A Ditadura Paraguaia

Bruna Borges

A crise democrática atual do Paraguai suscitou uma série de discussões sobre a política paraguaia e, principalmente, latino-americana. Muitas vezes deixada de lado nos estudos brasileiros, a história paraguaia mostra-se imprescindível para a compreensão da política latino-americana. O Paraguai, que vivia um processo democrático desde a última Ditadura Militar (1954-1989), enfrenta uma das mais severas crises políticas de sua história do século XXI.

O ex-presidente Fernando Lugo, eleito em 20 de abril de 2008 com 41% dos votos, rompeu com uma hegemonia de mais de seis décadas do Partido Colorado (partido tradicional e de direita) na presidência paraguaia, incluindo os 35 anos de Ditadura Militar. Ex-bispo católico ligado aos movimentos sociais de esquerda, Lugo tem um histórico de atuação com os sem-terra paraguaios. Os conflitos agrários vêm crescendo no país e culminou no conflito de Curuguaty, estopim para o processo de impeachment que destituiu Lugo da presidência.

Em 15 de junho de 2012, um confronto violento entre policiais e sem-terra deixou 17 mortos (11 trabalhadores rurais sem-terra e 6 policiais) na reintegração de posse de uma fazenda perto da fronteira com o Brasil. Este conflito foi uma das razões citadas pelos congressistas para destituir o presidente; com um Parlamento cuja maioria era de direita e formava a oposição, o impeachment foi votado e o resultado foi 39 dos votos a favor e apenas 4 contra. No lugar de Fernando Lugo, assume o vice-presidente Frederico Franco, do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), que rompeu com a coligação de Lugo há um ano atrás.

O processo relâmpago de impeachment chamou atenção dos líderes políticos do mundo todo, principalmente dos países latino-americanos; considerado por muitos desses como um golpe político, remete a uma inevitável associação com o ultimo período ditatorial do país que teve início em 1954 e terminou apenas em 1989, com outro golpe político.

Ditadura Militar Paraguaia (1954 – 1989)

A história paraguaia é marcadamente militar, pois as mudanças políticas sempre foram acompanhadas de grandes eventos militares. As Forças Armadas atuaram como agente político e ator importante no controle do Estado dada a vitória paraguaia na Guerra do Charco (1932-1935) – guerra contra a Bolívia, cuja reivindicação boliviana era a saída para o mar. Esta guerra e sua consequente vitória permitiram aos militares definirem sua identidade e desfrutarem de alta simpatia da população.

Entre os anos de 1936 e 1954 o Paraguai enfrentou uma série de golpes e contragolpes,  sempre com a atuação determinante das Forças Armadas e dos partidos políticos mais influentes da cena política, o Partido Liberal, Partido Corolado e Partido Febrerista. A partir de 1948 houve um domínio governamental colorado, neste período os partidos opositores foram duramente perseguidos, e seus militantes, em sua maioria, foram exilados. O domínio governamental colorado (1948 a 1954) garantiu a filiação partidária dos membros das Forças Armadas e da Polícia.

Foi nesse cenário político de sucessivos golpes, violentas perseguições, hegemonia e fortalecimento do Partido Colorado e da imagem das Forças Armadas, caracterizado pelo terror político, que se desenhou a ascensão política do general Alberto Stroessner. Com a queda do presidente Frederico Chávez, por um golpe em maio de 1954 arquitetado por Méndez Fleitas, aliado de Stroessner, o então chefe das Forças Armadas. Foi nomeado como presidente Tomam Romero e, em 11 de julho do mesmo ano, em eleições sem concorrência, Stroessner articulou para ser candidato único do Partido Colorado e ganhou as eleições com 99% dos votos e em 15 de agosto assumia a presidência da República.

O general teve o apoio da base política colorada, da oligarquia agropecuária e dos Estados Unidos, que transformou o Paraguai em um laboratório da Doutrina de Segurança Nacional. De acordo com Miguel López em A construção Social dos Regimes Autoritários, pouco depois que assumiu a presidência, Stroessner se reuniu com membros do Comando Sul dos Estados Unidos e ali assinou um pacto com os altos oficiais americanos e brasileiros em que se comprometia a barrar qualquer crescimento ou avanço dos comunistas.

Por chegar ao poder em um momento de instabilidade, Stroessner apresentou um discurso pacificador e teve sua imagem associada ao propósito modernizante. Sua política não diferiu substancialmente das demais ditaduras militares da América Latina, perseguiu e torturou seus opositores; recebeu investimentos financeiros dos EUA; atuou contra o comunismo; criou redes de apoio e defesa; desestabilizou as instituições democráticas, etc.

 

O general Alberto Stroessner

A ditadura impôs a filiação partidária ao Partido Colorado como condição primária para ter acesso a cargos públicos, para ingressar na Universidade, e muitas vezes a exigência da filiação acontecia também no setor privado, nas empresas cujos proprietários eram aliados do regime. Sendo assim, o Partido Colorado se constituiu como a base social da Ditadura Militar paraguaia; os sindicatos de trabalhadores, o movimento estudantil e outros setores que poderiam atuar como opositores do regime eram amplamente formados por colorados, deixando assim a oposição cada vez mais débil.

Outro fator importante para a manutenção desse regime militar foi a criação da rede de delação no país. Funcionando como órgão de controle social, o governo criou a cultura da traição e da denúncia. Os chamados pyrague (em Guarani, delator, espião), formaram um verdadeiro exército que levou milhares de homens e mulheres ao cárcere, tortura e desaparecimento. A sociedade vivia com medo, pois qualquer um poderia ser um espião em potencial. Existiam aqueles que eram agentes permanentes e que recebiam até salários do governo, como também cidadãos que denunciavam simplesmente para não serem acusados de omissão.

No campo econômico o Paraguai assistiu durante a ditadura Militar de Stroessner um intenso crescimento. Os agropecuários se fortaleceram com o aumento de fluxo de capitais estrangeiros, com a isenção de impostos e créditos a juros baixos. Da mesma maneira que o setor industrial também tirou suas vantagens, principalmente com a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, que teve um investimento de 18 bilhões de dólares e fez surgir uma nova classe de ricos, chamados barões de Itaipu. Esse crescimento certamente não alcançou a maioria da população, dados apontam que 1% da população detinha 80% de toda a riqueza nacional.

A partir dos anos de 1980, a ditadura militar de Stroessner começou a perder força, motivada pela desaceleração econômica e um novo golpe de Estado foi planejado por alguns setores do Partido Colorado, nos dias 2 e 3 de fevereiro de 1989 um novo golpe destituiu o ditador da presidência paraguaia. A longa sucessão de governos autoritários e militaristas salienta uma característica política autoritária na história paraguaia. Uma das maiores preocupações de Stroessner era travestir seu governo autoritário com um manto de legitimidade, ou seja, buscou manter uma fachada democrática e institucional. A convocação rotineira de eleições, sistematicamente fraudulentas confirmaram sempre expressivos resultados eleitorais favoráveis ao Partido Colorado.

Durante a Ditadura Militar e personalista do general Alfredo Stroessner, dezenas de milhares de paraguaios e paraguaias foram detidos, torturados e levados ao exílio – aproximadamente um terço da população segundo organizações de direitos humanos.  Os números são imprecisos, mas indicam que alguns milhares de cidadãos podem ter sido assassinados pelo regime. Assim como as demais ditaduras latino-americanas, não cabe medir o grau de brutalidade e intensidade pelo número de mortos e vítimas por elas geradas, a ditadura paraguaia deixou marcas profundas em sua sociedade, gerou traumas e ressentimentos presentes até hoje; como toda ditadura, esta cerceou liberdades e foi cruel.

Assim como ocorreu outrora, a tentativa de travestir golpes e regimes autoritários com uma fachada de legalidade é recorrente na política paraguaia e latino-americana. E, por isso, temos que observar com cuidado o fato ocorrido em junho de 2012 no Paraguai. A destituição de Fernando Lugo é considerada pelo Partido Colorado como fato jurídico estritamente legal e democrático. Assim como salienta o jurista Luis Regules, “quase todos os golpes de Estado na América Latina se deram com apoio parlamentar. É uma história de tristes resultados que insiste em se repetir cada vez mais como farsa. Ação foi vista por muitos países latinos como um golpe de Estado e pela União das Nações Sul-Americanas (Unasul) como uma “violação da ordem democrática”.

Dicas:

Discurso de Fernado Lugo: http://www.youtube.com/watch?v=VtARVZft5IU&feature=related

Carta Capital: http://www.cartacapital.com.br/

LÓPEZ, Miguel H. ”Stroessner e “Eu”: a cumplicidade social com a ditadura (1954-1989)” in: A construção Social dos Regimes Autoritários. Legitimidade, consenso e consentimento no século XX Brasil e América Latina. Ed. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2010.

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Relações de trabalho no Antigo Egito

Ao se estudar o antigo Egito encontram-se inúmeros obstáculos provenientes das dificuldades em se utilizar um vocabulário próprio ao estudo de História Antiga, e dos problemas em se caracterizar as relações sociais de produção por conta de ideias polarizadas como a que afirma a existência apenas de escravos ou trabalhadores livres.

Essa polarização apresenta algumas relatividades: os escravos do antigo Egito não são caracterizados como os “escravos-mercadoria” clássicos e os “trabalhadores livres” egípcios não eram senhores de seu próprio destino. Pois é difícil afirmar que numa sociedade autocrática (forma de poder na qual apenas uma pessoa ou grupo detém o poder) qualquer homem seja livre, a não ser o monarca.

Mapa. Fonte: Wikipedia

EGITO FARAÔNICO

As estruturas econômico-sociais do Egito faraônico, da unificação à conquista macedônica (por volta de 3000 – 332 a. C.) apareciam muito marcadas por um Estado burocrático, que exercia o controle da economia e, que em até certo ponto, era repressor, por conta do caráter divino do faraó.

O Estado era detentor das formas de produção recolhendo os excedentes de todas as comunidades locais, tanto urbanas quanto rurais, e os armazenado para futura redistribuição, que seguia de acordo com a atividade e o status de cada homem que estivesse na lista de redistribuição estatal. Assim, mesmo o trabalho da corveia (para o Egito Antigo, a expressão significa o trabalho compulsório devido ao Estado) apesar de obrigatório, era remunerado.

Apesar dessa economia “estatal”, não existia apenas terra pertencente ao Estado. Os templos possuíam terras de caráter privado e altos funcionários públicos também podiam possuir suas terras de maneira não-hereditária. Mas todas essas propriedades pagavam impostos e deviam contribuir para o sustento do rei. Existia ainda, desde o Reino Antigo uma propriedade que pode-se chamar de privada, mesmo não sendo equivalente àquela determinada pelo direito romano posterior, que era transmissível hereditariamente ou por venda.

Nesse modelo de economia centralizado e estatal, no qual, do ponto de vista econômico-social, escravos e trabalhadores livres exerciam funções similares, como poderia, então, surgir essa diferenciação radical escravo/trabalhador livre?

Ciro F. Cardoso, em seu livro Sociedades do Antigo Oriente Próximo, sugere que essa diferenciação seja proveniente do abismo que separava a classe dominante, aqueles que tinham acesso aos privilégios e tinham o controle sobre o trabalho e os excedentes através de corveias e tributos (funcionários e sacerdotes subalternos, artesão de qualificação e artistas); e as massas populares que estavam subordinadas a essas classes dominantes e tinham pouco ou nenhum privilégio a partir da estrutura reinante, ou seja, essas massas constituíam a maioria da população egípcia, e só em tal contexto se pode colocar sem anacronismo a problemática acerca do caráter do trabalho na civilização egípcia.

A partir de uma revolta social que ocorreu na época do faraó Ramsés III (1198-1166 a. C.) da XXª dinastia, pode-se perceber que a divisão fundamental da sociedade egípcia ia além de “escravos” e “livres”. Os textos que discorrem sobre essa revolta mostram as categorias sociais dos funcionários do palácio; “grandes príncipes”; exército (infantaria, mercenários, estrangeiros, auxiliares); e lavradores. Assim, a oposição dessa revolta que, para alguns, teria como resultado a constatação da necessidade de se redefinir as divisões sociais, não apresentava como eixo central a oposição livres/escravos, e sim, se estabelecia segundo uma escala de privilégios.

A falta da designação de escravos nesses textos não significa que não houvesse escravos ou que estes não eram representativos. Ao contrário, no Egito faraônico havia oito termos para a definição de escravo.

TRABALHADORES LIVRES

Quando se fala em trabalhadores livres no antigo Egito, logo de início se esbarra na questão da corveia real, caracterizada por C. F. Cardoso como: forma de trabalho compulsório por tempo limitado, exigido pelos Estados ‘asiáticos’ ou ‘orientais’ [...] à maioria da população, com exceção de um pequeno grupo de privilegiados. [...] O termo corveia designava originalmente, uma forma de trabalho da Idade Média, e sua extensão a sociedades distintas é usual, mas um tanto inadequada. Esse trabalho se destinava a construção e conservação de sistemas de irrigação, para obras públicas, para as expedições extrativas às minas e pedreiras, para serviço agrícola e artesanal e para a guerra.

As pessoas que deveriam servir a essa corveia real, eram a princípio livres, de profissões variadas e que quando chamadas à corveia eram isoladas durante a noite em prisões e durante o dia trabalhavam para o Estado. Durante esse período, o indivíduo recebia uma parca alimentação. Caso o trabalhador não se apresentasse ou fugisse, depois de um prazo de seis meses, ele seria transformado em escravo, sendo essa condição hereditária. Para forçar o indivíduo a se entregar, muitas vezes mulheres e filhos eram aprisionados.

Salvo por um decreto de isenção, todos, até mesmos os sacerdotes, estavam propensos a serem “convocados” à corveia real. Existe um decreto inscrito numa estela, encontrada originalmente em Abidos, do Reino Antigo, sob a Vª dinastia, do faraó Neferirikare (2446-2426 a. C.) que estabelece isenção de corveia a favor do templo de Osíris, o que confirma esse caráter de possibilidade de isenção a algumas pessoas, além de indícios de que havia pessoas que pagavam para outras realizarem suas obrigações reais.

A corveia real demonstra a fragilidade da expressão “trabalhador livre”, pois traz a dúvida se é realmente livre uma pessoa que a qualquer momento pode ser chamada a servir o Estado e que, durante esse período, permanece trancafiada, recebendo uma parca alimentação, sob a pena de se tornar escravo.

Uma outra objeção ao termo “livre” pode ser feita após a análise da situação dos artesãos qualificados que construíam as tumbas dos faraós. Estes trabalhadores eram altamente especializados e, ocasionalmente recebiam prêmios e pagamentos suplementares. Segundo C. F. Cardoso: tratava-se, pois, de uma categoria muito especial de trabalhadores apreciados, privilegiados em comparação com a maioria dos artesãos e artistas do país.

Esses trabalhadores tinham casas bastante confortáveis de acordo com os padrões egípcios não-nobres e viviam com suas famílias em povoados compactos, com casas juntas umas às outras em povoados, como as cidades dos construtores de Senuosret II (1897-1878 a. C.), em Kahun (no Fayum); a de Deir-el-Medinah, em Tebas, ocupada da XVIIIª a XXª dinastia (fins de século XVI até século XII a. C.); e a de Tell ell-Amarna, a capital do faraó Akhenaton (século XIV a. C.). De acordo com Cardoso essas três cidades são verdadeiros “povoados-prisões”, cercados de muralhas e patrulhados dia e noite por vigilantes.

Um traço persistente ao longo dos séculos foi a situação a que eram submetidos os camponeses diante do poder estatal e da classe dominante, que colocavam os camponeses em situações de vexações e de subordinação: Durante toda a história faraônica não faltam testemunhos diversos da frequência com que os camponeses egípcios se viram a mercê de inúmeras arbitrariedades.

Por essa razão os faraós julgavam necessário estabelecer penalidades a quem se cobrasse a corveia de forma ilegal. Além disso, a literatura moralista aconselhava a classe dominante a não cometer arbitrariedade contra os camponeses.

A opinião de C. F. Cardoso de que não se pode qualificar os camponeses como livres, ocorre devido à constatação de que estes trabalhadores possuíam mais deveres do que direitos. O único direito aparente desses camponeses consistia na possibilidade, em época de colheita, de colherem para si mesmos durante um dia, além de receberem apenas rações de alimento.

ESCRAVOS

Um documento do aproximado ano de 1745 a. C., o Papiro Brooklyn 35.1446, mostra que, durante a XIIIª dinastia, um funcionário possuía 92 escravos, dos quais a maioria era de origem egípcia. A descoberta desse papiro implica uma mudança na crença que se tinha de que não havia escravos possuídos por particulares antes do Reino Novo – 1580-1085 a.C – (até então não havia nenhum registro que comprovasse a existência nem mesmo de uma definição jurídica clara de escravidão). O papiro também desmontou a crença de que não havia um número considerável de escravos egípcios.

Esses escravos de origem egípcia podiam ser descendentes de pessoas escravizadas por terem fugido da corveia real, e os estrangeiros eram líbios, núbios e, sobretudo, asiáticos.

A situação dos escravos dependia da atividade que desempenhavam. Os escravos domésticos, artesãos, artistas, ao que tudo indica, tinham melhor sorte. Já os que trabalhavam nas minas e pedreiras pareciam ser os mais desgraçados. Havia, ainda, os escravos, que eram maioria, pertencentes ao Estado e aos templos. Estes viviam encerrados em estabelecimentos de trabalho (shenau), de onde só saíam quando eram requisitados para trabalhos a serviço do governo, dos deuses e, eventualmente, de particulares privilegiados.

Os escravos do antigo Egito, no entanto, possuíam inúmeras diferenças em relação aos “escravos-mercadoria” clássicos. Os escravos egípcios tinham personalidade jurídica, podendo, então, casar-se com pessoas livres, com o filho seguindo o status da mãe, podiam adquirir propriedade, e até mesmo testemunhar contra seus donos.

Com relação à alforria, esta só aparece tardiamente, mas sabe-se de casos anteriores à adoção da alforria formal, em que escravos se libertaram pela adoção ou casamento com pessoas livres.

Assim, quando se refere ao trabalho no antigo Egito deve-se prestar atenção no uso do termo “livre” e “escravo”, pois naquela civilização ambos os termos tinham diferentes significados e aplicações do que hoje conhecemos.

A expressão “trabalho-livre” deve ser sempre analisada, pois esta serve apenas para opor aquelas pessoas aos escravos, no sentido de que esses trabalhadores não pertenciam a ninguém, a não ser, de certa forma, ao Estado, já que todos estavam diretamente a mercê dos interesses do faraó, como atesta o caso da corveia real, a que todos poderiam ser submetidos; e as cidades dos artesãos construtores de tumbas reais, que eram muradas e vigiadas.

Com relação aos escravos também é importante repensar a noção clássica dessas pessoas cativas que temos atualmente, pois os escravos egípcios, como foi visto, se diferem aos clássicos escravos-mercadoria, no que diz respeito à personalidade jurídica. Então pensá-los como se pensa os escravos gregos é impróprio à realidade egípcia.

Assim, ao se estudar o antigo Egito, de maneira geral, e não apenas no que diz respeito às relações de trabalho, é preciso repensar todos os conceitos que, para nós, são comuns e que acreditamos conhecer, para evitar a confusão entre conceitos entendidos na atualidade e a sua aplicação há milhares de anos. E essa necessidade refere-se ao estudo de toda Antiguidade Clássica, e não apenas ao antigo Egito.

Ligia Lopes Fornazieri

Para saber mais: CARDOSO, C. F. Sociedades do antigo Oriente Próximo. São Paulo: Ed. Ática, 1984.

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Uma análise de literatura: Os sofrimentos do jovem Werther

Ana Carolina Machado de Souza
O livro Os sofrimentos do jovem Werther, publicado em 1774, do alemão Johann Wolfgang von Goethe, é uma das grandes obras da literatura mundial. E pode ser pensado como um exemplo do uso da literatura como fonte documental para a produção historiográfica. Neste post, a ênfase será na representação do ideal feminino da época, através da personagem Charlotte, ou apenas Lotte. Para isso, será realizada uma breve contextualização do movimento e considerações sobre os problemas encontrados em se rotular o Romantismo.
A literatura alemã do final do século XVIII e início do XIX, classificada como romântica, teve influências dos acontecimentos políticos e econômicos vividos na Europa naquele período. É necessário ter em mente que as revoluções liberais surgiram no Ocidente nessa época. A Revolução Industrial, na Inglaterra, e seu alastramento pelo continente, também foi um fator preponderante para a transformação política e econômica. Um dos acontecimentos ocorridos, a Guerra Franco-Prussiana, afeta diretamente a vida de Goethe, já que seu pai, um erudito que trabalhava para o governo de Frederico II e crítico da atitude francesa, recebeu na própria casa alguns franceses oriundos dessa guerra. Apesar do desconforto em hospedá-los, Johann Goethe teve um contato mais íntimo com leituras provenientes do país vizinho.

Retrato de Johann Wolfgang v. Goethe – Georg Melchior Kraus c.1775

Sintetizar toda uma expressão cultural e política num denominador comum, o Romantismo, é dificultoso principalmente devido ao seu caráter contraditório. Elaborar um único conceito para um vasto movimento intelectual que assolou a Europa nesse período é uma tentativa corajosa e problemática, pois sempre será fadada a críticas. Essas particularidades estão presentes não somente nas obras que compõem o dado movimento, mas também nos próprios autores. Vale lembrar que a classificação como “romântico” não se traduz apenas a poetas e escritores ficcionais, ela abarca também o território dos intelectuais, políticos, filósofos, historiadores. A abordagem historiográfica, assim como a literária, também encontra problemas em se restringir exclusivamente a uma forma de pensar, em um conceito definido.
Os sofrimentos do jovem Werther possui caráter emblemático e teve repercussão na Europa letrada na época de sua publicação. Johann Wolfgang von Goethe nasceu em Frankfurt, em 1749. Originário de uma família abastada, o pai trabalhava como advogado e conselheiro da corte de Frederico II, Goethe foi educado pelo pai e por tutores até ingressar na faculdade de Direito em Leipzig, em 1765, aos 16 anos. Porém foi em 1770 que se considera sua entrada para o movimento Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto, do final do século XVIII e início do Século XIX), liderado por seu amigo Johann Gottfried Herder. Em 1774, chega à cidade de Wetzlar, após uma paixão avassaladora por Charlotte Buff, noiva de um colega, pela qual quase cometeu suicídio. Variadas biografias mostram ser esse episódio da vida de Goethe emblemático para a construção de Os sofrimentos do jovem Werther. Viveu entre a alta sociedade alemã, atuando como escritor e conselheiro de figuras como duques e príncipes. Assim como diversos intelectuais da época, produziu trabalhos científicos como a descoberta de um determinado osso no corpo humano. Faleceu em 1832, em Weimar, devido a complicações de uma gripe.

1ª edição em alemão de Os sofrimentos do jovem Werther

O livro Os sofrimentos do jovem Werther é um romance epistolar, no qual o personagem título está de viagem a negócios e encaminha suas cartas ao amigo Wilhelm. Alguns críticos dividem a obra caracterizando sua primeira parte, que vai até o meio do livro, como mais filosófica, e a parte final como mais descritiva, onde narra os acontecimentos e tormentos com Lotte. Numa das primeiras cartas apresentadas, datada de dez de maio, Werther demonstra sua alegria e felicidade em estar numa região bem quista, porém, mesmo exprimindo esses sentimentos, uma fina angústia já era apresentada.
As sensações complexas e paradoxais estão presentes desde o início da obra, porém passam a ser mais substanciais a partir do seu primeiro encontro com Lotte, quando houve um encantamento com a jovem.
“É um anjo!… Ora, já sei que todos dizem isso de sua amada, não é verdade? Todavia, é-me impossível dizer a você o quanto ela é perfeita, e também o porquê de ser tão perfeita. Só isto basta: ela tomou conta de todo meu ser. Tanta naturalidade com tão alto senso de justiça! Tanta bondade com tamanha firmeza! Uma alma tão serena e tão cheia de vida e energia!” (GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. pp. 23-24)
Lotte simboliza o ideal da mulher estudada, culta, erudita, daquela época, pronta para se casar e foi educada para a função. É possível promover uma relação com as críticas sociais ao movimento. Alguns autores caracterizaram o Romantismo como uma manifestação burguesa, própria da elite dos respectivos países alcançados. A educação ministrada a Lotte, assim como a organização de sua casa e família não eram uma constante para a maioria das famílias alemãs. Essas são análises influenciadas por estudos que entendem o movimento como reacionário e conservador, numa atitude antiburguesa.
Werther, mesmo ao saber que Lotte possuía um noivo (Albert), ainda nutria sua paixão pela jovem, porém as angústias aumentam com a chegada de Albert.
“Albert voltou, e eu quero partir. Mesmo que ele fosse o melhor, o mais nobre dos homens, e eu me reconhecesse inferior a ele de todos os pontos de vista, ainda assim não suportaria vê-lo, com meus próprios olhos, possuidor de tantas perfeições… Possuidor!… Wilhelm isto é o bastante: o noivo está aqui.” (GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. P. 44)
São notáveis as notas melancólicas nesse trabalho de Goethe. Ambas personagens (Werther e Lotte) sentem uma atração física e emocional recíproca, porém são impossibilitados de concretizar qualquer ato, e assim seus sentimentos são invadidos pela dor e depressão. O protagonista chegava a desejar, imerso na pura angústia de seu amor impossível, numa possível morte do noivo, como fim de seu sofrimento e da amada. Porém, com a mesma rapidez em que refletiu sobre essa possibilidade, ela desapareceu, e os resquícios são de mais dor e culpa por um sentimento tão rude.
“Quando mergulho assim nos meus sonhos, não consigo evitar esta idéia: ‘Que aconteceria se Albert morresse? Você seria… Sim, ela seria… ’ E então persigo essa fantasia até que ela me conduza a abismos, estremeço e recuo” (GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. P. 76).
 Ao longo do tempo, a relação sentimental de Werther e Lotte se torna ainda mais profunda e dramática. A jovem simboliza a perfeição procurada pelos homens da época, um aspecto tão frequente da literatura romântica que se tornou um dos denominadores comuns passíveis de compreensão entre as vastas obras do gênero. Assim como a Sofia de Rousseau (no romance Émile), Lotte é a personificação da mulher ideal desse período histórico.
Com o casamento de Lotte e Albert, Werther sente-se cada vez mais impossibilitado em seguir calmamente sua vida, já que não era mais viável o amor da jovem. As ideias suicidas apareceram cada vez mais fortes na sua vida, e Goethe narra de maneira dramática e compulsória todo o sofrimento experimentado pelo protagonista. Nessa última parte do livro a fala do narrador (Wilhelm) aparece intercalada às cartas de Werther.  Transcreve, então, o episódio mais marcante e preponderante para a final atitude do personagem, o beijo na amada. Na última noite em que se encontraram, emocionados com a leitura de Werther sobre  Ossin, eles se beijaram.
“Por alguns segundos, Lotte pressentiu o terrível desígnio que Werther concebera. Ficou transtornada. Apertou-lhe as mãos, e ele premiu as dela contra o peito. Em dado momento inclinou-se sobre Werther, com uma emoção dolorosa, e as faces ardentes de ambos se tocaram. O mundo inteiro deixou de existir. Werther enlaçou-a com os braços, apertou-a contra o coração e cobriu de beijos furiosos seus lábios trêmulos e balbuciantes.” (GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009. P. 111)
O amor entre os dois era recíproco, mas impossível. Na mesma noite, Werther pegou uma pistola e deu um tiro em seu olho direito.
Apesar de ser uma obra ficcional, a sua análise possibilita uma melhor compreensão desse homem encontrado no início do século XIX. As diversidades de sentimentos exprimidos, paradoxais muitas vezes, dramáticos e antitéticos, mostram uma pluralidade de emoções existentes nos autores desses romances. Lotte é a personificação do ideal de mulher apresentado para a alta sociedade alemã da época. Uma jovem criada para o casamento, com erudição, destreza e delicadeza. De maneira sintética, a mulher no movimento romântico é vista cada vez mais como um ser intangível e puro, angelical. Esse romance também demonstra o sofrimento pelo amor sentido por Werther, mas impossível de ser consumido. Os sofrimentos do jovem Werther foi um marco na obra romântica alemã e européia por trazer esses elementos, e a jovem pela qual o personagem título se apaixona loucamente, é uma mostra do que era procurado numa dama do período.

Dicas:

Ópera de Jules Massenet escrita em 1887, baseada na obra de Goethe. Porém, só estreou em 1892. Este vídeo é uma encenação de 2006 e está completa.
GOETHE, Os Sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Editora Martin Claret, 2009.
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Neocolonialismo

Ana Carolina Machado de Souza
O Imperialismo Europeu, ou Neocolonialismo, foi um complexo processo de dominação de áreas do globo, como África e Ásia, realizado pelas potências industriais da Europa que surgiam na época. No século XIX as nações européias disputavam acirradamente o domínio do continente africano e suas riquezas. A partir da chamada Segunda Revolução Industrial, em 1860, houve uma grande mudança na utilização de novas matérias primas e fontes de energia, portanto, um período de grande expansão econômica para essas potências européias. Houve o domínio de empresas monopolistas, com uma grande concentração de capital, sem possuir a estimulação da livre concorrência, assim como a ascensão do mercado consumidor, que cresceu exponencialmente durante o século XIX.
Para essa nova ordem econômica ocidental que crescia, o capitalismo, o êxodo de mão-de-obra não era o mais interessante, já que as necessidades imperialistas poderiam ser abarcadas no próprio território. No cenário político, uma questão de extrema importância foi o Congresso de Viena, em 1815, que foi remodelado anos depois com a entrada da Itália e da Alemanha, que tiveram uma unificação tardia. Esse Congresso foi, em suma, uma reunião dos países europeus com a intenção de reorganizar o mapa político do continente com o fim das guerras napoleônicas. Portanto, a partir desse momento, as monarquias foram restauradas e novas alianças foram promovidas. As disputas pelos territórios tornaram-se mais acirradas a partir da década de 1870, com a unificação da Itália e da Alemanha. A reivindicação por espaço na briga colonial já ocorreu logo após os processos de união e, devido a esse ambiente de competição desenfreada, alianças entre os países foram feitas para alcançarem os objetivos desejados. Um desses elos obteve o nome de Tríplice Aliança, em 1822, uma união militar entre Alemanha, Itália e o Império Austro-Húngaro (parte da Áustria, Croácia, Hungria, Itália, Montenegro, Polônia, Romênia, Sérvia, Eslováquia, Eslovênia, Ucrânia, Bósnia, República Tcheca). A hostilidade presente nessa corrida imperialista marcou um momento histórico, o final do século XIX, e a conquista da África foi um embate que ecoou até a Primeira Guerra Mundial.
A Revolução Industrial desenvolvia-se na Europa, a busca por matérias primas e mercado consumidor cresceu exponencialmente no período. Os produtos minerais, encontrados principalmente na parte sul da África, foram fontes de conflitos entre as diversas nações colonialistas, e um exemplo disso foi a guerra entre ingleses e bôeres, que ocupavam a região sul-africana desde o século XVII.

Cabe aqui uma pequena contextualização dessa batalha. Desde o Congresso de Viena aquela região foi posta em domínio britânico, portanto os bôeres foram obrigados a partir para o norte, onde fundaram uma república, e este novo solo estava repleto de minerais preciosos. Essa região também era de interesse inglês, não só pelo conteúdo lucrativo, mas também por ser passagem entre as Índias, já que um antigo sonho era unir desde o sul africano até o Cairo, uma posição estratégica no continente. Portanto, com esse conflito de interesses ocorreu uma disputa entre esses povos, a chamada Guerra dos Bôeres, entre 1899 e 1902, definida e dimensionada por Wesseling:
A guerra Bôer foi a maior de todas as guerras coloniais travadas na era imperialista moderna. Durou mais de dois anos e meio (11 de outubro de 1899 a 31 de maio de 1902). A Grã-Bretanha forneceu aproximadamente meio milhão de soldados, dos quais 22 mil foram enterrados na África do Sul. O número total de perdas britânicas – mortos, feridos e desaparecidos – foi de mais de 100 mil. Os próprios bôeres mobilizaram quase 100 mil homens. Perderam mais de sete mil combatentes e quase 30 mil pessoas nos campos de concentração. Um número não especificados de africanos lutou dos dois lados. Não se registram suas perdas, mas provavelmente atingiram dezenas de milhares. (WESSELING, H. L. Dividir para dominar: a partilha da África, 1880-1914. São Paulo; Rio de Janeiro: Revan: Ed. da UFRJ, 1998, p. 359)

Soldado bôer morto durante a guerra

A exploração da África e Ásia tornou-se primordial para a manutenção dessa nova política econômica em vigência nos países europeus, e mais tardiamente nos Estados Unidos. Estes passaram a intervir politicamente, realizando alianças com essas regiões, no intuito de estreitar o relacionamento e, por ventura, passar a dominar por completo aquele outro país. Contudo, essas práticas suscitaram conflitos entre as potências envolvidas, pois cada uma reivindicava o direito por determinados territórios. Uma das soluções encontradas, em relação ao continente africano, apresentada no Congresso de Berlim, de 1885, foi a partilha da região entre os países europeus.

Partilha da África

Essa busca acirrada por novos territórios, o processo de dominação política e econômica de outro país em função do abastecimento do novo sistema econômico dominante foi denominada de Neocolonialismo. Contudo, não foram somente motivos políticos e econômicos que levaram à ação imperialista européia nos continentes africanos e asiáticos. Não podemos esquecer as sustentações ideológicas e filosóficas encontradas para o sistema, assim como o espírito que permeava a época. Teorias como o “darwinismo social”, com Herbert Spencer (filósofo, representante do positivismo e admirador da obra de Charles Darwin), tendo a Europa como o ápice do desenvolvimento em contrapartida dessas outras nações, consideradas primitivas; o início de doutrinas que pregavam a eugenia, de Francis Galton (antropólogo, estatístico e matemático inglês), assim como o controle social para o desenvolvimento de melhores raças humanas. Portanto, o processo neocolonial não possuía somente o braço econômico e político. Percebemos, ao estudarmos o período, que os traços ideológicos e filosóficos que cresceram no século XIX, embasavam e legitimavam as ações atrozes dos países europeus em territórios asiáticos e africanos. Como tentamos explanar nesse blog, os processos históricos não são estanques; acreditar que apenas uma linha de pensamento foi o guia principal para os acontecimentos é, no mínimo, ingenuidade.
Dica
CONRAD, Joseph. O Coração das Trevas
É considerada como uma das literaturas de viagens mais valiosas no que diz respeito aos escritos sobre o colonialismo e suas formas. Além de ser uma fonte literária valiosa para a realização de estudos históricos sobre colonialismo e imperialismo, pode-se utilizar a obra de Conrad para análises mais psicológicas. Um exemplo seria como a personagem Marlow, não se esquecendo que essa é, provavelmente, o alter-ego do próprio autor, se transforma com a viagem feita ao Congo. A sua reação taciturna perante os fatos, a maneira de narrar seu caminho para encontrar Kurtz e a morte deste, mostram a mudança psicológica vivida pela personagem. Marlow tenta manter uma “lucidez”, este conceito pautado na sua cultura européia, num mundo totalmente antagônico do que o seu próprio. Cada vez mais que Marlow penetra no interior da floresta congolesa, mais desiludido ele passa a ficar e por essa vertente o romance é delineado.
Filme: Apocalipse Now (Francis Ford Coppola, 1979) – teve como base a obra de Conrad e a guerra do Vietnã. Considerado um dos maiores filmes do século XX, ganhador de 2 Oscars.
SAID, Edward W. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 

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Revolução Russa

Ana Carolina Machado de Souza
A Revolução Russa de 1917 foi um evento político realizado em função da crise da autocracia czarista, levando à eliminação desta culminando na tomada do poder pelo governo bolchevique. A Revolução deu origem à primeira nação socialista do mundo com a formação da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas).
Diversas conjunturas levaram ao colapso da monarquia do Czar Nicolau II. O país ainda vivia em regimes considerados feudais, com a situação econômica basicamente agrária, ou seja, não se industrializaram assim como outros países da Europa. Contudo, é errôneo pensar que a Rússia era um país somente agrário. No governo do Czar Alexandre III, entre 1881-1894, houve um estímulo industrial, porém de pouca proporção já que o país era muito populoso. Desse modo a industrialização limitou-se às grandes cidades, criando um grande número de operários e uma classe média ascendente. Um aspecto comum entre os dois era pobreza, pois, assim como os camponeses viviam nessas condições extremas, os operários eram explorados pelos industriais. Contudo, as mudanças em relação ao campo tornaram-se visíveis, já que, a escolarização era necessária para a indústria; e o contato com culturas de outros países tornou-se mais constante. Mudou, assim, as manifestações e costumes nacionais, que sofriam, naquele momento, outras  influências.
Nicolau II em 1894
Outra conjuntura era a diversidade étnica existente na Rússia. O governo russo implementou, durante o reinado de Nicolau I (1825-1855), uma política chamada nacionalidade oficial, que possuía três pontos base fundamentais: a Igreja Ortodoxa Russa; autocracia dos Czares; e o predomínio do povo eslavo. O país era composto por diversos grupos diferentes, entre eles, poloneses, bálticos, asiáticos, finlandeses, e as minorias não eram protegidas pelos governos czaristas. Eram vitimas de violências proporcionadas pelas maiorias étnicas que lá viviam, e o descaso na segurança, entre outros problemas, fazia com que surgissem movimentos separatistas.
Outra grande crise foi a militar. Apesar de possuírem um dos maiores exércitos do mundo, haviam sofrido baixas significativas com as diversas guerras ocorridas durante o século XIX, como a Guerra da Criméia (1853-1856) e a guerra contra o Japão no século XX (1904-1905). Ao entrar na Primeira Guerra, eles estavam com pouca credibilidade com a própria população.
Além dessas conjunturas, uma efervescência cultural que ocorreu no país nesse período incomodou ao governo czarista, já que a liberdade de manifestação de grupos contrários era censurada. Todas essas crises e problemas encontrados foram estopins para o surgimento de movimentos políticos bem organizados que procuravam transformações na Rússia.
Os partidos políticos mais conhecidos foram o POSDR (Partido Operário Social-Revolucionário Russo), de 1898 e o Partido Social-Democrata Russo, de 1902. Porém, houve divisões dentro desse entre duas facções:
  • Bolcheviques, mais radicais, liderados por Lênin, buscavam uma luta revolucionária para a transformação efetiva da política na Rússia
  • Mencheviques, mais moderados, liderados por Martov, acreditavam num desenvolvimento pleno do capitalismo antes de iniciarem uma luta revolucionária.
Nicolau II, então, criou a Duma, uma espécie de parlamento, algo inexistente até então em seu governo, numa tentativa de ganhar tempo e contornar o problema. Ele prometeu, no Manifesto de Outubro, entre outros, realizar reformas na Rússia, e criar uma Constituição, portanto, daria início a um governo constitucional. Alguns partidos com tendência mais burguesa aceitaram a oferta, os que visavam uma transformação total não. Em 1905, a situação tornava-se cada vez mais tensa para o governo, pois os movimentos políticos que buscavam uma reforma estrutural no país cresciam. As promessas realizadas pelo czar não se cumpriram e a Duma tinha uma ação limitada e não resolveu a crise econômica e social.
Em janeiro 1905 ocorreu um episódio denominado Domingo Sangrento, no qual uma manifestação com cerca de 200 mil pessoas foi duramente repreendida pela guarda de Nicolau II, resultando na morte de diversas pessoas. Foi um momento chave para a explosão de greves e motins no país, como a queima de fazendas pelos camponeses, ou até a conhecida revolta no encouraçado Potemkin. Nesse mesmo ano surgiam os primeiros sovietes,  que eram conselhos formados por trabalhadores que organizavam os movimentos contra o regime autocrata.
massacre do “Domingo Sangrento”, Ivan Vladimirov, c. década 1910
Com diversos problemas graves no país, além da perda significativa de soldados na Primeira Guerra, a situação do governo absolutista de Nicolau II tornou-se insustentável. Em fevereiro de 1917, um grande número de trabalhadores e manifestantes invadiram uma reunião da Duma e os soldados russos se recusaram a reprimir o movimento, temendo um massacre como ocorreu em 1905. Portanto, sem força política e militar, o czar abdicou e instaurou-se um governo provisório. Essa foi a chamada Revolução de fevereiro de 1917, considerada de teor mais burguês.
Começou aí outra disputa: quem ficaria no poder. De um lado os sovietes de Petrogrado (até então a capital da Rússia), trabalhadores e militantes socialistas; de outro os deputados da Duma, basicamente liberais. Estes, ao fim, lideraram o governo provisório, com o comando do príncipe Georgy Lvov, e como ministro da Guerra um indivíduo que passaria a ser conhecido na História, Alexander Kerensky.  Um dado importante é que a Rússia manteve-se na guerra, e o ministro organizou uma ofensiva contra a Áustria-Hungria, mas, novamente, obteve baixas. O grupo de Petrogrado queria outra maneira de governar, lutavapela distribuição de terras para os camponeses, a criação de um exército voluntário, fim da participação na guerra e a mudança definitiva na política russa.
Lênin (Vladimir Ilitch Ulianov) estava no exílio, devido ao seu posicionamento contrário aos czares, porém regressou quando Nicolau II abdicou. Uma das suas primeiras ações foi dirigir-se à população incitando uma revolução socialista, já que o governo provisório não era a melhor solução aos problemas russos. Buscava a nacionalização das propriedades privadas e bancos, era contra o modelo liberal e publicou as Teses de Abril, da qual surgiu  o lema “Todo poder aos sovietes”, com a premissa de um governo dirigido ao povo russo pelos trabalhadores.
Lênin discursando, 1920
Toda uma articulação do movimento de esquerda simbolizado pelos sovietes passou a vigorar com mais força, principalmente com a decisão do governo de permanecer na Primeira Guerra. Leon Trostky já organizava um exército bolchevique, a Guarda Vermelha, e os trabalhadores, percebendo sua força política, a fraqueza do governo de Kerensky (que se tornou chefe de estado em julho de 1917), e incitados pelos discursos calorosos de Lênin, iniciaram a revolução soviete.
Em outubro de 1917, os bolcheviques tomaram o poder em diversos locais da capital, bloqueando vias de acesso, como estradas e ferrovias. A partir daí, invadiram o Palácio de Inverno, a sede do governo, cercaram os membros do governo provisório, e fixaram-se no local. A Revolução de Outubro estava feita, só faltavam as diretrizes do novo governo de influência socialista.  O poder agora estava com o Conselho de Comissários do Povo, no qual a maioria era bolchevique, contudo, existiam partidários que ainda não estavam plenamente satisfeitos ou que possuíam certa resistência à revolução. Um consenso entre todos era a necessidade de uma assembléia constituinte. Com a votação, os bolcheviques perderam a maioria por poucos votos e Lênin, sendo o dirigente do partido, publicou Teses sobre a assembléia constituinte, pela qual argumentava ser uma “democracia soviete mais importante do que a própria constituinte. Apesar de votos contrários, a cúpula do partido decidiu fechar a assembléia, e um governo somente soviete passou a vigorar.
Lênin publicou diversos decretos embasados nas Teses de Abril, e um dos primeiros atos do governo foi o tratado de Brest-Litovsk, em 1918, pelo qual a Rússia reconhecia sua derrota na guerra. Além disso, outras ações foram o confisco de propriedades privadas e a distribuição aos camponeses, assim como a nacionalização de algumas empresas.
Os problemas sociais e econômicos da Rússia não estavam ainda sendo resolvidos e partidários contra o regime bolchevique passaram a se mobilizar. Uma Guerra Civil estava para explodir, mas isso já é história para outro post….
Obs: as datas Fevereiro e Outubro são provenientes do calendário russo, que é 13 dias atrasado em relação ao nosso.
Dicas:
Filmes:
O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein (1925)- sobre a rebelião de 1905, uma das grandes obras de Eisenstein e considerado um marco na cinematografia mundial.

Doutor Jivago, de David Lean (1965) – a Revolução Russa de 1917 é o plano de fundo para a história de amor dos protagonistas. Uma obra premiada entre as maiores academias do mundo, ganhadora de 5 Oscars, 5 Globos de Ouro, 1 Grammy, além de indicações aos Prêmios de Cannes, o Bafta e David di Donatello.
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A Revolução Cubana

Bruna Borges

A segunda metade do século XX foi um período de grande mobilização política e social em toda América Latina, muitos movimentos sociais surgiram como resposta à conjuntura internacional da Guerra da Fria, que dividia o mundo em dois grandes blocos político-ideológicos: o capitalismo, chefiado pelos Estados Unidos; e o comunismo, liderado pela então União Soviética. Esta bipolaridade mundial foi decisiva para a Revolução Cubana, que destituiu do poder o ditador Fulgêncio Batista que, apoiado pelos Estados Unidos, foi uma espécie de representante dos interesses estadunidenses em Cuba.

Assim que Cuba tornou-se independente em 1898, os Estados Unidos buscaram diversas maneiras de manter sua influência sobre a ilha e a Emenda Platt, foi um mecanismo que perpetuou a interferência deste país sobre Cuba. Esta emenda era um anexo incluído, em 1901, na nova constituição cubana que garantia aos Estados Unidos o direito de intervir política e militarmente em Cuba sempre que os interesses do primeiro estivessem ameaçados. A Emenda Platt submeteu Cuba ao domínio dos Estados Unidos até 1933, ano em que Fulgêncio Batista assumiu pela primeira vez o governo cubano.

Fulgêncio Batista ocupou o cargo político máximo em Cuba por três vezes; a primeira foi entre 1933 e 1940 em que foi nomeado pelo governo dos Estados Unidos; segunda entre 1940 e 1944 como presidente oficial do país; e a terceira e última, como ditador, de 1952 e 1959. Entre 1933 e 1944, exerceu um governo forte no qual centralizou em sua figura as nomeações políticas, submeteu Cuba aos desejos e vontades dos Estados Unidos. Já em 1952, através de um golpe militar financiado pelos EUA, Fulgêncio voltou ao poder e instaurou um governo autoritário que restringiu liberdades, censurou a imprensa, perseguiu opositores e abriu ainda mais a economia cubana aos Estados Unidos.

Fulgêncio Batista

Cuba vivia então, sob forte influência econômica e política dos EUA, as indústrias de açúcar eram em sua maioria de empresários estadunidenses; e o açúcar era o principal produto de exportação da ilha. Cuba era então considerado o “quintal” das indústrias estadunidenses que encontravam nesse país a possibilidade de instalar suas empresas pagando baixíssimos impostos e remunerando com quantias irrisórias os trabalhadores cubanos.

Estavam instaladas em Cuba além de indústrias de açúcar, fábricas de automóveis, inúmeros hotéis e cassinos de grandes redes estadunidenses que foram usados para a lavagem de dinheiro. Esses cassinos e hotéis tornaram-se símbolos da desigualdade social e corrupção cubana, pois somente uma pequena parcela da população tinha acesso a estes lugares; parcela esta que detinha a maior parte das riquezas de Cuba.

Com o crescimento das desigualdades sociais e o cerceamento das liberdades, violência e corrupção, os setores opositores do regime político passaram a mobilizar-se para que a situação político-social cubana fosse modificada. Fidel e Raul Castro organizaram um levante  junto com um pequeno grupo de aliados e tentaram invadir o Quartel de Moncada, com a intenção de roubar as armas para então iniciar uma luta armada contra a ditadura. O plano fracassou, muitos rebeldes foram mortos e outros presos. Fidel e seu irmão Raul Castro foram presos, julgados e condenados a alguns anos de prisão. Porém, não cumpriram, pois foram beneficiados por uma anistia, então retiram-se de Cuba e seguem para o exílio no México.

Foi durante o exílio no México que passaram a organizar novamente a luta armada para retornar à Cuba e derrubar o ditador Fulgêncio; é nesse período de exílio que Fidel conhece uma das figuras mais emblemáticas da historia revolucionária mundial, o médico argentino Ernesto Che Guevara. Che solidariza-se com a luta cubana e se integra ao grupo de aproximadamente oitenta pessoas que treinaram e se prepararam para retornar a Cuba. Em 1956 regressam a Cuba para iniciar o treinamento guerrilheiro, mas logo na chegada o grupo foi surpreendido por uma patrulha militar e metade dos rebeldes foram mortos. Os sobreviventes fugiram para uma região conhecida como Sierra Maestra, região de floresta densa.

Fidel Castro e Che Guevara

Foi neste momento que a guerrilha ganhou subsídios para organizar-se de fato, essa região era bastante desconhecida para os militares de Fulgncio o que deu certa segurança para a organização do grupo. O movimento liderado por Fidel passou a ganhar muito apoio popular, inclusive de uma sólida rede urbana, que conta com a importante ajuda de Frank Pais Garcia, que foi um revolucionário que articulou uma infra-estrutura de abastecimento da guerrilha. A guerrilha cresce e ganha força, na noite de réveillon de 1958 para 1959, os guerrilheiros chegam à capital Havana e Fulgêncio fica encurralado, sendo obrigado a deixar o poder e a fugir do país.

Fidel chegou em Havana em 6 de janeiro de 1956 e organizou um governo provisório que reunia representantes de todas as tendências de oposição à Fulgêncio Batista, Fidel tornou-se o Comandante das Forças Armadas; o governo provisório era bastante eclético, mas quem mandava de fato em Cuba era o Comandante das Forças Armadas. Fidel passa a tomar decisões que feriram aos interesses econômicos dos Estados Unidos, como por exemplo, o plano de nacionalizar as terras, que lesaria aos empresários estadunidenses que perderiam suas posses. Os Estados Unidos ameaçam Cuba e Fidel decide nacionalizar todas as empresas estadunidenses do país; foi nesse momento que os Estados Unidos iniciam o embargo comercial, que rompeu as relações econômicas com Cuba.

Foi neste exato momento que a União Soviética entra neste cenário político declarando apoio ao novo governo cubano e passa a enviar a Cuba todo o tipo de ajuda como dinheiro, armas, petróleo. Fidel passa a tomar decisões que aproximam Cuba à União Soviética. Com uma tentativa de tirar Fidel do poder, o governo dos Estados Unidos organiza, em 1961, realiza uma ação militar conhecida como Invasão da Baía dos Porcos, que foi um episódio catastrófico que matou centenas de homens. Fidel, usando deste acontecimento anuncia que a partir daquele momento Cuba integrava-se ao bloco soviético, se transformando no primeiro país americano declaradamente socialista.

Este acontecimento foi um choque para a hegemonia estadunidense na América Latina, pois a partir daquele momento, a União Soviética tinha um aliado a mais ou menos 150 quilômetros da costa de Miami, e num contexto de Guerra Fria isso era praticamente uma derrota dos Estados Unidos para os soviéticos. A situação agravou-se ainda mais no ano seguinte com o episódio da Crise dos Mísseis quando os soviéticos instalaram uma base de mísseis em Cuba; este é considerado por alguns historiadores o momento mais tenso, o auge da Guerra Fria, em que o mundo temeu pela concretização da guerra nuclear.

A União Soviética passa a investir pesadamente em Cuba, para que este país figurasse como uma vitrine do socialismo para a América Latina, a ilha viveu seu momento auge com os índices de analfabetismo zerados, ampliação da expectativa de vida através da construção de uma ampla rede hospitalar e criação de universidades de ponta. Porém, esse nível de desenvolvimento entra em crise por causa do fim da União Soviética, mas a ilha apesar das dificuldades não deixa de ser socialista e assim mantêm-se até os dias de hoje.

A Revolução Cubana foi um processo de guerrilha que durou vários anos, foi uma revolução democrática que visava a liberdade e autonomia da nação, que foi em seus instantes iniciais antiimperialista e somente depois tornou-se socialista. Foi, como já mencionado um dos acontecimentos políticos mais marcantes e importantes da América Latina durante os anos de Guerra Fria.

Dicas

Fernando Morais, A ilha. Companhia das Letras, 2001.

AYERBE, Luis Fernando. Revolução Cubana.Ed Unesp, 2004

Filme que narra a trajetória de Che Guevara com um relato interessante sobre a Revolução Cubana e sua amizade com os irmãos Raul e Fidel Castro.

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A Igreja Católica e a Ditadura Militar

Ana Carolina Machado de Souza
O apoio despendido pela Igreja Católica no início do governo militar foi providencial para a concretização do golpe. Essa mobilização por parte da Igreja ocorreu, principalmente, como combate à ameaça do Comunismo, com sua crença ateísta, e ao crescimento inerente dos movimentos de esquerda durante a década de 1960. A ação da Igreja não foi muito diferente de diversos setores da sociedade que, temendo a desintegração e a desordem social, se aliaram ao regime. Porém essa aliança não se manteve constante durante os 21 anos de ditadura militar. As mudanças políticas do pós-64, com as violações aos direitos humanos, repressões contra diversas instituições e a censura midiática, levaram aos bispos e clérigos a adotarem medidas mais progressistas.
Em 31 de março de 1964, o golpe militar finalizou a curta experiência democrática vivida pela sociedade brasileira. Uma das principais metas dos primeiros anos do regime foi construir uma legitimidade para a adoção de tal golpe antidemocrático. Por sua vez em 1968 o governo definitivamente mostrou a que veio e em dezembro daquele ano institucionalizou o AI-5.
Os conflitos internos na própria Igreja Católica causavam um ambiente ambíguo, pois de um lado estava a esquerda católica, que defendia uma mudança radical, e de outro os mais tradicionais, fiéis à antiga concepção de fé, de onde surgiu a direita católica. Este setor ajudou a provocar uma crise política na época do presidente João Goulart, auxiliando a queda do mesmo, e a instauração do golpe militar em 1964. A polarização dos eclesiásticos estava, em sua maioria, entre reformistas e modernizadores conservadores, sendo que estes não favoreciam, de forma mais aberta, nem os tradicionalistas nem a esquerda.
Apesar de estar dividida, entre 1963 e 1964, atendendo aos temores da sociedade civil, os modernizadores conservadores ganharam as eleições da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), ao derrotarem os progressistas.
A partir da segunda metade do século XX algumas mudanças começaram a ser operadas no interior da igreja brasileira. As transformações políticas e sociais presenciadas pelo povo brasileiro, tanto no contexto interno quanto internacional, foram de extrema importância para o novo caminho escolhido pela instituição. A sociedade brasileira estava em franco processo de modernização, e se desenvolvia providencialmente, tornando-se um país mais industrializado. Apesar dos diversos aspectos que podem ser enumerados, dois obtém maior destaque: a profunda reformulação que o Catolicismo estava sofrendo com o Concílio Vaticano II (realizado entre 1962-1965), sob a tutela do Papa João XXIII; e a necessidade de adotar uma nova visão, devido à desmoralização da Igreja. Tal Concílio instigou um novo olhar sobre o mundo moderno, numa tentativa de amenizar o extremismo da visão católica na sua relação com o homem, uma nova relação de alteridade também com outros credos.
Outro episódio de extrema necessidade para entender a igreja no contexto latino-americano foi a II Assembléia Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano, realizada em Medellín, em 1968. A Conferência na Colômbia surgiu devido a uma ação do Papa Paulo VI, no intuito de aplicar as mudanças indicadas pelo Concílio Vaticano II às necessidades da Igreja Católica da América Latina. Dentre todas as propostas, três foram as principais: a opção pelos pobres, no sentido de a igreja defender os direitos e denunciar as injustiças; a libertação integral, o que implicava em críticas ao capitalismo; e, por fim,  a escolha das comunidades eclesiais de base (conhecidas como CEBs), como o lugar chave para o encontro das classes que mais necessitavam de ajuda.
Essas CEBs não estavam ligadas apenas à caridade propriamente dita, pois também eram lugares de reflexão, ou seja, a população deveria realizar a sua mudança também internamente. Aqui se observa  a grande transformação proposta pela igreja, já que nunca antes houve uma aproximação tão intensa entre o povo e os eclesiásticos. Medellín obteve um sucesso relativamente grande para o crescimento de uma igreja popular. Antes de mais nada, o homem seria o centro das atenções do continente.
As novas práticas de evangelização fizeram com que a Igreja criasse uma serie de organizações para estabelecer um contato mais estreito com seus fiéis. Além das comunidades eclesiais, surgiram, também, a JOC (Juventude Operária Católica), para se aproximar dos operários, a JUC (Juventude Universitária Católica), dos estudantes. Nos anos posteriores apareceram o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), a CJP (Comissão de Justiça e Paz) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra).
  Na década de 1970 o Brasil entrou numa nova fase da ditadura, com maior rigidez e desenvolvimento, que foi denominada pelos militares como milagre econômico. Variados projetos de forte impacto econômico e social foram introduzidos no país, com obras de infra-estrutura, principalmente com financiamento internacional. Contudo, a repressão e opressão, no intuito de neutralizar os grupos opositores, religiosos e civis, foram acirradas. Nessa época houve o deslocamento de alguns setores da Igreja, muitas vezes ligados ao Estado e aos grupos dominantes, a uma posição de maior proximidade das classes mais baixas, com essa nova necessidade de se pensar o papel social da Igreja.
Uma grande força foi a Teologia da Libertação, criada desde 1952, mas que tomou vôos maiores a partir do final da década de 1960, com o recrudescimento do regime militar. Esta igreja libertadora pensava na defesa dos oprimidos e no levante contra a fome, além disso, lutavam pelo direito à propriedade privada, pelo desenvolvimento social, pelos direitos humanos. A Teologia da Libertação entende que a igreja deve caminhar ao lado dos oprimidos, deve ver a realidade a partir da ótica dos pobres, portanto a e a prática pastoral tem que seguir essa ideologia.
O apoio da igreja católica aos golpistas militares começou a cessar a partir do momento que a rigidez opressora aumentou consideravelmente. Entre 1964 e 1968, a CNBB pouco se manifestou sobre a repressão do  governo militar. Contudo no final da década de 60, em uma Assembléia Geral, próximo à CELAM em Medellín, os bispos passaram a abordar esses assuntos polêmicos, mesmo que ainda com certos graus de moderação.
A adoção de posições mais críticas pela igreja e pela CNBB também está relacionada ao dinamismo que a Conferência adquiriu durante esses anos e em função do recrudescimento da repressão. As torturas praticadas em São Paulo, as perseguições contra os camponeses na Amazônia e contra os eclesiásticos nordestinos afetaram diretamente a Igreja no Brasil. No ano de 1970, um documento muito mais enfático foi divulgado pela CNBB, que dizia:
Não podemos admitir as lamentáveis manifestações da violência, traduzida nas formas de assaltos, seqüestros, mortes ou quaisquer outras modalidades de terror. Pensamos primeiramente no exercício da JUSTIÇA, que, sinceramente, cremos estar sendo violentado, com freqüência, por processos levados morosa e precariamente, por detenções efetuadas em base a suspeitas ou acusações precipitadas, por inquéritos instaurados e levados adiante por vários meses, em regime de incomunicabilidade das pessoas e em carência, não raro, do fundamental direito de defesa. Seríamos omissos se não frisássemos, neste momento, nossa posição firme contra toda e qualquer espécie de tortura. (Documento da Décima Primeira Assembléia Geral da CNBB, SEDOC, 3 (1970-1971): 85-86 APUD MAINWARING Igreja Católica e Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.p.130.)
A partir do momento em que a Igreja estreitou seus laços com os outros segmentos sociais, principalmente as classes populares, e passou a se levantar contra o regime, diversos membros passaram a ser perseguidos e serem alvos da repressão policial.
Apesar de todas as mudanças que a Igreja sofreu durante os anos 1960 e 1970, deve-se ter um mente que as instituições religiosas não se modificam, ou tornam-se progressistas a partir do momento em que é instaurado um governo repressor no seu país. É inquestionável que, durante a História, a Igreja ocupou um lugar próximo ao poder econômico, político e cultural dominante. Isso é visível na estruturação da hierarquia eclesiástica, sempre ordenada de cima para baixo, rigidamente pensada em não deixar brechas para a participação popular nas ordenações. A união entre o Estado e a Igreja tinha por interesse a maior concentração de poder, além disso, exercer maior controle sobre a população.
Aspectos econômicos não mudam por completo a percepção política eclesiástica. Algumas partes da igreja em território brasileiro pouco se alteraram, pois imperava um regionalismo que se sobrepunha ao poder nacional. E é sempre necessário lembrar que essa mesma Igreja que contestou o regime, o apoiou no seu início. O que ocorreu no Brasil foi o profundo abalo na sociedade civil, principalmente no que se refere ao cancelamento dos direitos políticos e a pouca importância dada aos direitos humanos. Todavia, esses não foram os únicos causadores da transformação do catolicismo brasileiro. A renovação eclesiástica era encorajada internacionalmente, e o Concílio e a CELAM são provas dessas manifestações. Os conflitos surgiram diante da discrepância entre o projeto eclesiástico, pautado na justiça social, e os interesses dos militares.
Mais do que os ataques prestados contra a Igreja pelo regime militar, também um dos motivos da ruptura dessa com o Estado, o que estava em jogo era o conflito de interesses entre as duas instituições. A Igreja por si só já estava se modernizando e rompendo barreiras existentes dentro dela mesma, portanto era criada uma nova identidade acerca da doutrinação mundial católica. Esta atingiu patamares elevados na América Latina, principalmente no Brasil, devido ao contexto político e social vivido aqui. Não se pode isolar nem as condições políticas e nem a doutrina institucional e promover processos estanques e lineares para explicar as diferentes posições tomadas pela igreja no Brasil. A História não é uma linha constante e infindável em que se pode explicar apenas por processos de causas e conseqüências. As relações humanas são muito mais complexas.

 

Dicas:
SERBIN, Kenneth P. Diálogos na Sombra. Rio de Janeiro, Companhia das Letras, 2001.
MAINWARING, Scott. Igreja Católica e Política no Brasil (1916-1985). São Paulo: Editora Brasiliense, 1989.
Filme:
Batismo de Sangue (2006). Direção: Helvécio Ratton
Baseado no livro homônimo escrito por Frei Betto, lançado em 1983. Basicamente, narra a história de religiosos que resolveram se aliar à ALN (Aliança Libertadora Nacional) contra o regime militar.

 

 

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