hebraica e a missão de libertar seu povo da escravização egípcia. Foi então que começou aquilo que é chamado de Êxodo, a saída em massa dos hebreus do Egito.

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Quadro O recolhimento de Moisés (1904), do pintor Lawrence Alma-Tadema 

A viagem teria durado cerca de 40 anos pelo deserto. Na passagem pelo Monte Sinai, Moisés recebeu as Tábuas da Lei, com os dez mandamentos divinos, episódio que é narrado na Bíblia. Pesquisas apontam que outros grupos semitas e não semitas acompanharam os hebreus na partida do Egito em direção à Canaã.

Governo dos juízes

Ao chegarem ao território da Palestina, os hebreus encontraram os cananeus e filisteus ocupando a região. Disputando seu domínio, os hebreus se organizaram sob a liderança dos juízes, os comandantes militares e chefes religiosos escolhidos pelas tribos. Josué foi o primeiro juiz e iniciou a tomada da região.

Os juízes que mais se destacaram foram Sansão, conhecido por sua força descomunal, que foi perdida quando Dalila cortou seu cabelo, e Samuel, que foi o último juiz e que escolheu Saul, como primeiro Rei dos hebreus, iniciando então o período da monarquia, em 1010 a.C.

Governo dos reis

Sucedendo Saul, Davi foi o responsável por vencer os filisteus e impor a dominação hebraica na região de Canaã. Estabeleceu então o Estado Hebraico, cuja capital se tornou Jerusalém. Seu sucessor, Salomão, aproveitou-se da centralização política e trouxe um período de riqueza e prosperidade aos hebreus. Ele foi o responsável pela construção do Templo de Jerusalém, onde a Arca da Aliança contendo as Tábuas das Leis seria depositada. Durante seu reinado, grandes obras foram construídas e para torná-las possíveis, o rei aumentou os impostos e instituiu o trabalho obrigatório, provocando grande insatisfação entre seu povo.

Com sua morte, o clima de insatisfação e as rivalidades das tribos levaram à divisão do povo hebreu em dois reinos.

Cisma do povo hebreu e Diáspora judaica

Por volta de 926 a.C., os filhos de Salomão fundaram dois reinos diferentes: o de Judá, ao sul, com capital em Jerusalém e com o apoio de duas  tribos, e o reino de Israel, ao norte, com capital em Samaria e que contava com as outras dez tribos.

Divididos, os hebreus não resistiram aos seus vizinhos poderosos que disputavam suas terras. Por volta de 722 a.C., os assírios, sob a liderança de Sargão II, conquistaram o reino de Israel e, em 587 a.C., os babilônios comandados pelo rei Nabucodonosor invadiram o reino de Judá, destruíram o Templo de Jerusalém e levaram os hebreus como escravos para a Babilônia (capital do Segundo Império Babilônico, na Mesopotâmia). Esse episódio foi chamado de Cativeiro da Babilônia e, nos textos bíblicos, representa o castigo divino que recai sobre o povo por conta da corrupção e ganância que havia tomado conta líderes do povo.

Os hebreus permaneceram no Cativeiro da Babilônia até 538 a.C.., quando outro povo, os persas, dominou a região da Mesopotâmia. Mais uma vez, o povo hebreu voltou à sua Terra Prometida, reconstruiu o Templo de Jerusalém, mas já estavam enfraquecidos e não resistiram a novas invasões, primeiro dos macedônios e, mais tarde, dos romanos, que, em 70 d.C., sob o comando do general Tito, destruíram o Templo e provocaram uma diáspora judaica. Mais tarde, no ano de 135, o imperador romano Adriano sufocou revoltas hebraicas e, com isso, promoveu uma nova diáspora.

A partir de então, os hebreus se espalharam pelo mundo tornando-se uma nação sem pátria, que permanecia unida por conta de seus costumes e religião. A situação dos judeus só foi modificada, em 1948, quando a ONU (Organização das Nações Unidas) instituiu a criação do Estado de Israel, na região da Palestina, em virtude da perseguição e extermínio nazista que os judeus sofreram durante a Segunda Guerra Mundial.

A religião foi um importante fator de agregação dos judeus, que mesmo dispersos pelo mundo, continuaram a praticar seus rituais e a seguir sua tradição. O judaísmo foi a primeira religião monoteísta, isto é, que cultua um só deus. Para eles, o único deus é Jeová, “Aquele que é”, cuja imagem não pode ser representada em pinturas ou esculturas.

Como os hebreus viveram em outros territórios, como no Egito e na região da Mesopotâmia, é possível encontrar elementos comuns a esses povos entre os hebreus. Um exemplo disso pode ser percebido em algumas passagens bíblicas, como esta: “não terás misericórdia com ele, mas far-lhes-ás pagar vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” (Deuteronômio 19, 21), que revela vestígios da lei de Talião, princípio que regia a justiça entre os mesopotâmicos e que influenciou o Código de Hamurabi, que é conhecido como o primeiro código de leis escrito no mundo.

Seu monoteísmo messiânico (que acredita na vinda de um messias salvador) influenciou outras duas grandes religiões estabelecidas posteriormente: o cristianismo e o islamismo. A Bíblia, em seu Antigo Testamento, que, para os judeus, é chamado de Torá, é o principal legado do povo hebreu para a humanidade.

Ao longo de toda sua história, os judeus passaram por inúmeros deslocamentos e migrações, deixando sua tradição presente nos mais diferentes lugares do mundo. Atualmente, a região em que vivem, no Estado de Israel,  continua sendo foco de conflitos, em razão, principalmente da disputa pela terra, onde, antes da criação de Israel, viviam os palestinos muçulmanos que se estabeleceram na região há muitos anos e que acabaram sendo expulsos de seu território e reivindicam a criação de seu país. A cidade de Jerusalém, que faz parte do domínio judaico, também é alvo de disputas, por ser considerada sagrada pelas três maiores religiões, o judaísmo, o islamismo e o cristianismo.

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Imagem do Muro das Lamentações, único vestígio do Templo de Jerusalém

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Mercantilismo

Aqui no blog nós sempre discutimos sobre o processo de construção histórica. Se a Revolução Francesa é, até hoje, um elemento chave na compreensão da história ocidental, é porque, além de ter modificado a estrutura política de um país, ganhou notoriedade entre os historiadores, que enxergaram a peculiaridade desse evento. Ou seja, muito daquilo que aprendemos na escola está ligado ao processo de escolha feito por um grupo de historiadores em um determinado período. Por isso dizemos que o historiador é um sujeito histórico, influenciado pelos assuntos do presente.

E por que essa introdução para falar de mercantilismo? Porque o Mercantilismo é um exemplo desses fatos e conceitos criados e apropriados por pensadores ao longo do tempo que nos auxiliam a entender o desenvolvimento político e econômico de uma sociedade.

O conceito foi criado por pensadores liberais e/ou iluministas no século XVIII, para compreender o período conhecido como o da fundação das monarquias Absolutistas e das Grandes Navegações. Esse momento da história europeia é fundamental para entendermos o desenvolvimento das colônias americanas, e o mercantilismo foi a prática econômica que guiou as monarquias absolutistas nesse processo.

A política econômica mercantilista abrangia duas atividades correlacionadas: a exploração – que poderia ser por meio da mineração ou da monocultura agrícola – e o acúmulo de riquezas. Ambas só foram possíveis devido ao momento de centralização política. E esse processo não foi homogêneo na Europa, assim como nenhum outro conhecido. A Inglaterra instituiu a Dinastia Tudor depois de diversas brigas dinásticas que culminaram na Guerra das Duas Rosas entre 1455-1485. A França viveu a consolidação do Absolutismo com a Dinastia Bourbon, mas já sentia os efeitos da vitória na Guerra dos Cem Anos com a Dinastia de Valois e a importância do poder real centralizado. Isso é um exemplo partilhado pelo Mercantilismo: apesar de ser uma teoria econômica e ter algumas características marcantes, foi experimentado de formas especificas pelas monarquias europeias.

Dentre essas características, encontramos algumas em mais destaque:

Comércio/Exploração: exercidos profundamente pelos países, ambos foram fundamentais para o processo de acúmulo de metais e produção das monoculturas agrícolas. Além disso, a busca pelas atividades comerciais era necessária para manter a Balança Comercial Favorável.

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Frans Post – Engenho com capela – 1667

Balança Comercial Favorável: esse era o “índice de desenvolvimento” da época. Manter a balança favorável significava estar sem dívidas, que, por sua vez, significava exportar mais do que importar, criando essa busca incessante por riqueza.

Tudo isso só era possível, contudo, devido à:

Intervenção estatal: o Estado como condutor da economia foi fundamental para o estabelecimento das práticas mercantilistas e do projeto colonial. E isso significava intervir e regulamentar as regras, os preços, os impostos, a importação, a exportação, em suma, controlar todo o sistema econômico na finalidade e abocanhar a maior fatia dos lucros

Para facilitar nosso entendimento, convencionou-se a dividir o processo mercantilista em 3 fases:

  1. Século XVI – Revolução dos Preços: com a descoberta das férteis minas de ouro no México e Prata na América do Sul, os países europeus encontraram uma saída para a escassez de metais preciosos que sofriam. A entrada dessas riquezas foi tão significativa que o momento recebeu o nome de Metalismo e foi fundamental para a Revolução dos Preços.
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Herman Moll – Mapa da América do Sul, 1715

Foi o século de Portugal e Espanha, do domínio ibérico do Atlântico. A importância desses pequenos países foi tão grande, que a França, em 1555, e a Holanda, em 1620, tentaram de diversas formas se estabelecerem no território brasileiro. Portugal, além da monocultura açucareira no Brasil, também colonizou partes da África e da Ásia, estendendo o seu domínio para o Oceano Índico.

Uma questão interessante era o conhecimento técnico que os países ibéricos possuíam, muito caros às influências culturais e saberes compartilhados pelos árabes, exímios comerciantes.

 

  1. Século XVII – Estabilização e Depressão: enquanto no século anterior, os países viveram a abundância, nos seiscentos encontraram a depressão. Se pensarmos na história como algo cíclico, aquele período de acúmulo ilimitado sofreria algum tipo de arrocho, pois o enriquecimento vem seguido do inchaço estatal. Para conseguir dar vazão ao processo exploratório, o Estado necessitou, e muito, da iniciativa da burguesia, financiada pelas monarquias. Além disso, o projeto colonial não abarcava apenas a exploração econômica. Foram deslocados enormes contingentes para as novas colônias e o estabelecimento de políticas coloniais, aumentando o já considerável número de funcionários públicos. Todos esses aspectos contribuíram para a depressão das práticas mercantilistas de acúmulo de riquezas.

No âmbito político, as colônias sofriam cada vez mais com suas próprias demandas, o surgimento das primeiras gerações de portugueses e espanhóis nascidos em terras coloniais, a dificuldade em lidar com a mão de obra escrava e, sobretudo, as invasões. Inglaterra encontrou no tráfico e na pirataria formas de enriquecer, já Holanda e França mantinham fortemente a disputa pelos territórios americanos, causando a necessidade de deslocamento de forças militares para alguns locais, que, obviamente, também custa caro.

 

  1. Século XVIII – último fôlego: nessa época, a prática mercantilista começou a ficar obsoleta. Os Estados absolutistas apresentavam problemas estruturais inaceitáveis pela população, sobretudo pela burguesia enriquecida pelo próprio mercantilismo. Essa nova classe que crescia economicamente, também queria partilhar o poder, e encontrou na política hierarquizada absolutista um empecilho fundamental. Além disso, as monarquias enfrentavam uma escassez de metal, a não ser por um breve momento, com a descoberta de minas de prata no México e de ouro no Brasil. Espanha e Portugal abraçaram fortemente essa nova oportunidade, aumentaram os impostos e acumularam o que podiam. Porém, a máquina estatal estava tão inflada, que o fôlego foi perdido rapidamente.

 

Enquanto alguns países tentavam se salvar, no século XVIII temos dois processos revolucionários que mudaram completamente o cenário mundial. A industrialização encabeçada pela Inglaterra e a independência dos Estados Unidos, trouxeram novas perspectivas políticas, econômicas e sociais, abalando a já enfraquecida estrutura absolutista e mercantilista.

Ana Carolina Machado

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A Pré-História – Surgimento do homem e Período Paleolítico

Os historiadores do século XIX acreditavam que a História só poderia ser feita e estudada por homens que praticavam a escrita. Tal constatação levou à exclusão de homens e mulheres “comuns”, analfabetos de seu papel como sujeitos históricos, pessoas cujas ações transformam o rumo das coisas. Além dessa exclusão, uma segunda foi feita: os homens que não conheciam a escrita (os chamados homens das cavernas) também não poderiam ser considerados como parte ativa da trajetória do mundo. Assim, no momento em que tais historiadores decidiram dividir a História em “Idades”, o período em que viveram os primeiros homens foi considerado um episódio “anterior” à História propriamente dita, isto é, foi chamado de “Pré-História”.

A História começaria apenas quando o homem inventou a escrita, tornando possível o estudo de suas ações e demonstrando o uso da inteligência do homem. Do surgimento dos primeiros humanos à invenção da escrita então temos o chamado período pré-histórico, que ainda pode ser dividido em dois momentos diferentes: Paleolítico e Neolítico.

Tal divisão da História dá conta de milhões de anos, cujo conhecimento somente é possível graças aos estudos de arqueólogos e paleontólogos que nos fornecem informações que normalmente são aproximadas, dada a impossibilidade de qualquer exatidão quando se fala de períodos tão remotos. Além disso, esses conhecimentos estão em constante modificação, pois a todo momento novas descobertas são feitas, transformando todo o conhecimento anterior.

Um dos momentos mais importante para o conhecimento da evolução do homem (depois da conclusão de Charles Darwin de que o homem e o macaco possuíam um ancestral comum, em 1859) foi a descoberta de um fóssil, no deserto de Afar, na Etiópia, que ficou conhecido como Lucy, em 1974. O nome se deve à canção dos Beatles Lucy in the sky with Diamonds, que foi tocada durante as comemorações da descoberta. Os cientistas conseguiram recuperar quase 40% do esqueleto de Lucy, um hominídeo bípede, da família dos Australopithecus, de aproximadamente 3 milhões de anos.

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Esqueleto da Lucy, exposto no Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México. Existem réplicas do esqueleto em alguns museus do mundo.

Cinco anos depois outra descoberta foi essencial para definir como se deu a evolução dos hominídeos. Os cientistas encontraram pegadas fossilizadas de cerca de 6 milhões de anos, que demonstravam que espécies de primatas teriam liberado as articulações superiores da função locomotora para outras atividades e movimentos. Gradativamente, foram sendo realizadas interações das mãos com o sistema cerebral, num longo processo de desenvolvimento evolutivo, chamado de hominização, que, no entanto, não foi linear nem uniforme.

Para que os primatas pudessem ser considerados humanos, outras modificações foram necessárias, frutos do processo seletivo natural, como o crescimento da caixa craniana, a visão binocular (através dela, os hominídeos aprimoraram a capacidade de ver uma imagem única com os dois olhos, avaliar distâncias e enxergar em três dimensões) e o deslocamento contrário dos dedos polegares (nos pés, numa posição paralela, para tornar possível um maior apoio para o corpo, e nas mãos, numa posição oponível, que permitia agarrar os objetos).

O processo de desenvolvimento evolutivo do homem durante o Período Paleolítico, ou Idade da Pedra Lascada, que se iniciou há 3 milhões de anos e cujo término é estimado em torno de 10 000 a.C., envolveu, principalmente, a interação entre as mãos e os olhos, permitida pelo desenvolvimento do sistema nervoso do cérebro em expansão. Tal cooperação possibilitou ao homem a fabricação das primeiras ferramentas e utensílios. E, nesse período, a matéria-prima usada pelos homens foram ossos, madeira e lascas de pedra.

Homo habilis

Após a evolução que permitiu ao hominídeo andar somente sobre os pés, o Homo habilis (“homem hábil”) passou a utilizar as mãos para trabalhar as pedras e construir ferramentas que auxiliavam as atividades de caça e coleta. Viviam na África em grupos de 15 a 20 indivíduos, levando uma vida nômade.

Homo erectus

Há cerca de 1,5 milhão de anos, desenvolveu-se no continente africano o Homo erectus (“homem ereto”), que foi capaz de aperfeiçoar as ferramentas e elaborar novas maneiras de trabalhar as pedras. Entre 500 mil e 400 mil anos atrás, ele também foi responsável pela domesticação do fogo. Ele foi o primeiro a descobrir uma forma de fazer o fogo, não sendo mais tão dependente da natureza. Com esses conhecimentos, o homem passou a se deslocar pelo continente africano.

Homo neanderthalensis

Apareceu por volta de 100 mil anos atrás e leva esse nome por ter sido encontrado no lago Neander, na Alemanha. Ele possuía capacidade de fala e realizava rituais religiosos, cuidava dos idosos e das crianças e deixou muitos vestígios de sua ação, através das pinturas rupestres.

Homo sapiens

Entre 200 e 100 mil anos atrás, teria surgido o Homo sapiens (“homem inteligente”), nosso ancestral direto. Ele desenvolveu utensílios de madeira e pedra e aproveitou outros materiais para isso. Demonstrou grande capacidade de adaptação, vivendo em diferentes tipos de habitats e foram também os primeiros a demonstrar sinais de manifestações artísticas e culturais.

Os homo sapiens povoaram lentamente o mundo e a partir de 10.000 a.C. eles podiam ser encontrados nas mais variadas partes do mundo.

Charles Darwin in 1881

Charles Darwin, com seu livro “A origem das espécies” foi o primeiro a afirmas que o macaco e o homem possuíam um ancestral comum.

Caçadores e coletores

Os homens do Período Paleolítico são chamados de coletores e caçadores, pois viviam somente daquilo que a natureza oferecia, o que lhe forçava a se mudar constantemente à procura de novas presas e novas fontes de coleta, ou seja, eram nômades. Viviam em grupos de 20 a 30 pessoas e dividiam-se entre si na caça e na coleta, fortalecendo um elo social.

Acredita-se que havia uma divisão de trabalhos entre homens e mulheres, mas os antropólogos destacam a existência de certa igualdade entre eles. As mulheres, por serem responsáveis pelos cuidados com as crianças, permaneciam nos acampamentos, coletando raízes, grãos e frutos, e defendendo o grupo de ataques de animais, enquanto os homens saíam para caçar e pescar.

Com a domesticação do fogo, que ocorreu por volta de 500 mil anos atrás, o homem passou a ter maior capacidade de adaptação, pois podia suportar as noites frias, podendo se deslocar para regiões cada vez mais frias. Além disso, o fogo afugentava animais, permitia que os alimentos fossem cozidos e, mais tarde, tornou possível a manipulação de metais. Assim, a fabricação de ferramentas e a utilização do fogo denunciam a capacidade de adaptação cultural do homem.

Ao longo desse processo evolutivo, o homem também demonstrou a necessidade de se comunicar através da fala e também de manifestações artísticas, como as pinturas rupestres, que são pinturas feitas em superfícies rochosas que demonstram aspectos do cotidiano do homem pré-histórico. Até hoje, muito se discute sobre a natureza e o caráter dessas pinturas, mas é certo que tais manifestações demonstram que esses homens não estavam apenas sobrevivendo, mas transformando a natureza ao seu redor e deixando seus vestígios no mundo.

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O Genocídio Armênio

A história mundial é marcada por fatos tristes e muitas vezes criminosos, hoje vamos abordar mais um destes momentos difíceis, o genocídio armênio. O extermínio sistemático de armênios ocorreu entre os anos de 1915 e 1923 e teve seu ápice durante a Primeira Guerra Mundial, com a morte de aproximadamente um milhão de armênios mortos. O Império Otomano era composto por várias minorias étnicas, inclusive pelos armênios que historicamente ocupavam a região da chamada Ásia Menor e eram predominantemente cristãos. É preciso manter a questão religiosa e territorial em mente para entender as motivações do genocídio.

Já no final do século XIX, o Império Otomano se encontrava enfraquecido pelas constantes perdas territoriais, a elite otomana temia que a fração oriental do império (Ásia Menor) se tornasse independente como aconteceu com a região dos Balcãs. Sendo assim, a área habitada pelos armênios era a mesma que o império buscava proteger, pois a região era importante e estratégica dentro do contexto da Primeira Guerra Mundial, uma vez que se tratava de uma área fronteiriça entre os Impérios Otomano e Russo.

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A proximidade da região com o Império Russo tornou inevitável o contato dos armênios com os russos. Isso gerou uma ligação entre estes povos, que partilhavam características culturais similares como, por exemplo, a religião. Tanto os armênios quanto os russos eram predominantemente cristãos ortodoxos, sendo assim, muitos  se identificavam mais com os russos do que com os otomanos. Esta ligação fez com que muitos armênios, durante a Primeira Guerra Mundial, combatessem ao lado das tropas russas czaristas contra o Império Otomano. Segundo as lideranças do império, as derrotas das tropas otomanas nas batalhas da Campanha do Cáucaso, iniciada em outubro de 1914, foram atribuídas à ajuda armênia ao exército russo.

Após esta derrota os armênios passaram a ser considerados inimigos internos do Império Otomano e deveriam ser eliminados. A ajuda armênia aos russos foi a desculpa que as lideranças otomanas usaram para iniciar a perseguição à esta minoria e garantir assim sua soberania na região. A partir deste ponto foi intensificada, no Império, o movimento político do panturquismo, que buscava valorizar os povos turcos e seus descentes em detrimento de outras etnias, principalmente aquelas cristãs como os armênios, gregos e assírios. Uma destas políticas foi a aprovação de Atos de Deportação em zonas de guerra.

Em relação aos armênios, foi criado um plano de extermínio que começou a ser executado em janeiro de 1915. Já em 24 de abril daquele ano, 250 líderes comunitários e intelectuais foram presos em Constantinopla, capital otomana. A partir deste dia, tropas imperiais se dirigiram para as cidades e vilas da Ásia Menor, obrigando as famílias armênias a deixarem suas casas. Estas tropas estavam munidas de ordens de deportação, assinadas pelo sultão, que alegava que a área deveria ser esvaziada, pois aquela era uma zona de guerra.

As famílias deixavam suas casas e passavam a integrar as chamadas caravanas de deportados rumo, aos desertos da região. Centenas de milhares morreram no caminho por fome, sede, inanição, moléstias ou assassinados pelas tropas imperiais ou paramilitares, principalmente curdas. Vale ressaltar que grande parte dos armênios mortos era composta por crianças e mulheres, pois os homens foram destacados para os campos de batalha ou para campos de trabalhos forçados servindo como mão-de-obra escrava para construção de estradas como, por exemplo, a Berlim-Bagdá.

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Foto do acervo do Museu Genocídio Armênio, pertencente à Coleção do miliar russo Parakhodov.

A morte de armênios durante o deslocamento forçado foi divulgado pelo império como mortes decorrentes do cenário de guerra. Assim como o Império Otomano nunca assumiu a responsabilidade pelo projeto de extermínio armênio, a República da Turquia, nega que tenha existido o genocídio. O governo turco reafirma a justificativa otomana de que estes armênios morreram em decorrência da guerra e não vítimas de um extermínio sistemático projetado pelas lideranças otomanas. Até os dias de hoje, o Estado Turco toma medidas autoritárias para barrar pessoas que apoiam e/ou são solidárias às reivindicações armênias, com a aplicação do artigo 301 do Código Penal Turco que pune com prisão àqueles que ofendem os valores da nação turca, ou seja, qualquer pessoa que afirmar que o Império Otomano ou o Estado Turco, herdeiro do império, foi responsável pelo genocídio por responder criminalmente pelo ato de ofensa à Turquia.

O Brasil recebeu muitos armênios que deixaram o Império Otomano por conta das perseguições a esta minoria. Aproximadamente 25 mil armênios encontraram refúgio no país, concentrando-se, principalmente na cidade de São Paulo, onde formaram uma comunidade forte e unida. Como homenagem a estes imigrantes, no ano de 1985, uma estação do Metrô da cidade de São Paulo ganhou o nome de Armênia. Próxima a esta estação há a Igreja Apostólica Armênia São Jorge, uma construção belíssima e símbolo da força e união desses imigrantes.

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Igreja Apostólica Armênia São Jorge – São Paulo -SP

Ainda hoje milhões de armênios lutam pelo reconhecimento mundial do genocídio cometido pelo extinto Império Otomano durante os anos de 1915 e 1923, até hoje pouco mais de 20 países já reconhecem o genocídio. O Brasil não se posicionou oficialmente, pois o reconhecimento do genocídio implicaria em confrontos diplomáticos com a Turquia. Cabem aqui alguns questionamentos, por que alguns genocídios são reconhecidos e outros não? Será justo sobrepor interesses diplomáticos à consciência? Um crime dessa magnitude pode mesmo ser esquecido ou negligenciado por grande parte do mundo?

Bruna Borges

Saiba Mais:

http://www.genocide-museum.am/eng/index.php

 

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Revolta da Vacina

Durante a chamada República Oligárquica, quando os cafeicultores apossaram-se do poder em 1894, com o primeiro presidente civil do país, Rodrigues Alves foi eleito, em 1902, para dar continuidade à chamada “política dos governadores”. A fim de investir em obras públicas e ostentar uma aparência de prosperidade, Rodrigues Alves adquiriu vários empréstimos no exterior, aumentando ainda mais a dívida externa do Brasil.

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Presidente Rodrigues Alves (1902-1906)

Em seu governo, foram realizadas grandes obras públicas, como a remodelação do porto e a construção da Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) na cidade do Rio de Janeiro. O desejo de transformar a cidade, tornando-a mais moderna já vinha de administrações anteriores, mas foi só com a nomeação, por parte do presidente da República, do prefeito Pereira Passos que a remodelação da cidade foi possível, começando pela abertura e alargamento de ruas e praças e o saneamento da lagoa Rodrigo de Freitas.

Em meio a esse desejo de renovação e modernização da capital do país, o médico sanitarista Osvaldo Cruz lançou uma campanha para erradicação da febre amarela e da varíola. Mas ao mesmo tempo em que o governo central procurava propagandear a prosperidade e modernidade do país, o desemprego e o alto custo de vida assolavam a população, especialmente na capital do país. Assim, numa política sanitarista baseada na imposição e repressão, o governo de Rodrigues Alves regulamentou, em 31 de outubro de 1904, a obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, vacina esta que já havia sido utilizada na Europa, mas ainda era muito pouco conhecida no Brasil.

Diante do conturbado cenário político, no qual Rodrigues Alves lidava com a oposição dos chamados republicanos radicais, que eram, em sua maioria, positivistas, e dos monarquistas, a lei gerou alguns protestos por parte de políticos e da imprensa. Até a publicação do plano de regulamentação da aplicação da vacina, em 9 de novembro, os ânimos foram se exaltando até culminar em conflitos populares.

O argumento do governo se baseava nos números da doença no Brasil, especialmente na cidade do Rio de Janeiro que, naquele mesmo ano, havia sido palco de um amplo surto epidêmico. Assim, para acabar com essa doença, a solução seria aplicar, em caráter obrigatório, sob a alegação de que era dever do governo cuidar do bem-estar da população, uma vacina que já havia sido utilizada com sucesso em países da Europa.

A oposição, por sua vez, contestava os métodos de aplicação da vacina, ressaltando as atitudes truculentas da polícia e de enfermeiros que haviam manifestado instintos brutais e moralidade discutível durante a campanha pela extinção da febre amarela, episódio recente na cidade do Rio de Janeiro. Além disso, os opositores ainda questionavam a questão da obrigatoriedade da vacinação. Se ela tinha tantas qualidades e eficácia como o governo propagandeava, então as pessoas poderiam escolher se submeter à vacina ou não. Como exemplo desse argumento pode-se ver o discurso do senador Lauro Sodré, ex-militar, positivista e líder maçom que criticava o caráter autoritário da lei: “arbitrária, iníqua e monstruosa, que valia pela violação do mais secreto de todos os direitos, o da liberdade de consciência.”

Até mesmo um político conservador de grande influência como Rui Barbosa, se mostrou reticente e desconfiado com relação à vacinação, afirmando que o governo não teria direito de “envenenar, com a introdução no meu sangue, de um vírus sobre cuja influência existem os mais bem fundados receios de que seja condutor da moléstia ou da morte”. Se inclusive um membro da elite do país questionava a vacina e se mostrava temeroso com a possibilidade de receber o vírus da doença, o que dizer da população carente e desinformada que ainda sofria com o desemprego e as péssimas condições de vida?

O clima, então, não era propício para a aplicação de uma vacina obrigatória e, em 5 de novembro de 1904, foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória e quanto a regulamentação sobre a aplicação da lei foi publicada, alguns dias depois, a população logo se rebelou. Os termos da regulamentação, elaborada pelo médico sanitarista Osvaldo Cruz, eram rígidos e previam a vacinação inclusive em recém-nascidos e idosos, impondo ainda exames e ameaçando a população com multas e demissões.

Em 10 de novembro, a população saiu às ruas para protestar, mesmo com as ordens do governo proibindo concentrações públicas. A partir de então a cidade se tornou palco de choques entre a polícia e manifestantes, que erguiam barricadas, incendiavam bondes e depredavam lojas. Três dias depois, os conflitos já tomavam grandes proporções, como se pode ver no artigo publicado pelo jornal Correio da Manhã:

“Bondes são virados para servirem de trincheiras. As ruas General Câmara, Ouvidor, Prainha, av. Passos, Imperatriz e outras ficam tomadas de barricadas: postos policiais são assaltados. A luta se intensifica, e as tropas policiais, ajudadas pelos bombeiros, são incapazes de vencer todos os focos populares.”

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Bonde virado na Praça da República

Nos três dias que se seguiram, o clima continuou tenso e os conflitos aumentaram. O número de feridos de ambos os lados só crescia e a cada momento chegavam novos contingentes de policiais e novos revoltosos saíam às ruas. Aos poucos, as autoridades foram perdendo o controle da região central e de alguns bairros periféricos, como a Saúde e a Gamboa. Ao tentar reestabelecer a “ordem” nessas regiões, os policiais altamente armados acabavam sendo expulsos por uma população revoltada e cheia de vontade. Os becos, as demolições, as casas abandonadas acabavam se tornando armadilhas e refúgios para os populares, que utilizavam aquilo que estava ao seu alcance.

Para reverter a situação, o governo recorreu ao Exército, à Marinha e até ao corpo de bombeiros, que recebeu armas para ajudar as tropas governistas. A Guarda Nacional também foi acionada e logo foram realizados bombardeios nas casas dos populares, o que, aos poucos, desmobilizou os revoltosos. As tropas infiltravam-se nas casas, expulsando seus habitantes, para transformá-las em barricadas e o número de mortos e feridos aumentava vertiginosamente.

Ao mesmo tempo, outro fato alardeou o governo: uma revolta militar ocorreu, em 14 de novembro, cujo objetivo era tirar Rodrigues Alves do governo. Os jovens militares, instados por republicanos florianistas, já tinham planos de um golpe para o dia 15 de novembro (aniversário da Proclamação da República), mas os acontecimentos da revolta popular precipitaram os acontecimentos.  Mas a resposta das tropas leais ao governo foi rápida e, no dia seguinte, à sublevação, os revoltosos foram obrigados a ceder.

No dia 16 de novembro, com os conflitos ainda ocorrendo nas ruas, o governo acabou revogando a obrigatoriedade da vacina. Assim, o movimento dos populares refluiu e logo cessou, tão espontaneamente quanto havia começado. O governo então conseguiu colocar suas energias na repressão aos militares revoltosos e à população, que foi perseguida e presa em grandes números.

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Imagem da cidade após os conflitos

Após os conflitos, a cidade estava irreconhecível; cheia de ruínas, trincheiras, lâmpadas quebradas, manchas de sangue por todos os lados. O número de mortos e feridos não chegou a ser calculado com exatidão, nem o número de presos, que foram levados para prisões no norte do país. Mas pode-se afirmar que essa revolta, que se iniciou contra uma medida sanitária acabou se tornando um dos maiores levantes populares da cidade do Rio de Janeiro e da jovem República brasileira.

Os significados desse grande levante, no entanto, não dizem respeito somente à desconfiança da população com relação à vacina e sua forma de aplicação, mas sim contra uma política antiga de segregação da população pobre da cidade do Rio de Janeiro, cujas condições de vida eram cada dia mais precárias.

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